Quando a brasileira Marina Lacerda revelou ao mundo que Jeffrey Epstein a havia abusado sexualmente quando ela tinha 14 anos, as ameaças começaram quase imediatamente.
Em setembro, ela e outras acusadoras compareceram a uma coletiva de imprensa pressionando pela divulgação dos arquivos de Epstein.
“Ela ficará sem vida”, escreveu um desconhecido em um vídeo do YouTube com uma reportagem sobre Lacerda naquele dia. “Ela realmente deveria ter ficado calada. Descanse em paz.”
O assédio se intensificou quando o nome de Lacerda apareceu pelo menos 46 vezes em documentos não editados do Departamento de Justiça dos Estados Unidos meses depois.
Na internet, ela foi chamada de mentirosa, prostituta e disseram que ela mereceu o que lhe aconteceu. A filha dela de 12 anos foi alvo de provocações na escola, com colegas perguntando se ela era filha de Epstein.
Hoje, a brasileira vive com a filha em um condomínio fechado e dorme com uma pistola na mesa de cabeceira. “Tenho medo de que alguém entre em casa”, disse ela. “Vivo paranoica o tempo todo.”
Vítimas perseguidas
Ela é uma das 23 acusadoras de Epstein identificadas pela agência de notícias Reuters que sofreram ameaças, assédio e intimidação por parte de trolls, haters e outros inimigos – algumas depois de falarem publicamente sobre os abusos, outras depois de terem as identidades reveladas nos arquivos do Departamento de Justiça sobre Epstein, e em alguns casos, nas duas situações.
O assédio se manifestou de diversas formas. Estranhos fotografavam as casas das mulheres. Carros desconhecidos ficavam parados do lado de fora e fugiam em alta velocidade quando confrontados.
Algumas mulheres receberam ameaças de violência, incluindo ligações de pessoas que afirmavam saber onde elas moravam. Várias dizem que não saem mais de casa sozinhas.
O Departamento de Justiça americano afirmou ter tomado medidas para proteger as informações das vítimas após a divulgação de milhões de páginas de arquivos investigativos relacionados a Epstein entre dezembro e janeiro e agiu rapidamente para corrigir erros de redação assim que foi notificado.
Questionada sobre a forma como lidou com os arquivos para esta reportagem, a porta-voz do Departamento de Justiça dos EUA, Natalie Baldassarre, disse que “nenhuma vítima deve sofrer assédio, ameaças ou intimidação após se apresentar”.
Ela acrescentou que o departamento “não é responsável pela reação negativa direcionada às vítimas que revelaram voluntariamente suas identidades muito antes da publicação dos arquivos”.
A ex-procuradora-geral Pam Bondi, demitida pelo presidente Donald Trump em abril, reconheceu “erros de redação” em depoimento ao Congresso dos EUA em 29 de maio sobre a forma como o Departamento de Justiça lidou com os arquivos de Epstein.
Segundo ela, a responsabilidade pela divulgação dos documentos foi delegada ao seu então vice, Todd Blanche.
“Cometemos erros e os assumimos”, testemunhou Blanche, agora procurador-geral interino, perante uma comissão do Congresso em 19 de maio. “É claro que, sempre que divulgamos o nome de uma vítima que não deveria ser divulgado, falhamos como Departamento de Justiça.”

Para as 23 mulheres entrevistadas pela Reuters, a agência de notícias analisou a documentação de suas alegações contra Epstein – grande parte dela em registros judiciais ou policiais – ou confirmou que elas receberam indenização por meio de fundos aprovados pelo tribunal ou acordos.
Todas relataram que o assédio agravou o dano que, segundo elas, Epstein lhes causou, colocando-as no centro de um escândalo criminal nacional persistente, alimentado pela política de Washington e por sua própria luta por responsabilização.
Parlamentares dos partidos Republicano e Democrata envolveram algumas das mulheres em batalhas políticas.
Elas foram convidadas para eventos de grande repercussão, incluindo o discurso anual sobre o Estado da União, para pressionar o governo Trump sobre sua condução do caso, exigir a divulgação de mais arquivos e buscar maior responsabilização dos associados de Epstein.
Dilema da denúncia
As acusadoras enfrentam um dilema delicado: falar abertamente pode chamar a atenção para abusos que permaneceram impunes por muito tempo, mas também expô-las a mais danos.
Pelo menos dez das mulheres entrevistadas informaram que agora possuem armas – incluindo pistolas, armas de choque, spray de pimenta ou facas – ou utilizam segurança armada para proteção.
Quase todas as mulheres descreveram viver em constante estado de alerta. Quatro delas disseram à Reuters que denunciaram ameaças à polícia, mas os casos não resultaram em processos porque as autoridades não conseguiram identificar suspeitos ou determinar se um crime havia ocorrido, segundo as mulheres e os registros policiais.
Um caso permanece sob investigação, informou a polícia. Outras vítimas afirmaram que optaram por não contatar as autoridades, citando desconfiança enraizada no que consideraram falhas anteriores em relação às suas denúncias de abuso.
No caso de Marina Lacerda, um porta-voz do YouTube disse que a ameaça “inexistente” foi removida depois que a Reuters solicitou um posicionamento da plataforma de compartilhamento de vídeos.
As motivações daqueles que ameaçam as mulheres variam da culpabilização da vítima às teorias da conspiração. As mulheres foram alvo de críticas de todo o espectro político – às vezes por votarem em Trump, mais frequentemente por criticarem sua gestão dos arquivos de Epstein ou por sugerirem que ele está acobertando informações.
O presidente americano foi amigo do empresário por anos. Ele negou ter conhecimento dos crimes sexuais do financista.
Algumas vítimas são acusadas de buscar dinheiro ou atenção, rotuladas como prostitutas ou golpistas. Outras, particularmente aquelas da Rússia ou do Leste Europeu, foram chamadas de espiãs estrangeiras.
Alguns trolls questionam por que algumas mulheres voltaram para Epstein depois de serem abusadas; outros dizem que as mulheres que tinham 18 anos ou mais quando foram vitimadas têm argumentos frágeis.
Até mesmo mulheres que eram menores de idade na época enfrentaram críticas. Alguns assediadores sugerem que elas deveriam ter entendido os riscos ou culpam seus pais por não as protegerem.
Ao mesmo tempo, as mulheres receberam elogios generalizados por se manifestarem e trazerem à tona os abusos de Epstein, há muito tempo ocultos.
Grupos de defesa dos direitos das mulheres, legisladores republicanos e democratas e outros as chamaram de corajosas.
O caso Epstein
Epstein se declarou culpado na Flórida em 2008 por acusações de prostituição, incluindo aliciamento de uma menor de idade, em um acordo que resultou em 13 meses de prisão.
Preso novamente em julho de 2019 sob acusações federais de tráfico sexual envolvendo menores em Nova York e na Flórida, ele morreu em uma prisão de Manhattan enquanto aguardava julgamento. A morte dele foi considerada suicídio.
Cerca de US$ 425 milhões foram pagos a pelo menos 200 vítimas por meio de um fundo de compensação e acordos com seu espólio e bancos acusados de facilitar os abusos. Sua cúmplice, Ghislaine Maxwell, foi condenada em 2021 e cumpre pena de 20 anos.
Em pelo menos 6.250 casos, nomes, endereços, números de telefone, datas de nascimento e fotos apareceram sem redação nos arquivos de Epstein divulgados pelo Departamento de Justiça, expondo as identidades de pelo menos 177 mulheres – em alguns casos, repetidamente, para as mesmas mulheres, disse Brittany Henderson, cujo escritório de advocacia na Flórida representa pelo menos 250 acusadoras de Epstein.
A agência de notícias Reuters não conseguiu verificar esse número de forma independente. Mas o Departamento de Justiça dos EUA afirmou, em uma carta de fevereiro aos juízes que supervisionam os casos contra Epstein e Maxwell, que removeu “vários milhares de documentos e mídias que podem ter incluído inadvertidamente informações que identificam as vítimas”.
Todd Blanche afirmou em seu depoimento de 19 de maio que o departamento removia documentos “assim que” as vítimas ou seus advogados os denunciavam e que havia advogados trabalhando “24 horas por dia, 7 dias por semana” para “garantir que corrigíssemos todos os problemas”.
No entanto, mesmo após os erros serem sinalizados, informações pessoais permaneceram visíveis, às vezes por meses, conforme análise da Reuters de arquivos e e-mails enviados pelos advogados das mulheres ao Departamento de Justiça.
Em dezenas de casos, explicou Henderson, as informações permaneceram públicas mesmo depois que ela denunciou os erros. Alguns foram corrigidos em poucos dias, mas outros ficaram sem solução por semanas ou foram republicados sem a devida redação.
O Departamento de Justiça se recusou a comentar os casos específicos de Henderson. Mas o porta-voz disse que “leva a redação de informações pessoais das vítimas a sério” e que, quando informações pessoais são encontradas sem redação, “nossa equipe corrige o problema rapidamente e republica as páginas devidamente redigidas”.
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