Há quase quatro anos, um acordo de paz pôs fim à guerra brutal na região de Tigray, no norte da Etiópia — um dos conflitos mais letais do século XXI. Agora, a violência retornou, mas as linhas de combate mudaram.
Rebeldes de Tigray estão novamente em confronto com o governo federal, enquanto forças que antes eram inimigas agora lutam lado a lado.
Na quarta-feira (23), forças da região tomaram três aeroportos controlados pelo governo federal, ao mesmo tempo em que combates também eclodiam nas regiões vizinhas de Amhara e Afar.
As hostilidades romperam o acordo de paz de 2022, que havia encerrado uma guerra responsável pela morte estimada de cerca de 600 mil pessoas.
As relações entre o governo federal e os líderes de Tigray vinham se deteriorando há meses.
Não está claro o que motivou os combates recentes, uma vez que ambos os lados apresentam versões conflitantes.
O governo regional de Tigray afirmou que as forças federais atacaram primeiro e que ele ordenou uma resposta de suas próprias tropas, classificando o conflito como uma “guerra defensiva”.
Por outro lado, Getachew Reda, assessor do primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed, declarou que a TPLF (Frente Popular de Libertação do Tigré) lançou
uma “ofensiva total” contra posições governamentais em Afar e Amhara e tomado três aeroportos em Tigray, acusando o grupo de levar a “irresponsabilidade a novos patamares”.
A nova onda de violência desta semana ocorre após quase dois meses de confrontos de menor escala.
A organização não governamental ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project) relata que os combates entre as forças de Tigray e as federais começaram perto da fronteira da Etiópia com o Sudão, em 1º de agosto.
Ambos os lados também se acusaram mutuamente de ter iniciado esses confrontos.
Segundo a ACLED, seguiram-se ataques de drones federais e a mobilização de tropas de Tigray, com as forças da região deslocando tanques e artilharia para o sul neste mês.
A companhia aérea nacional Ethiopian Airlines suspendeu todos os voos para Tigray após a tomada dos aeroportos.
Como a Etiópia chegou a este ponto?
A TPLF já foi a força política mais poderosa da Etiópia. Ela dominava a coalizão que governou o país por quase três décadas, apesar de os tigrínios representarem uma parcela relativamente pequena da população etíope.
Essa situação mudou depois que Abiy assumiu o cargo de primeiro-ministro em 2018, na sequência de anos de protestos antigovernamentais.
Ele implementou reformas políticas e firmou a paz com a vizinha Eritreia, feito que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz um ano depois.
No entanto, as relações com a TPLF se deterioraram. Abiy substituiu a antiga coalizão governista pelo seu Partido da Prosperidade em 2019; a TPLF recusou-se a aderir.
Após o adiamento das eleições nacionais durante a pandemia de Covid-19, Tigray realizou sua própria votação regional, apesar das objeções de Adis Abeba.
Em novembro de 2020, forças da região atacaram bases militares federais na região.
Abiy enviou tropas, e forças da Eritreia e combatentes de Amhara lutaram posteriormente ao lado do exército federal.
Quando a guerra terminou, dois anos depois, milhões de pessoas haviam sido deslocadas e partes de Tigray haviam sido levadas à fome.
Ambos os lados enfrentaram acusações de graves violações dos direitos humanos.
Por que o acordo de paz fracassou?
As hostilidades chegaram ao fim quando o governo federal e a TPLF assinaram um acordo mediado pela União Africana em Pretória, na África do Sul, em 2 de novembro de 2022.
Nos termos do acordo, as forças tigrinas deveriam se desarmar e a autoridade federal retornaria à região.
A ajuda humanitária e os serviços básicos seriam retomados, e uma administração provisória foi posteriormente estabelecida para governar o Tigray até a realização de eleições.
No entanto, persistiam grandes disputas, incluindo questões sobre territórios reivindicados tanto por Tigray quanto por Amhara e o retorno de pessoas deslocadas pela guerra.
Paralelamente, a Eritreia — cujos soldados haviam lutado ao lado das forças federais — não participou do acordo.
“O acordo não ruiu da noite para o dia; ele foi sistematicamente esvaziado ao longo de três anos”, disse à CNN Surafel Getahun, pesquisador de geopolítica etíope.
Getahun afirmou que ambos os lados tinham responsabilidade. Ele acusou o governo federal de não cumprir partes fundamentais do acordo, como o retorno das pessoas deslocadas, e a TPLF de violá-lo ao retomar o controle da administração regional e reconstruir suas forças militares.
A TPLF também estava dividida por uma disputa interna de poder, o que enfraqueceu ainda mais o processo de paz.
Facções rivais surgiram em torno do presidente, Debretsion Gebremichael, e de Reda — chefe da administração interina de Tigray e figura de destaque na TPLF.
Reda acabou sendo expulso do partido pela facção de Gebremichael, e Abiy nomeou um novo líder interino em abril de 2025.
Um mês depois, a facção de Gebremichael retomou o controle do governo de Tigray. Ela restabeleceu a legislatura regional que existia antes da guerra e empossou Gebremichael como presidente regional.
No domingo, a TPLF juntou-se a outros seis grupos armados em uma nova aliança que busca derrubar o governo de Abiy e estabelecer uma administração de transição.
A aliança inclui antigos inimigos que lutaram em lados opostos na guerra mais recente.
O porta-voz da TPLF, Michael Asgedom, disse à Associated Press que os grupos cooperariam política e militarmente.
Questionado se a adesão à aliança violava o acordo de Pretória, Asgedom afirmou que o acordo “não era mais válido”.
O Movimento Nacional Fano de Amhara lutou ao lado do governo federal contra a TPLF durante a última guerra, mas voltou-se contra ele em 2023.
O Exército de Libertação Oromo, que há muito combate o governo de Abiy em Oromia, também integra essa aliança.
A agência de notícias Reuters noticiou na quarta-feira (23) que forças tigrinas estavam lutando ao lado do grupo Fano em Amhara e de um grupo armado local em Afar.
No entanto, Getahun questionou por quanto tempo a aliança se sustentaria.
A TPLF e o Fano permanecem divididos em relação a territórios em disputa, particularmente o oeste de Tigray, e seus membros possuem objetivos políticos e militares distintos.
“Trata-se de um casamento de conveniência temporário contra um inimigo comum, e não de um acordo político duradouro”, disse ele.
A porta-voz de Abiy, Billene Seyoum, disse à Reuters na segunda-feira (21) que os grupos já vinham atuando em conjunto com apoio financeiro da Eritreia.
As relações entre a Etiópia e a Eritreia deterioraram-se desde que suas forças lutaram juntas na última guerra, embora o governo eritreu tenha negado repetidamente apoiar grupos armados etíopes.
A UA (União Africana) afirmou na quarta-feira que a tomada dos aeroportos era incompatível com o acordo de Pretória e instou ambas as partes a promoverem a desescalada.
A organização também solicitou a ajuda do ex-presidente nigeriano Olusegun Obasanjo, que auxiliou na mediação do acordo de 2022.
A guerra poderia se alastrar ainda mais?
Tigray ainda não se recuperou da última guerra; comunidades continuam em processo de reconstrução e muitas pessoas deslocadas ainda não conseguem retornar para casa.
A Etiópia já enfrenta conflitos armados em Amhara e Oromia, e a ACLED afirma que as forças militares federais já estavam sobrecarregadas antes da retomada dos combates com a TPLF.
No entanto, a capacidade de combate dos grupos armados que integram a nova aliança é variável: segundo o órgão de monitoramento de conflitos, vários deles carecem de organização ou de efetivo para operações de maior alcance, enquanto outros estão restritos, em grande parte, a áreas locais.
Há também o risco de envolvimento das forças armadas da Eritreia. As tensões entre os dois países aumentaram devido à pressão da Etiópia por acesso ao Mar Vermelho, inclusive por meio do porto eritreu de Assab.
A União Africana instou os vizinhos da Etiópia a evitarem ações que pudessem alimentar o conflito.
A região já enfrenta a guerra no Sudão e tensões de longa data entre Etiópia, Egito e Sudão em relação ao rio Nilo.
Getahun alertou que os combates atuais podem se tornar ainda mais devastadores do que o conflito anterior.
“Uma nova guerra provavelmente seria muito mais sangrenta e generalizada do que os combates de 2020–2022”, disse ele.
“A desescalada imediata e o diálogo” são agora essenciais, acrescentou ele, argumentando que as negociações continuam sendo “o único caminho viável a seguir”.

