É um refúgio de tirar o fôlego, incomparável a qualquer outro: um enclave remoto situado no fundo do Grand Canyon, no Arizona, aninhado entre penhascos. De repente, com pouco ou nenhum aviso, aquelas encostas se transformaram em cachoeiras furiosas.
Trilheiros e campistas próximos ao Bright Angel Canyon e à área de hospedagem Phantom Ranch correram para salvar suas vidas no sábado (29), à medida que chuvas torrenciais canalizavam-se pelo cânion e riachos idílicos se transformavam em torrentes violentas.
Pelo menos duas pessoas morreram e uma continua desaparecida depois que inundações repentinas destruíram passarelas e áreas de acampamento no fundo do cânion.
Muitas outras ficaram em perigo devido às águas barrentas que corriam velozes pelos desfiladeiros estreitos, desencadeando operações de resgate frenéticas para dezenas de pessoas.
Mesmo para os entusiastas de atividades ao ar livre, a magnitude da destruição causada pela fúria da natureza parecia inimaginável.
“No início, era uma tempestade normal”, disse Jesse Jaremczak, que trabalha no topo do cânion, na Borda Sul (South Rim).
“Então, surgiu aquela supercélula monstruosa”, acrescentou.
Christopher Dry, que fazia uma trilha com o filho em uma área mais elevada, recordou-se de ver um raio e chuva — seguidos por “visibilidade zero” apenas alguns minutos depois.

“As nuvens, na verdade, formaram-se lá embaixo e subiram rapidamente do cânion”, disse Dry à CNN.
A inundação chegou rapidamente. David Gregory tinha acabado de começar a desfazer as malas no Phantom Ranch — a única hospedagem abaixo da borda do Grand Canyon — quando um guarda-parque chegou e lhe pediu que se preparasse para uma possível evacuação.
Apenas 10 minutos depois, o guarda retornou freneticamente. Os visitantes precisavam evacuar imediatamente.
“Percebemos que o riacho perto do acampamento estava escuro, cheio de detritos e correndo rapidamente”, disse Gregory.
“Quando a chuva caiu… a correnteza ficou cada vez mais rápida. Provavelmente estava mais veloz do que eu conseguiria correr.” Gregory foi resgatado posteriormente de helicóptero.
Parth Desai, que também estava na área do Phantom Ranch, correu para um trecho com cactos depois que seu colega gritou “sobe, sobe, sobe, sobe”, enquanto uma parede de detritos de cerca de 1,2 metro avançava rapidamente em direção a eles.
“Vimos o riacho transbordar, cachoeiras surgindo do nada, rochas, lama e deslizamentos de terra acontecendo por toda parte”, disse Desai à Associated Press. O grupo dele também foi resgatado de helicóptero.
Mas outros não conseguiram escapar.
Dois amigos morrem durante uma aventura épica; e um está desaparecido
Três amigos, que há muito sonhavam em explorar o cânion, chegaram apenas um dia antes da enxurrada mortal, informaram suas famílias em um comunicado conjunto na terça-feira.
John Giusti, de 46 anos, Brent Rosenkranz, de 42, e Timothy Allen, de 53, planejavam passar duas noites fazendo trilha e pescando juntos perto do fundo do cânion, segundo as famílias.
Depois de chegarem à borda do cânion, Giusti e Rosenkranz compartilharam sua empolgação com a viagem nas redes sociais.
Giusti, que era quiroprata, publicou fotos de sua aventura na página de seu consultório no Facebook.
Rosenkranz escreveu sobre como estava enfrentando seu medo de altura.
“Vou percorrer mais de 50 quilômetros nos próximos quatro dias, com uma variação de altitude vertical de 1,6 quilômetro. Carregando uma mochila de 18 quilos. Vai ser uma aventura!”, publicou Rosenkranz na sexta-feira (28).
“A maioria de vocês sabe que não lido bem com alturas. Então, devo ter muitas histórias engraçadas quando voltar.”
Na manhã desta terça-feira (1°), as famílias de Giusti e Rosenkranz receberam a confirmação de que ambos haviam morrido.
“Para a comunidade, ele era um terapeuta talentoso. Para os amigos, uma fonte inesgotável de vida. Para as filhas, ele era o herói máximo. Para mim, ele era o meu mundo inteiro”, disse Janet, esposa de Giusti, no comunicado conjunto das famílias.
A esposa de Rosenkranz lembrou-se do marido como um “artista marcial de longa data” que marcou gerações de alunos.
“Obrigada por cada aventura, cada refeição, cada risada e cada abraço. Acima de tudo, obrigada por me dar o amor de uma vida inteira”, disse Elisha Rosenkranz no comunicado.
Enquanto as famílias lamentam a perda de dois dos amigos, as buscas para localizar Smith continuam nesta terça-feira. Sua esposa e seus três filhos publicaram um vídeo no Facebook pedindo orações e expressando a esperança de que Smith seja encontrado em breve.
“Não conseguiríamos superar isso sem Deus, e temos fé de que as equipes de resgate e as pessoas que estão realizando as buscas hoje encontrarão nosso querido familiar”, disse Carrie Smith no vídeo. A família estava reunida, de mãos dadas, enquanto um dos filhos de Smith conduzia uma oração.
Autoridades do parque informaram que apenas uma pessoa — cuja identidade não foi revelada — continuava desaparecida até esta terça-feira. As buscas foram prejudicadas por episódios de chuva forte, que tornaram as condições inseguras para as equipes de resgate; além disso, a umidade associada às monções, prevista para esta terça-feira, poderia afetar ainda mais as operações.
Equipes de busca especializadas da Patrulha de Fronteira dos EUA juntaram-se aos esforços nesta terça-feira, segundo o parque.
Um drone do Gabinete do Xerife do Condado de Maricopa também será utilizado para detectar dispositivos que emitam sinais de Bluetooth, informaram as autoridades.
Enchentes de “força destrutiva” varrem o cânion
Enquanto a chuva castigava o cânion no sábado, autoridades do parque receberam um alerta do Serviço Nacional de Meteorologia (NWS) avisando sobre inundações repentinas na região.
Por volta das 12h23, o NPS (Serviço Nacional de Parques) repassou o aviso por meio de um sistema de alerta criado para alcançar pessoas com dispositivos via satélite dentro do cânion — onde não há sinal de celular —, informou Tim Carter, diretor de gestão de emergências do Condado de Coconino.
Ao todo, seis mensagens sobre a inundação foram enviadas pelo sistema no sábado, disse Carter.
Um sistema de monitoramento de nível de água instalado no riacho Bright Angel Creek alertou as autoridades do parque sobre a elevação do nível da água.
No entanto, o sistema saiu do ar à medida que o riacho transbordava, ganhando velocidade e “força destrutiva”, afirmou Brian Drapeaux, vice-superintendente do Parque Nacional do Grand Canyon. Ainda não está claro por que o medidor parou de funcionar, acrescentou ele.
As autoridades do parque agiram rapidamente para evacuar funcionários e visitantes da área de Bright Angel Creek, do acampamento Cottonwood e do Phantom Ranch — uma área de hospedagem situada abaixo da borda do cânion, acessível apenas a pé, de mula ou via rafting pelo rio Colorado.
Às 14h45, funcionários do parque iniciaram a evacuação do Phantom Ranch. Em menos de uma hora, helicópteros do Serviço Nacional de Parques foram mobilizados para começar o resgate das pessoas. Mais de 80 pessoas foram evacuadas em segurança, disse Black.
“Milhas” de tubulação essencial de água danificadas
Na noite de segunda-feira, todo o parque já estava aberto e acessível ao público. No entanto, uma tubulação crucial que abastece de água os turistas perto da Borda Sul (South Rim) sofreu danos graves, disse Drapeaux.

A tubulação fornece água potável e abastecimento para combate a incêndios em todas as instalações da Borda Sul, explicou Drapeaux. Essa é uma área com grande concentração de trilhas, mirantes, hospedagens e serviços para visitantes.
A extensão total dos danos será avaliada nesta terça-feira. Mas, “apenas com base em sobrevoos, sem equipes em solo, prevemos que milhas de tubulação tenham sido destruídas”, disse Drapeaux.
“Atualmente, temos cerca de duas semanas de água estocada disponível”, afirmou ele, ressaltando que o consumo diário dependerá do número de visitantes e funcionários presentes no local. Enquanto isso, restrições ao uso de água estão em vigor, incluindo a suspensão de hospedagem noturna para visitantes, o desligamento de torneiras em áreas de acampamento e a proibição de qualquer fogo a lenha ou carvão, inclusive fogueiras.
Não está claro qual será o impacto da catástrofe para os visitantes neste fim de semana do Dia do Trabalho (*Labor Day*).
Diego Mendoza, Avni Trivedi, Amanda Musa, Maria Aguilar Prieto, Tyler Ory, Mounira Elsamra, Sarah Dewberry, Caroll Alvarado e John Berman, da CNN, contribuíram para esta reportagem.

