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Fernanda Garcia já havia colocado os três filhos, de 2, 4 e 8 anos, para dormir quando ouviu um barulho vindo de fora de casa e foi até a janela. “Quando olhei, tudo já tinha descido”, conta. Naquela noite de 23 de fevereiro, a terra que desceu sobre o Parque Burnier, na Região Sudeste de Juiz de Fora, soterraria a casa onde viviam 17 de seus familiares, entre tias, primos e primas. Nenhum deles sobreviveu. Oito meses depois, Fernanda enfrentaria uma nova perda: a demolição da própria casa, condenada após as chuvas, antes mesmo de conseguir acesso a uma nova moradia pelo programa Compra Assistida.

A situação da jovem de 24 anos expõe um dos impasses enfrentados pelas famílias atingidas pelas chuvas de fevereiro em Juiz de Fora: a perda definitiva dos imóveis antes de uma solução habitacional. Com o avanço das demolições em diferentes regiões da cidade, ainda não se sabe quantas famílias já conseguiram uma nova casa por meio do Compra Assistida, quantas permanecem em imóveis alugados e quantas seguem sem uma alternativa de moradia. Questionada pela Tribuna, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) não apresentou um levantamento sobre a situação habitacional dos moradores que tiveram suas casas demolidas.

Desde as chuvas de fevereiro, ao menos 96 imóveis foram incluídos em ações de demolição em Juiz de Fora, sendo 64 apenas em outubro, conforme levantamento da Tribuna com base em informações divulgadas pela Prefeitura. O balanço reúne intervenções realizadas e anunciadas, já que não há confirmação da conclusão de todos os serviços. Também não há um balanço consolidado que permita identificar quantas dessas demolições ocorreram antes de os antigos moradores terem acesso a uma nova residência.

No Parque Burnier, onde Fernanda perdeu 17 familiares, três imóveis foram demolidos na última semana. Na mesma ocasião, outros sete imóveis foram demolidos nos bairros Solidariedade, Santa Rita de Cássia e Grajaú, também atingidos pelas chuvas de fevereiro. A casa da jovem estava entre as construções retiradas, embora ela ainda aguarde atendimento pelo Compra Assistida.

Demolições avançam em diferentes regiões de Juiz de Fora

Somente em outubro, ao menos 64 imóveis foram incluídos em ações de demolição em diferentes regiões de Juiz de Fora, de acordo com levantamento da Tribuna a partir de informações divulgadas pelo Executivo municipal. Entre os dias 12 e 16, a Defesa Civil realizou 34 demolições, sendo 20 no Solidariedade, 12 no Santa Rita de Cássia, uma no Grajaú e uma no Alto Grajaú. Na semana seguinte, outras dez construções vieram abaixo, incluindo a residência de Fernanda.

O balanço também considera 16 imóveis demolidos no Dom Bosco, na Zona Sul, e quatro incluídos nas intervenções no Eldorado, na Zona Nordeste. Na Zona Norte, outros 19 imóveis, distribuídos entre os bairros Jardim Natal e Jóquei Clube, foram notificados para demolição a partir de 20 de outubro. A reportagem não obteve confirmação da conclusão dessas intervenções, que, por isso, não foram incluídas na contagem.

Desde fevereiro, as demolições também ocorreram em outras regiões da cidade. Em março, oito imóveis tiveram a demolição anunciada no Graminha e outros dois foram demolidos no Esplanada. Em agosto, a Prefeitura iniciou a demolição de 22 construções no São Bernardo, mas a conclusão de todas as intervenções não foi confirmada. Houve ainda intervenções no Vitorino Braga, mas sem a divulgação do número de imóveis demolidos. Com isso, o levantamento reúne 96 imóveis contemplados em operações de demolição realizadas ou anunciadas desde as chuvas de fevereiro. O número não corresponde necessariamente ao total de construções efetivamente demolidas, já que parte das intervenções não teve sua conclusão confirmada. Também não representa a totalidade dos imóveis retirados no município, diante da ausência de um balanço consolidado da Prefeitura.

A previsão é de que novas demolições sejam realizadas na cidade. Segundo a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), ainda não é possível precisar o número de imóveis já demolidos nem quantos deverão passar pelo procedimento até o fim de 2026, uma vez que o cronograma é definido conforme as avaliações técnicas e as condições de segurança de cada local. 

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Fernanda com os filhos. Ela conta que perdeu a maior parte das fotografias da família durante o desastre (Foto de Arquivo pessoal)

Após demolição, moradora aguarda acesso ao Compra Assistida

A falta de uma solução habitacional definitiva faz parte da rotina de Fernanda desde que as chuvas atingiram o Parque Burnier. Na noite de 23 de fevereiro, com a lama já à altura da porta, ela reuniu as três crianças e saiu de casa. A família encontrou abrigo em uma igreja do bairro, ao lado de dezenas de moradores atingidos pelos deslizamentos no Parque Burnier. Aos 24 anos, ela perdeu familiares, a casa própria e parte da comunidade onde cresceu e criou os filhos. Na semana que se seguiu à tragédia, cerca de 8 mil pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas em Juiz de Fora. Fernanda era uma delas. Oito meses depois, mesmo com a antiga residência demolida, a jovem ainda não sabe quando poderá voltar a ter uma casa própria.

Mãe solo de três crianças, sem uma rede de apoio com quem dividir os cuidados dos filhos, a jovem de 24 anos sobrevivia com o Bolsa Família e os bicos que conseguia como cuidadora. Depois de deixar o abrigo, mudou-se com os filhos para uma casa alugada no Bairro de Lourdes. A perda da casa própria havia acrescentado ao orçamento já apertado uma despesa que até então não existia. “Minha maior dificuldade tem sido pagar o aluguel e manter a casa. Antes, eu não pagava aluguel. Hoje, isso tem sido um desafio para mim”, conta.

Única renda fixa da família, o Bolsa Família tornou-se, segundo Fernanda, ainda mais necessário depois da tragédia. Nesse período, ela também recebeu o Auxílio Reconstrução, benefício de R$ 7.300 concedido pelo Governo Federal, em parcela única, às famílias que sofreram danos materiais ou perderam bens em decorrência das chuvas de fevereiro. Mas a casa própria, que a livraria de pagar aluguel e de uma das despesas que mais pesam em seu orçamento, ainda não tem previsão de chegar. Ao todo, 103 moradores do Burnier constam na lista de cadastros do Compra Assistida. Para o acesso ao Auxílio Reconstrução, o número de cadastrados sobe para 298.

A história de Fernanda é um espelho de tantas outras famílias que, além das perdas provocadas pelas chuvas, precisam lidar com as dificuldades de reconstruir a vida longe de suas antigas casas. Ela ainda o acesso ao Compra Assistida, a principal dificuldade continua sendo manter as despesas da família com a renda disponível.

Acesso à moradia

Entre os escombros das antigas residências e a perspectiva de recomeçar em uma casa própria, permanece a incerteza sobre o acesso à nova moradia. Diante desse cenário, a reportagem questionou o Poder Público sobre a existência de critérios de prioridade na análise dos cadastros e na concessão do Compra Assistida às famílias que tiveram ou terão seus imóveis demolidos em Juiz de Fora. Também solicitou informações sobre quantas dessas famílias já foram contempladas pelo programa e qual é a situação habitacional daquelas que ainda aguardam atendimento, incluindo a possibilidade de permanecerem em imóveis alugados ou outras formas de moradia provisória. A Prefeitura, entretanto, não apresentou essas informações.

O município, entretanto, afirmou não ter autonomia para definir prioridades ou prazos de atendimento, atribuindo ao Governo Federal a responsabilidade por estabelecer esses critérios. A reportagem procurou o Ministério das Cidades para esclarecer quais medidas são adotadas para garantir uma alternativa habitacional às famílias que tiveram seus imóveis demolidos, mas ainda não conseguiram acesso ao Compra Assistida, e aguarda retorno.