

O novo deslizamento registrado na Estrada Athos Branco da Rosa, no Parque Serra Verde, na Zona Leste de Juiz de Fora, na semana passada, aumentou a preocupação de moradores que convivem com a interdição da via desde abril deste ano. Além do receio de novos movimentos de terra, a restrição de acesso tem dificultado a rotina da comunidade, com mudanças no transporte coletivo, dificuldades para descartar o lixo e incertezas para famílias que receberam orientações para deixar suas casas.
O deslizamento de uma encosta atingiu totalmente uma parte da via, que já estava interditada pela Defesa Civil há seis meses. Em nota enviada à Tribuna, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou que a via continua totalmente fechada ao tráfego de veículos, e a limpeza depende das condições de segurança do local. O Executivo afirma que ainda não há previsão para a execução do serviço.
Com isso, a PJF reforçou que o cenário de risco permanece inalterado, sem necessidade de novas interdições ou notificações a moradores. A interdição foi determinada após uma vistoria da Defesa Civil identificar trincas no talude e risco de novos deslizamentos. A medida ocorreu depois das chuvas de fevereiro, quando a região foi atingida por movimentos de terra. Segundo a Prefeitura, 15 edificações foram interditadas temporariamente, e a restrição da estrada deve permanecer até a execução das obras. O Município não informou em que fase caminha o projeto para obras no local.
Moradores relatam dificuldades com transporte e coleta de lixo
Uma das moradoras afetadas conta que morava no Bairro D’Lourdes, mas perdeu a casa durante as chuvas. Depois disso, alugou um imóvel na Estrada Athos Branco da Rosa, no Parque Serra Verde. Pouco tempo depois, porém, foi informada pela Prefeitura de que a via estava interditada e que precisaria deixar a residência.
Sem condições financeiras para se mudar novamente, ela aguarda a possibilidade de ser atendida pelo programa de Compra Assistida, do Governo Federal. A moradora também afirma que tem problemas no joelho e no coração e que a interdição tornou as tarefas cotidianas mais difíceis. Como o ônibus não chega mais até o trecho onde mora, ela precisa subir o morro a pé para acessar o transporte, além de carregar compras e levar o lixo até o ponto onde a coleta consegue chegar.
A situação também preocupa outra moradora cuja casa fica logo após a faixa de interdição. Segundo ela, o muro da residência caiu durante as chuvas de fevereiro. O marido também está doente, o que, conforme relata, aumenta as dificuldades provocadas pela restrição de acesso. A residente afirma que os moradores receberam a orientação de que deverão deixar os imóveis até dezembro. O problema, segundo ela, é que as famílias ainda não têm para onde ir.

A incerteza também atinge uma família que teve a casa interditada há cerca de três semanas. O morador do imóvel, de 20 anos, que pediu para não ser identificado, conta que vive com a mãe e a avó de 76 anos. No andar superior da residência, moram a irmã dele e o sobrinho, de quatro anos.
Segundo o jovem, a família procurou informações sobre o auxílio oferecido às pessoas afetadas pelas chuvas, mas não conseguiu acesso ao benefício, pois o processo havia acabado antes deles serem notificados que a casa corria risco. O prazo para pedir o Auxílio Reconstrução em Juiz de Fora se encerrou em 3 de julho.
Ele afirma que recebeu a orientação de deixar o imóvel, mas que, até o momento da entrevista, não havia sido procurado pela assistência social nem recebido informações sobre uma alternativa de moradia.
“Interdita, fala que a gente tem que sair, e a gente sai e vai para onde?”, questiona. O morador afirma que a casa representa décadas de esforço da família e que deixar o imóvel não significa apenas abandonar bens materiais. “São 50 anos de uma vida para poder construir, para poder conquistar. Então não é simplesmente só sair, né? É deixar a nossa história para trás”, relata.
Em nota, a Prefeitura informou que os moradores cujos imóveis foram interditados e que atendem aos critérios do programa Compra Assistida já estão sendo contemplados pela iniciativa.
Linha de ônibus opera com desvio

A mudança no itinerário da linha 438, que atende o Parque Serra Verde, alterou a rotina de quem depende do transporte coletivo. Com o desvio pelo bairro São Benedito, alguns moradores passaram a percorrer trechos a pé para chegar aos pontos de ônibus.
A moradora Sônia, de 71 anos, conta que precisa sair de casa por volta das 5h15 para caminhar cerca de 15 minutos e pegar outro ônibus na cidade. Antes da interdição, a linha passava perto de sua residência às 5h30.
“Antes não precisava, que ele passava 5h30 aqui”, relata. Ela trabalha no Alto dos Passos e afirma que também precisou mudar a forma de voltar para casa, pois o itinerário alternativo não atende aos horários de que necessita.
A coleta de lixo também é motivo de reclamação. Segundo a moradora Silvani Tostes, de 57 anos, os residentes precisam levar os resíduos até um ponto onde o caminhão consegue chegar.
A Prefeitura, por sua vez, informou que o serviço de coleta é realizado regularmente no bairro. O Município também afirmou que a linha 438 opera em rota alternativa pelo São Benedito para garantir o atendimento aos moradores.
Comerciante relata queda nas vendas
Os impactos da interdição também atingem quem trabalha na região. Um comerciante que mantém um empreendimento nas proximidades afirma que as vendas caíram mais de 50% desde que o acesso pela estrada foi restringido.
Segundo ele, a rota alternativa pelo São Benedito aumenta o percurso, enquanto o outro acesso é por uma subida íngreme que dificulta a circulação. O trabalhador relata que o movimento diminuiu porque clientes deixaram de utilizar o caminho habitual para chegar ao estabelecimento.
Área continua sob monitoramento
Além das dificuldades de circulação, moradores demonstram preocupação com as condições do terreno após o novo deslizamento. A Prefeitura informou que a área permanece sob monitoramento da Defesa Civil.
Segundo o Município, o novo deslizamento não alterou o cenário de risco já identificado, e as interdições existentes devem ser respeitadas para garantir a segurança da população.
A limpeza da via, no entanto, continua sem data definida, e a estrada seguirá interditada até que haja condições de segurança e sejam executadas as obras necessárias.

