

Leões, hienas, pássaros e outros animais da savana ganham vida em Juiz de Fora. Em setembro, “O Rei Leão” chega ao Teatro Paschoal Carlos Magno em uma montagem da Entreato Produções que une canto, dança, interpretação e um trabalho visual pensado para transportar ao palco local a força de um dos musicais mais conhecidos do mundo.
As apresentações acontecem nesta quinta-feira (3) e sexta-feira (4), e nos dias 25, 26 e 27 de setembro. Livremente inspirado no universo de “O Rei Leão”, o espetáculo é resultado de meses de preparação e reúne dezenas de participantes, entre artistas mais experientes e pessoas que terão no projeto algumas de suas primeiras experiências no palco.
“O Rei Leão” acompanha a trajetória de Simba, jovem leão que precisa encontrar seu lugar após a morte do pai, Mufasa, e enfrentar o passado para assumir seu papel na savana. A história, conhecida mundialmente a partir da animação lançada pela Disney em 1994, ganhou os palcos da Broadway em 1997 e se tornou uma das produções mais emblemáticas do teatro musical, marcada especialmente pela maneira como transforma atores, máscaras, bonecos e movimentos em animais diante do público.
A produção também marca o passo mais ambicioso de uma trajetória que a Entreato vem construindo nos últimos anos em Juiz de Fora. Depois de “A Família Addams”, “Moulin Rouge”, “Mar & Ana” e “Chicago”, a produtora volta a apostar em um grande musical, desta vez diante de desafios que vão das canções em línguas africanas à manipulação dos animais que fazem parte da identidade da obra.
Entreato amplia espaço dos musicais na cidade
A Entreato encontrou em Juiz de Fora espaço para transformar grandes musicais em parte recorrente da programação cultural da cidade. Desde “A Família Addams”, a produtora vem ampliando o tamanho e a complexidade das montagens e, a partir de “Chicago”, também consolidou outro formato: além de espetáculo, as produções passaram a funcionar como processos de formação artística.
Quando chegou a cidade, Drew Persí procurou algo que estava acostumado a consumir em outros lugares: teatro musical. Ao perceber que esse tipo de montagem praticamente não aparecia na programação local, resolveu ocupar esse espaço.
Em “O Rei Leão”, essa proposta chegou à maior dimensão até agora. Antes dos ensaios das cenas, os participantes passaram por módulos de interpretação, expressão corporal e dança e preparação vocal. O projeto foi anunciado ainda em 2025 e, desde outubro, o elenco atravessa etapas de preparação que agora se intensificam na proximidade da estreia.
Para Drew, o tamanho do desafio não está apenas no número de pessoas envolvidas. A obra exige outra linguagem de interpretação e canto, além de uma construção estética muito particular. Tudo isso dentro de uma produção independente, sem recursos de editais ou leis de incentivo.
Também existem limites que o próprio palco impõe. A intenção, segundo o diretor, nunca foi copiar uma superprodução da Broadway, mas encontrar caminhos possíveis dentro da estrutura disponível em Juiz de Fora e ainda assim criar para o público a sensação de estar diante de um grande espetáculo.
“Eu fui mostrando que é possível a gente entregar algo com qualidade e proporcionar para o público daqui essa experiência de viver um grande musical, apesar das limitações”, afirma Drew.
O papelão ganha vida
Antes de chegar aos atores, parte das personagens passa pelas mãos de Lucas Barbosa. Aos 19 anos, o artista plástico é responsável pelas cabeças, corpos e estruturas que vão transformar pessoas em animais diante do público.
Natural do Espírito Santo, Lucas chamou atenção nas redes sociais depois de construir, ainda no ensino médio, um dragão de aproximadamente oito metros de comprimento. As imagens do processo circularam pela internet e chegaram até Drew, que o convidou para desenvolver as peças de “O Rei Leão”. Lucas veio a Juiz de Fora para produzir as estruturas e, durante o trabalho, acabou se mudando para a cidade.
O ponto de partida são personagens que já fazem parte do imaginário de diferentes gerações, mas as peças não buscam simplesmente reproduzir aquilo que já existe. Lucas imprime materiais e texturas próprias ao trabalho, com presença recorrente de elementos como papelão e juta.
Há ainda outro desafio: os animais precisam se movimentar. Algumas peças possuem mecanismos que permitem mexer cabeça, boca, nariz ou asas. Ao mesmo tempo, precisam ser leves para os atores, resistentes aos ensaios e apresentações e capazes de suportar o ritmo de quem dança, canta e interpreta enquanto as manipula.
“’O Rei Leão’ é o meu primeiro trabalho grandioso de peças para um espetáculo. Pegar algo que já existe e trazer a minha personalidade e a minha identidade está me fazendo conhecer muito da minha própria estética”, conta Lucas.

As vozes por trás da savana
Sibelle Pezarini conhece de perto cada etapa da trajetória da Entreato. Desde 2022, participou de todas as grandes montagens da produtora. Agora, ocupa dois lugares em “O Rei Leão”: está no palco como uma das hienas e, fora dele, conduz a preparação vocal do elenco.
O trabalho com as vozes é um dos pontos mais delicados da montagem. Além das músicas, há coros em línguas africanas e personagens que pedem timbres muito específicos. E tudo isso precisa ser ensinado a um grupo no qual muitos participantes nunca haviam cantado diante de uma plateia. As músicas serão apresentadas ao vivo, inclusive trechos a capela.
Na reta final, Sibelle acompanha de perto o resultado de meses de aulas e ensaios. Ela diz se orgulhar especialmente da disposição dos alunos, que continuam estudando fora dos encontros e enviando gravações dos exercícios feitos em casa. A expectativa para vê-los no palco é alta justamente porque, para ela, parte da força do processo está em acompanhar pessoas que começaram sem experiência conquistando segurança para ocupar a cena.
Como atriz, Sibelle também encara algo diferente dos papéis anteriores. Se antes seu rosto e seu corpo ocupavam o centro da cena, desta vez parte do trabalho é desaparecer para que o público enxergue o animal à sua frente.
“Quem protagoniza a cena não sou eu. É o boneco que está à minha frente. O desafio é a atriz sumir diante daquele boneco, para que vocês vejam a hiena e não eu”, explica.
Quando “O Rei Leão” finalmente chegar ao palco, cada detalhe construído ao longo dos últimos meses vai passar a fazer parte da mesma cena. Os animais, as vozes, os movimentos e a energia de um elenco que cresceu junto com o espetáculo se encontram em uma montagem marcada pela criação e pela formação. No palco, o “Ciclo da Vida” também ganha outro sentido e marca a continuidade de um projeto que, ano após ano, amplia o espaço do teatro musical na cidade.
*Estagiário sob a supervisão da editora Cecília Itaborahy

