
Algumas histórias precisam ser escritas e a vida dá sinais disso. Para Carlos Vargas, a narrativa de “Santa Teresa do Desterro”, seu livro de estreia que será lançado nesta quinta-feira (6), no Gema, às 18h, nasceu assim. Motivado por vivências próprias e décadas de observação, o autor criou uma história que mistura amor e religião em uma atmosfera que o juiz-forano conhece bem: a vontade de descer a BR-040 para chegar ao Rio de Janeiro.
O livro é construído com base no hibridismo cultural da Zona da Mata mineira: uma região geograficamente fincada em Minas Gerais, mas cuja alma, sotaque e costumes orbitam a energia e a história do Rio de Janeiro. Não à toa, o apelido de “carioca do brejo” é conhecido na região.
“O título do livro amarra as duas pontas dessa identidade: une o icônico bairro carioca de Santa Teresa à antiga devoção colonial de Nossa Senhora do Desterro, evocando o sentimento de ‘desterro’, ou o eterno deslocamento de quem se sente mineiro no Rio e carioca em Minas”, define Carlos.
Professor de Educação Física por anos, Carlos também carregava consigo o interesse pela literatura, que tomou mais espaço em sua vida quando, ao se aposentar, ingressou no mestrado em Literatura da UniAcademia, especializando-se em literatura brasileira.
O vínculo entre Rio de Janeiro e Juiz de Fora, assim como muitos habitantes da cidade, esteve presente na vida de Carlos durante muito tempo, perdurando desde a década de 1980, quando se formou na faculdade na chamada “cidade maravilhosa”. “Um ponto fulcral desta pesquisa para criar o enredo desse livro foi unir o amor que existe entre essas duas cidades, a ligação entre o carnaval, a cultura e a religiosidade”, explica ele.
Folia de vínculos

O carnaval e suas serpentinas, confetes e festas também ocuparam um papel central em “Santa Teresa do Desterro”. Juiz de Fora possui, assim como o Rio de Janeiro, uma tradição carnavalesca forte. Durante muito tempo, os cariocas vinham para Juiz de Fora em busca de folia e vice-versa, já que não existia um carnaval tão expressivo em Belo Horizonte e São Paulo, como acontece agora.
Foi essa troca que motivou Carlos a pensar em uma fusão entre o Bairro de Santa Teresa, onde existem blocos carnavalescos de grande tradição na capital do Rio de Janeiro, e Juiz de Fora. Outros elementos de natureza geográfica, como um rio de águas cristalinas, também estão entre os elementos que constroem a narrativa do livro.
Carlos também destaca que a união entre as duas cidades é antiga: data do início do século 19, quando ocorreu o aterro para as embarcações ancorarem no Porto do Rio de Janeiro, a construção da estrada União Indústria e o comércio entre as duas cidades.
Unindo esses elementos, ainda faltava algo para compor o universo de “Santa Teresa do Desterro”, que Carlos logo encontrou: a necessidade de criar uma história que pudesse levar o leitor a refletir sobre algo.
“Santa Teresa do Desterro surgiu de uma necessidade transformadora para entender os relacionamentos amorosos nos dias atuais. Cada vez mais estamos tornando os relacionamentos mais superficiais, e assim, criei uma história para que servisse aos leitores, momentos de reflexão mais aprofundada”, explica ele.
Amor é uma coisa espiritual
Entre o mar e as montanhas, o cenário, segundo Carlos, também é um personagem, sendo uma engrenagem que dita as vivências, os encontros e o autoconhecimento dos personagens. Além disso, o livro também guia o leitor em uma jornada de afetos que beira o transcendental.
“Aqui, amar significa arriscar-se, expor-se, entregar-se ao encontro verdadeiro, aquele que tem a potência para transformar, desorganizar e revelar-nos um mundo só nosso”, explica Carlos.
O livro segue a professora de literatura Doralice Lee, contadora de histórias do Centro Cultural Laurindo Santos Lobo, no Bairro de Santa Teresa. Definida como uma mulher encantadora, ela possui um filho, Apollo Lee, nascido de um encontro de sua mãe durante a passagem do tradicional Bloco das Carmelitas.
A influência da religiosidade também está muito presente na obra, como a amizade de Doralice com Madre Maria José, que reside no Convento de Santa Teresa das Carmelitas Descalças, na Igreja de Nossa Senhora do Desterro, em Santa Teresa.
Outros elementos, como o personagem Poseidon, que serve como guardião protetor e ombro amigo de Doralice, também estão intrinsecamente ligados ao local em que a história se passa. Para construir esse personagem, Carlos se inspirou nos trabalhos desenvolvidos pelo artista plástico Pedro Grapiúna, cuja produção é referência em Santa Teresa.
A relação de Doralice com seu filho também é marcada pelo espiritual. Durante o romance, a mulher é frequentemente guiada por misteriosas luzes, que simbolizam a chegada de seu filho. E Carlos também experienciou o mesmo fenômeno enquanto escrevia, em seus sonhos.
Entre ateliês, ladeiras, conventos, ruínas e bondes, Carlos constrói, com linguagem simples e acontecimentos variados, uma história que trata de alguns dos temas mais importantes da literatura: o amor e a conexão humana.
Serviço
Lançamento ‘Santa Teresa do Desterro’
Quinta-feira (6), às 18h
Gema (Rua São João 123 – Centro)
Entrada franca
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy
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