A Unicamp (Universidade de Campinas) realizou a primeira defesa póstuma de um trabalho de doutorado, idealizado por uma aluna e sua orientadora, que morreram antes da realização da banca, na última segunda-feira (24).

A aluna do doutorado, Carla Vendarim, morreu em julho de 2024, aos 51 anos, em Porto Alegre (RS), após um incêndio tomar sua casa. A sua orientadora, a professora Silvia Geraldi, morreu em julho de 2025, aos 61 anos, em Campinas (SP), em decorrência de uma doença congênita.

Ambas produziram a tese “Compostagem como prática performativa: processos imersivos em dança e permacultura”. No estudo, as pesquisadoras investigaram como atividades relacionadas à natureza podem se unir com a dança e outras práticas corporais para ajudar no desenvolvimento da relação de pertencimento de pessoas e sua consciência sobre o meio ambiente.

Vendarim morreu pouco depois de depositar sua tese de doutorado, é esse processo que permite que o material seja distribuído para a banca avaliadora.

Após o falecimento da aluna, Geraldi quis que o trabalho pudesse ser publicado e disponibilizado no repositório da Unicamp, processo que só pode ser realizado pelo orientador.

Mas, com a morte da orientadora, a pesquisa foi retida até a criação da defesa póstuma, um procedimento interno inédito criado para que a defesa fosse realizada.

A coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena, Larissa Oliveira, relata que “Não existia na Unicamp uma institucionalização de uma situação como essa, que representa também a criação de uma possibilidade que poderá orientar situações futuras.”

A defesa póstuma

A defesa da tese se diferenciou das bancas tradicionais, com uma performance de dança inicial, que juntou dança, práticas somáticas, permacultura, agrofloresta e questões socioambientais.

Amigos da falecida doutoranda Carla Vendarim leem trechos da tese da amiga e fazem referência a personagem da mulher • Reprodução | Unicamp

A professora Marisa Martins Lambert, que deu continuidade ao processo da defesa desta tese após o falecimento das duas mulheres, comentou que “Tanto a professora Silvia quanto a Carla são pesquisadoras que merecem todo o nosso respeito e que precisam ser lembradas.”

Além disso, no intervalo da defesa, amigos da doutoranda falecida leram trechos da tese no lado de fora da cerimônia, movimentando flores e bambu, além de estarem com os narizes pintados de vermelho, uma referência ao personagem que Vendarim criou e atuava, a palhaça “Malagueta”.

*Sob supervisão de AR.