Do cafezal à xícara: conheça o turismo do café no Caparaó Mineiro

“Se são tantas Minas, porém, e contudo uma, será o que a determina, então, apenas uma atmosfera, sendo o mineiro o homem em estado minasgerais?”, perguntava João Guimarães Rosa em texto publicado há quase 70 anos na revista O Cruzeiro. Natural de Cordisburgo, o escritor buscava compreender a mineiridade e a diversidade que compõem cada canto do estado.

Como sugere sua reflexão, também existem muitos Caparaós: há o lado mineiro e o capixaba, a serra, a região, os municípios e o Alto Caparaó. Para conhecer o Caparaó Mineiro em sua essência, é preciso estar em um verdadeiro estado de Caparaó.

Foi nesse espírito que a Tribuna, a convite do Instituto Mundu, percorreu o Caparaó Mineiro para mergulhar no universo dos cafés especiais e nas histórias cultivadas entre os cafezais por quem dedica a vida à produção do grão. Nesta viagem, a equipe conheceu de perto as diferentes etapas da produção do café em diversos sítios da região. 

Catação de grãos de café

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Foto: Patrick Arley/ Instituto Mundu

Seu nome já conta parte de sua trajetória: o Sítio Centenário, localizado no município de Caparaó, passou por gerações da família de Robson Xavier. No entanto, dentro desse mais de um século de memória, os últimos dez anos adicionaram uma outra camada à história, quando Robson, quarta geração da família, ao lado de sua esposa, Dayane, retornou às terras para viver do cultivo do café.

Para além da visita ao cafezal e aos terreiros de secagem, o sítio oferece uma experiência de imersão diversa na cultura do café, como também uma pequena hospedagem em chalés. Durante a visita, o casal de agricultores ensina sobre a “catação de café”, a seleção dos grãos bons e a separação de impurezas e grãos defeituosos.

São grãos verdes, quebrados, chochos, ardidos e brocados, entre tantas outras denominações. Nessa etapa, compreende-se de modo prático como os pequenos defeitos de um grão são provenientes do modo como os processos anteriores foram realizados, como a adubação, o irrigamento, o tempo da colheita do fruto do café ou ainda a defesa contra o ataque das brocas. 

Como contam, desde que regressaram ao Centenário, a família tenta viver do que a terra dá, cultivando seus grãos com paciência e persistência. “Não existe um pé de café que é especial. É o manejo, o trabalho que o agricultor faz em cima da plantação que vai tornar o café especial”, ensinam.

Do cafezal à xícara: conheça o turismo do café no Caparaó Mineiro
Foto: Patrick Arley/ Instituto Mundu

Expedição por um cafezal

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Foto: Patrick Arley/ Instituto Mundu

A experiência do Caparaó Mineiro segue para o município vizinho de Espera Feliz, onde está a fazenda Caparaíso Coffee. Nessas terras, também passadas por gerações, o agricultor Anadison de Souza, junto de sua família, dedica-se a cultivar o café especial. 

Na Caparaíso, uma das tulhas, como é chamado o local onde se armazenam os grãos, deu lugar a uma pequena loja para vender os cafés e demais produtos produzidos na fazenda e na região. Ao lado, uma grande mesa de madeira posta com bolos e cafés especiais recebe o visitante.

A visita ao cafezal também faz parte do roteiro de experiência: como os pés de café são plantados em um morro extenso, o agricultor oferece carona ao visitante em uma carretinha de madeira puxada por trator. Uma expedição sensorial, que explora a paisagem, os sabores, os cheiros e as texturas, mas também de aprendizado, ao ensinar, durante o trajeto, sobre os processos de produção do café.

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Foto: Patrick Arley

Torrar seu próprio café

A viagem continua pelo café: ainda em Espera Feliz conhecemos A Cafeteria, criada por Fred Ayres e sua família para receber o turismo gastronômico no Sítio Santa Rita. “Tinha tanta gente circulando, não existia um turismo de café especial. Essa é a primeira cafeteria com estrutura de fato, com serviço de cafeteria do Brasil que surgiu dentro de uma fazenda de café. Aqui a gente faz todo o processo, produção, torrefação, cafeteria e também temos três chalezinhos funcionando”, conta Ayres.

No local, além de saborear os cafés produzidos no sítio, o visitante também pode ter a experiência de Mestre de Torra por um dia. No Laboratório de Torrefação, que funciona na antiga tulha, o visitante pode torrar seu próprio café, aprender como os grãos se transformam nesse processo e como essa etapa influencia o sabor da bebida.

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Foto: Patrick Arley/ Instituto Mundu

Cuidados com o café

A última viagem pelo Caparaó Mineiro passa pelo Sítio Imperial da Serra, em Alto Jequitibá. Nesse pedacinho de terra, herdado de seu pai, Silmara Emerike criou uma nova história ao lado de seu marido Charles Souza. Após quase 20 anos de plantações de café commodity, ela decidiu cultivar os cafés especiais. Logo, os grãos produzidos ali foram premiados em diversos concursos e se tornaram um dos melhores do Brasil.

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Foto: Patrick Arley/ Instituto Mundu

“Eu cuidava dos filhos e da parte das secas do café no terreiro, sempre cuidei para o meu café ser bom. É um trabalho que demorou muito porque começamos a separar as lavouras na roça para descobrir de onde estavam saindo aqueles cafés”, relata Silmara.

No sítio de Silmara, o visitante pode conhecer de perto a história da produção do café, caminhar pelos cafezais e acompanhar as etapas de beneficiamento, torra e embalagem, tanto dos grãos quanto do café moído. Além disso, como em todas as experiências, a visita foi acompanhada de bolos, quitutes e cafés especiais. Do cafezal à xícara: aí está o Caparaó Mineiro.

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