
Estamos preparados para envelhecer em uma democracia? Há uma revolução em curso acontecendo diante dos nossos olhos. Estamos vivendo mais. Estamos vivendo melhor? Viver mais não significa viver melhor.
Durante muito tempo, envelhecer foi quase sempre entendido como viver recolhido. Ficar no aposento. Como se, depois de certa idade, a pessoa tem que diminuir a sua voz, aceitar ser passado para trás. Nossa sociedade insiste em dizer para todos 60+: vocês já fizeram a sua parte, agora, cedam o seu lugar. Deixem de viver! Nada disso. Não aceitamos essa realidade. Temos muito o que contribuir e desejamos continuar participando da vida. Alto lá!
A democracia que tanto lutamos por ela, é uma cadeira para todas as pessoas. Para todas as idades. Temos o direito de continuar existindo. Direito de continuar pertencendo. Uma sociedade que envelhece, como a nossa, precisa construir uma nova cidade, com políticas públicas, mais espaços de cultura, outros modos de convivências. Temos o direito ao futuro. Sim. Direito ao futuro. O futuro não pertence apenas aos jovens. Nós, pessoas idosas, desejamos o amanhã.
Uma democracia que envelhece precisa aprender a lidar com uma realidade nova: haverá cada vez mais pessoas idosas, vivendo por mais tempo e, em muitos casos, participando da vida política, econômica, cultural e comunitária, como já acontece no nosso dia a dia.
O que representa, sem dúvidas, uma grande conquista para a nossa civilização. Mas também coloca algumas perguntas importantes para nós: como garantir que o aumento da longevidade venha acompanhado de dignidade, participação e justiça entre as gerações?
A democracia não pode ser compreendida apenas como o direito de votar. O que é muito importante!. Mas, a democracia pressupõe a participação de todas e de todos na construção da sociedade.
Por isso, eu defendo que o envelhecimento não pode ser tratado como um problema a ser administrado. Tem que ser visto como uma dimensão da nossa cidadania. As pessoas idosas não são apenas beneficiárias de politicas públicas; elas são, nós somos, sujeitos políticos, portadores de direitos, de memórias e de muita capacidade para contribuir para as decisões coletivas.
Envelhecer é uma experiência individual. Mas, o envelhecimento da população é uma questão coletiva. E essa é uma das grandes perguntas políticas do século XXI: seremos capazes de transformar o aumento da longevidade em mais democracia, mais solidariedade e mais humanidade nesse quadro ameaçador do avanço da extrema direita entre nós?
Penso que o envelhecimento da população pode ser uma oportunidade para aprofundar a nossa democracia – tão enfraquecida nesses tempos – pela convivência entre as gerações: os mais velhos oferecem experiência e perspectiva histórica, enquanto que os mais jovens podem trazer novas linguagens, tecnologia e formas organização social.
O verdadeiro desafio não é escolher entre os mais novos e os mais velhos. É construir uma sociedade, uma cidade onde ninguém precise perder para que o outro possa ganhar. O envelhecimento da população não deve ser encarado como uma ameaça à democracia, longe disso; mas, como uma oportunidade para fortalecê-la, tão frágil que está.
Para isso acontecer é necessário transformar a longevidade em um projeto político coletivo de todos nós. Onde viver mais seja participar mais, ter direitos assegurados, e continuar contribuindo com a sociedade. É fazer da longevidade não apenas uma conquista demográfica. Mas, sobretudo, uma conquista democrática.

