
O assunto já nem é novo de tanto que repercutiu nas redes sociais e na mídia. Mas eu não poderia deixar de passar um tema tão auspicioso aqui na coluna. Pois, tem jogada que a gente não espera ver no mesmo campo. Se hoje falamos de Gustavo Scarpa e dos clubes do livro no futebol, é porque o meia do Atlético resolveu entrar em campo por outro time: o da literatura. O que parecia lance isolado virou partida inteira, com torcida, vestiário e até clássico regional no meio. O placar final? Gol de placa para a leitura.
O primeiro tempo
Scarpa não é novato nessa história. Desde 2018, o camisa 10 do Galo divide resenhas de livros no Instagram, sempre com gosto refinado: clássicos da literatura universal e autores nacionais de primeira linha. Mas foi no Canal do Scarpinha, no YouTube, que a bola entrou.
Numa resenha de dez minutos sobre “A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstói, o meia falou de vida, morte e do tempo que desperdiçamos, e o vídeo furou a marcação: mais de 647 mil visualizações. De repente, o clássico russo, publicado em 1886, estava no topo dos mais vendidos da Amazon Brasil. E não por um dia, dois dias seguidos de liderança, ou seja, jogo de ida e volta com direito a prorrogação. O efeito atravessou fronteiras. Uma livraria na Argentina chegou a ficar sem entender a súbita procura pela obra. A resposta? Um meia brasileiro indicando Tolstói.

A torcida entra em campo
Movimento bonito puxa movimento. A torcedora Carolina Marques criou a Galeitura, clube do livro da torcida alvinegra com as indicações do jogador, e a ideia escalou rápido: o grupo reúne cerca de 500 membros e contagiou até o vestiário. O próprio Scarpa revelou que vários companheiros também são leitores e se disse surpreso com a adesão. “Nunca me senti tão famoso”, brincou o meia, que já elegeu “Flores para Algernon” como livro do ano e acumula indicações de peso, como “O Senhor das Moscas”, de William Golding, “A Noite”, de Elie Wiesel, “Carta ao Pai”, de Franz Kafka e Cabeça de Santo, de Socorro Acioli.
O contágio foi tão grande que outras torcidas entraram na jogada. No Corinthians, nasceu a Fiel Leitura. No Cruzeiro, os torcedores criaram os Crureitores, nome digno de melhor escalação. Aí, porém, o jogo esquentou fora das quatro linhas: o projeto cruzeirense foi alvo de ataques e o perfil acabou apagado das redes em poucas horas. Cartão vermelho para esse tipo de torcedor, que confundiu clássico regional com falta de educação. Livro bom não veste camisa de time nenhum.
A bola continua rolando
A Galeitura virou notícia internacional, com direito a manchete no Marca, principal jornal esportivo da Espanha. Tudo porque um jogador decidiu que, além de dar passes em campo, queria passar adiante o que aprendeu lendo.
E essa é a melhor parte da coluna de hoje. Não precisa ser craque para entrar nessa partida. Basta pegar um livro, seja um Tolstói ou um autor da próxima esquina, e fazer o próprio gol de placa. No futebol e na leitura, o importante é não deixar a bola cair no chão. E torcer para o apito final demorar a chegar.

