

O documentário “Baobás: raiz firme faz a árvore forte”, produzido em Juiz de Fora durante 2025, estreia nesta segunda-feira (10), no Teatro Paschoal Carlos Magno, às 18h30. O evento de estreia marca uma nova fase para a equipe de produção do longa, que buscou preservar a memória da população negra juiz-forana e abordar o envelhecimento sob a perspectiva de construção de patrimônio.
O projeto de “Baobás: raiz firme faz a árvore forte”, para a equipe de produção, tem um propósito gigante: por em destaque histórias que, por muito tempo, foram marginalizadas e entender o envelhecimento como acúmulo de conhecimento e vivências, ao invés de uma fase de declínio na vida.
As histórias de Nilson Gonzaga, Helena Cassimiro, Efigênio Evaristo de Castro (pai de Giovana), Lúcia Vitorino da Silva, Jorge Paulo dos Santos, Anézia Silva, Nair Francisca Beline e da centenária Zuleika Vieira demonstram o contrário: formar raízes é um processo a ser celebrado.
A arte de envelhecer
Contrariando a lógica de descarte e velocidade, a equipe de “Baobás” entendeu que o tempo não diminui as pessoas, mas, sim, as torna mais profundas. “E são justamente essas raízes profundas que impedem que a memória, a identidade e a dignidade de um povo sejam arrancadas pelo esquecimento. Para nós registrar essas narrativas é um tratado contra a pressa, contra a urgência e o culto ao agora”, explicam.
Quem entende a importância dos baobás vê a sociedade de outra forma. Escolhida como título do documentário, a árvore vai além da metáfora: é uma maneira de compreender o tempo. O baobá, por definição, é a árvore da vida, acumulando experiência em suas raízes e com uma copa que oferece abrigo e encontro, atravessando o tempo sem perder a vivacidade.

Conforme apontado em conversa com a Tribuna durante a produção do filme, a equipe destacou que o processo de gravação do documentário foi muito intenso. Na semana do lançamento, a sensação se mantém: “Foi muito sofrido selecionar as falas que ficariam para o filme. Temos muitas horas de gravação e gostaríamos muito que todo esse material fosse visto e degustado. Mas estamos felizes com o que produzimos e nos sentimos gratos por ter tido a chance de mergulhar nessas histórias”, definem.
Com raízes firmadas, a equipe de “Baobás” – composta por Vanessa Lopes; Giovana Castro; Letícia Silva; Isabela Ohana; Luan Pedretti de Castro Ferreira; Maiteux Zanela; Anna Júlia Silva; Camila Mathias e Heloisa Carvalho – busca agora divulgar as histórias encontradas.
Para o dia do lançamento, foi organizado um livreto com fotos e textos sobre os entrevistados. Após a exibição, a produção será disponibilizada no Youtube e passará por escolas de Juiz de Fora no auditório João Carriço em parceria com o projeto Epistenegrologias da SEIR, no dia 26 de agosto.
O projeto também está buscando uma exibição que envolva a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) por meio do Projeto Juiz de Fora Cidade Negra (LABHOI/Amefrikas) que é coordenado por Giovana Castro e conta com Vanessa Lopes como pesquisadora.
“Não somos cineastas, somos historiadoras, pessoas que têm apreço pela memória e reverência aos que vieram antes de nós. Mas também sonhamos em aumentar a visibilidade da película e, quem sabe, nos inserir em festivais pelo Brasil afora”, afirma Giovana Castro.
Infelizmente, uma das entrevistadas, Zuleika, faleceu antes de completar 101 anos e de poder assistir a “Baobás: raiz firme faz a árvore forte”. Outros entrevistados não poderão comparecer por questões de saúde. “E isso, por mais doloroso que nos seja, é algo inerente a trabalhar com essa memória que é engolida pelo tempo”, explica a equipe.

Porém, “como diz meu pai, só não envelhece quem morre novo e perde a chance de desfrutar a vida”, brinca Giovana. Além dos demais entrevistados que são esperados com honras, a ideia é também provocar o público juiz-forano em geral para pensar em nova forma de olhar a velhice que nos cerca, mas também nos aguarda e saudar os baobás.
Memória como direito político
“Passamos por muitas coisas ao longo dessa produção. Vimos essas pessoas por diferentes óticas e experimentamos na pele como o idoso é rapidamente engolido pela passagem do tempo”, explica a equipe.
Para além da atividade histórica, o documentário também assume uma posição política. “Somos ativistas. E quando digo ativistas isso abarca um sentido mais amplo que envolve a importância da compreensão de que a memória é um direito político”, define Giovana.

“Assim sendo é fundamental que lutemos pela compreensão de que se trata de uma demanda que, para além de projetos como esse, o poder público se mobilize por ampliar o acesso e a divulgação de ações que viabilizem formas de dissipar esses conhecimentos pela sociedade como um todo”, segue.
A equipe também destaca a importância de políticas públicas para uma educação patrimonial, com uma perspectiva de continuidade e constância, não permitindo que tantas histórias – e tantos baobás – se percam no tempo.
Serviço
“Baobás: raiz firme faz a árvore forte”
Teatro Paschoal Carlos Magnos (Rua Gilberto Alencar, 1 – Centro)
Segunda-feira (10), às 18h30
Entrada franca
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy
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