Aliados de Flávio Bolsonaro (PL) em São Paulo têm engrossado a narrativa de tentativa de interferência política do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, nas eleições deste ano.
A avaliação foi reforçada nos bastidores nesta terça-feira (15) em trocas de mensagens entre autoridades ligadas à direita.

A coluna teve acesso a algumas conversas, em que muitos atribuíram a movimentação ao resultado da pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (14). O levantamento mostrou Flávio com 42% das intenções de voto contra 40% de Lula (PT) em um eventual segundo turno, colocando o senador à frente do petista pela primeira vez desde o início das medições.

Outros citaram que o ministro foi “para o tudo ou nada”. “Mais um abuso” e “bateu o desespero” também foram frases trocadas entre o grupo.

As conversas recomeçaram pela manhã, após Dino pedir ao presidente da Corte, Edson Fachin, que seja investigada uma possível relação entre o Banco Master, o Instituto Iter — ligado ao ministro André Mendonça — e contratos firmados pelo município de São Paulo. No documento, Dino deu 10 dias para a Prefeitura de São Paulo, administrada por Ricardo Nunes (MDB), aliado de Flávio, e para a SP Regula se manifestarem sobre os fatos novos.

Em São Paulo, Nunes faz parte do principal grupo político de Flávio. Os dois se aproximaram nos últimos meses e muitos aliados tem visto o prefeito como principal fiador da campanha do senador no Estado – na frente até do governador Tarcísio de Freitas. Como vem mostrando a coluna, é Ricardo Nunes que vem desenhando estratégias, promovendo encontros e pensando programações para a corrida ao Planalto.

A movimentação de Dino ocorre na sequência de outras medidas que já vinham sendo interpretadas pelo grupo de Flávio como possível interferência política.
Na última sexta-feira (11), por exemplo, o ministro determinou que a Polícia Federal abrisse um inquérito exclusivo para investigar o contrato entre o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Prefeitura de São Paulo para o fornecimento de serviços de Wi-Fi na periferia da capital paulista.

O ICB pertence à empresária Karina Gama, dona da produtora Go Up, responsável pelo filme “Dark Horse”. Na ocasião, Nunes reclamou publicamente que Dino estaria “politizando” a questão.

Na semana passada, Flávio também acusou publicamente Dino de “tentativa de interferência política” após a Polícia Federal deflagrar, na quinta-feira (10), uma operação para investigar suspeitas de desvio de recursos de emendas parlamentares para entidades ligadas à produtora do filme “Dark Horse”.

Em nota, a prefeitura de São Paulo disse que a capacidade econômico-financeira das empresas é acompanhada permanentemente, e os contratos são fiscalizados de forma contínua e regular. “Causa estranheza o direcionamento de suspeitas à administração municipal justamente em um momento de graves questionamentos envolvendo o Supremo Tribunal Federal”, escreveu.

‘Revanche’

Com os novos movimentos, aliados do senador avaliam que a sequência de decisões envolvendo São Paulo e pessoas ligadas ao grupo reforça a narrativa que já vinha sendo adotada pela campanha. A leitura é de que as medidas podem ganhar ainda mais peso político diante do novo cenário apontado pelas pesquisas eleitorais.

Como mostrou a coluna, a campanha de Flávio vinha acompanhando com cautela o que entendia como possível “revanche” do grupo ligado a Moraes no STF contra o senador. Após a quebra de sigilo sobre o caso Dark Horse, determinada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), no último domingo (13/9), no entanto, auxiliares e pessoas próximas vem relatando sentimento de “alívio”.

Nota da prefeitura de SP

“A Prefeitura de São Paulo lamenta que contratações regulares e realizadas dentro da legalidade estejam sendo utilizadas para construir narrativas políticas sem respaldo nos fatos. Causa estranheza o direcionamento de suspeitas à administração municipal justamente em um momento de graves questionamentos envolvendo o Supremo Tribunal Federal, produzindo uma cortina de fumaça que desvia o foco do debate público.

Em relação à concessão dos serviços funerários, a SP Regula esclarece que relações financeiras mantidas pelas concessionárias com bancos ou fundos privados não configuram, por si, qualquer irregularidade contratual. A capacidade econômico-financeira das empresas é acompanhada permanentemente, e os contratos são fiscalizados de forma contínua e regular.

A contratação do Instituto Iter pela Secretaria Municipal de Gestão para treinamento de servidores ocorreu após a análise de outras instituições e seguiu estritamente a Lei de Licitações, que autoriza a inexigibilidade de licitação para serviços técnicos especializados de treinamento e aperfeiçoamento de pessoal. Os cursos foram realizados e em um deles mais de 320 servidores foram certificados, recebendo nota média de 9,6 pontos na avaliação dos participantes.

No caso da contratação do servidor Alexandre de Almeida Mendonça na SP Regula, não houve qualquer promoção do profissional em 2026. Em junho deste ano ele teve uma mudança de função dentro da agência, deixando de ser Superintendente de Planejamento para assumir a posição de Superintendente da Secretaria Executiva. As duas posições têm o mesmo nível hierárquico, diferentemente do que insinuaram reportagens publicadas sobre o assunto. Além disso, a mudança não resultou em qualquer aumento de remuneração. Portanto, não há nenhum elemento que caracterize uma “promoção”. Alexandre ingressou na SP Regula após um processo de seleção em 2024 que avaliou currículos, histórico de experiências e entrevistas. Ele sempre exerceu funções de gestão administrativa, sem qualquer responsabilidade direta pela gestão dos contratos de concessão”.