
Mesmo quem nunca pensou em participar tem que ficar impressionado com os números e a dimensão que tomou o que era uma “feira de livros”. A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo se encerrou no domingo, 13, com números que parecem de festival de música: 760 mil visitantes em dez dias no Distrito Anhembi, o maior público da história do evento. E o mais impressionante não foi só a multidão. Foi o comportamento dela.

O público que tomou a feira de assalto
Mais da metade dos visitantes teve acesso gratuito, e as filas nos corredores do Anhembi lembravam shows de grande porte. Eram jovens carregando sacolas de mangás, famílias inteiras, filas para autógrafos com cara de ingresso de arena. O evento cresceu 28% em área, chegando a 87 mil m², com 269 expositores e cerca de 800 autores, a grande maioria brasileira. Tinha programação noturna só para adultos, cashback nos ingressos e uma energia que nenhuma feira literária brasileira havia visto antes.
O evento registrou um aumento de 57% na média diária de faturamento dos expositores em relação a 2024. Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras, chamou a edição de “a Bienal de todos os recordes batidos” e também “a Bienal da esperança, pela presença maciça de jovens que tomaram as ruas da feira para si, com entusiasmo e amor pelos livros”. Vêm polêmicas abaixo, mas já vou deixando minha opinião, sou daquelas “tudo pelo livro”, mesmo que tenha sido tumultuado, valeu muito para quem foi ou ouviu falar, pois ler é abrir as portas da mente, seja qual livro for, de colorir, de chorar, conhecer clássicos, leitura rasa. Não importa, este é um hábito saudável, sempre.
Filas, banheiros e os espinhos do sucesso
Todo esse tamanho, porém, cobrou seu preço. Nos dias mais cheios, o que mais se ouviu nos corredores foram queixas sobre as filas nos banheiros femininos. Uma cena que toda organizadora de evento grande conhece de perto e que expõe um problema clássico de infraestrutura: a proporção de banheiros não acompanha a explosão do público.
E houve o episódio que transcendeu a feira e foi parar nas redes sociais. Um homem mascarado, simulando um personagem de dark romance, circulava pelo estande da editora Fruto Proibido tirando fotos com mulheres em poses sugestivas. Os vídeos se espalharam, geraram debate entre quem achava inofensivo e quem considerava um exagero de marketing em um ambiente familiar. A própria organização notificou a editora, que afirmou não ter contratado os mascarados para nenhuma performance oficial na programação. O caso virou a grande polêmica da edição e reabriu uma conversa necessária: até onde vai o limite da divulgação de um gênero, o dark romance, que está entre os mais vendidos do país e que provoca reações tão diferentes entre leitores?
Polêmicas e performances não faltaram. Teve por toda parte um pato (ou vários) bombando pelos mais diversos produtores de conteúdo literário. Vou me privar de comentar a divergência sobre Anne Frank chamada de vitimista. E ninguém brilhou (ou vendeu tanto) quanto Raphael Montes, escritor brasileiro em ascensão também na literatura mundial.
As editoras que bateram todos os recordes
O fato é que, para as editoras, a Bienal foi quase um bilhete premiado. A Companhia das Letras cresceu 67% em faturamento e 55% em volume de exemplares vendidos. O destaque da casa foi o thriller erótico “A estranha na cama”, de Raphael Montes, número 1 de vendas no estande, com outros oito títulos do autor entre os 15 mais vendidos. O grupo reuniu mais de 50 autores em bate-papos e sessões de autógrafos.
A HarperCollins terminou com resultado duas vezes e meia maior que o de 2024. E o que mais chamou a atenção foi a quantidade de livros, autores e opções diferentes dentro da ficção encontrando seu espaço, com força especial da literatura jovem, religiosa e infantil.
O Grupo Editorial Record já havia vendido mais de 170 mil exemplares até domingo, alta de 76% sobre o mesmo período da edição anterior. Entre os campeões estavam Verity, de Colleen Hoover, Quando, de Carla Madeira, e Meu mafioso favorito, de Babi A. Sette.
Os autores de maior peso na soma geral foram Colleen Hoover, Sarah J. Maas, Holly Black, Freida McFadden e as brasileiras Carla Madeira e Babi. As obras nacionais venderam cerca de 30% a mais. Para a casa, parte do sucesso veio da movimentação noturna e do cashback nos ingressos.
O que isso diz sobre o leitor brasileiro
Os números da Bienal reforçam uma história que já vinha se desenhando nos levantamentos do setor: o Brasil está lendo mais – ou pelo menos, quem compra livros, está comprando mais, e quem puxa essa virada é a geração que muitos imaginavam perdida para a tela do celular. O mesmo público do scroll infinito é o que lota sessões de autógrafos, forma filas em lançamentos de mangás e faz um thriller erótico esgotar em dias. A leitura não morreu. Ela mudou de cara, de formato e de cenário.
A Bienal de 2026 mostrou que o livro voltou a ser um lugar de encontro, de festa e até de polêmica, e quem se incomoda com isso talvez não tenha entendido o recado. Um evento literário com público de festival, faturamento de show e coração de feira livre é exatamente o que um país em processo de redescoberta da leitura precisava. Que as próximas edições aprendam com as filas dos banheiros e cuidem dos limites do marketing, mas que nunca percam essa multidão que transformou uma feira de livros no maior espetáculo cultural do ano.
Fonte dados: Publishnews

