O Ibovespa voltou a ensaiar uma alta mais consistente nesta quarta-feira, chegando a superar os 180 mil pontos pela manhã, mas perdeu força ao longo do pregão, repetindo um comportamento que já havia marcado as sessões anteriores. Depois de subir mais de 1% na máxima intradiária, o índice devolveu boa parte dos ganhos, evidenciando a dificuldade do mercado brasileiro em acompanhar o otimismo observado em parte dos mercados internacionais.
Nesta quarta, o benchmark da Bolsa fechou em leve queda de 0,09%, a 177.726,17 pontos.
O movimento reforça um padrão observado desde o início de agosto. Na segunda e na terça-feira, o Ibovespa também chegou a encontrar suporte em fatores pontuais, mas acabou fechando próximo da estabilidade diante de uma combinação de incertezas envolvendo eleições de 2026, crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, temporada de balanços e dúvidas sobre a trajetória dos juros após a reunião do Copom. No acumulado das três sessões de agosto, o Ibovespa tem baixa de 0,15%.
Nesta quarta-feira, a principal força compradora veio do noticiário político. O mercado reagiu positivamente à pesquisa Genial/Quaest que mostrou redução da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno. Parte dos investidores associa uma disputa mais equilibrada a perspectivas mais favoráveis para a política fiscal a partir de 2027.
Entretanto, esse impulso perdeu intensidade após a confirmação do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro. O episódio não chegou a provocar uma deterioração relevante dos mercados, mas reduziu parte da empolgação inicial.
Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, o mercado operou essencialmente em compasso de espera. Segundo ele, os investidores seguem muito mais atentos à decisão do Copom e, principalmente, ao tom do comunicado do Banco Central do que à própria redução de 0,25 ponto percentual da Selic, amplamente precificada.
“Hoje o Ibovespa sobe de forma tímida muito em compasso de espera. A gente tem um pregão que não ajuda os mercados emergentes lá fora, enquanto aqui o mercado olha para o petróleo, para a curva de juros e para o Copom”, afirma.
Na avaliação de Perri, a sustentação do índice veio principalmente do Itaú (ITUB4), após a divulgação de resultados considerados sólidos, além de empresas mais sensíveis à curva de juros, como Raia Drogasil (RADL3), Localiza (RENT3), Cyrela (CYRE3), Cury (CURY3) e Direcional (DIRR3).
O desempenho dessas ações está diretamente ligado ao recuo dos juros futuros. Nas últimas sessões, o mercado passou a aumentar as apostas de que o Banco Central poderá promover mais uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic até o final do ano, levando a taxa básica para 14%.
Essa mudança de percepção ganhou força após uma sequência de indicadores econômicos mais fracos. Além do IPCA-15 ter vindo abaixo das expectativas, dados recentes de atividade, como a produção industrial de junho, reforçaram a percepção de desaceleração da economia brasileira.
“O mercado passou a enxergar que há mais espaço para cortes do que se imaginava anteriormente”, afirma Perri. Segundo ele, esse movimento ajudou a fechar a curva de juros e beneficiou os setores mais dependentes do crédito.
No exterior, porém, o ambiente também deixou de ser um fator de impulso tão forte. Enquanto os índices americanos acumulavam ganhos robustos desde o fim de julho, impulsionados pela temporada de balanços e pela melhora das perspectivas para a inflação, a sessão desta quarta-feira foi marcada por acomodação.
O Dow Jones Industrial Average subiu para uma nova máxima histórica na quarta-feira, impulsionado por resultados corporativos sólidos e pela valorização das ações da Nvidia. O índice subiu 0,49%, fechando no patamar recorde de 54.349,12 pontos e registrando seu quinto dia consecutivo de alta. O S&P 500 recuou em relação à nova máxima histórica atingida mais cedo no dia, caindo 0,17% para 7.723,55 pontos, à medida que as ações de tecnologia perderam força. O Nasdaq Composite caiu 0,83%, encerrando o pregão aos 26.363,44 pontos.
Ainda assim, alguns fatores globais continuaram ajudando os mercados. O avanço das negociações para a reabertura do Estreito de Ormuz e os dados mais fracos do mercado de trabalho americano reforçaram expectativas de um ambiente menos pressionado para a inflação e para os juros globais. Por outro lado, essas negociações afetam o petróleo e as ações das petroleiras na B3, sendo que elas contam com um grande peso no Ibovespa; com isso, o índice também é pressionado.
Além disso, no curto prazo, uma rotação global de volta para as ações de inteligência artificial, que contam com poucas empresas na bolsa do Brasil, também afetam os ativos domésticos.
No Brasil, a percepção de risco doméstico permanece como um peso adicional. A crise diplomática com os Estados Unidos, a proximidade da corrida presidencial e as dúvidas sobre o ritmo futuro dos cortes de juros ajudam a explicar por que a Bolsa tem encontrado dificuldade para sustentar ganhos mais robustos, mesmo quando o cenário externo contribui.
Na véspera, o mercado reagiu à revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington pelos EUA, episódio interpretado por investidores como um sinal de deterioração das relações bilaterais. Embora o impacto econômico direto ainda seja considerado limitado, a incerteza contribui para manter elevado o prêmio de risco dos ativos brasileiros.
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