valeria guerra relogio de areia 2 arquivo pessoal
relógio de areia
Foto: Divulgação

Usando uma linguagem sensível para refletir sobre o tempo e sobre a impossibilidade de reter as perdas contidas em uma só vida, a poeta Valéria Guerra lança o livro “Relógio de areia”. A obra reúne escritos guiados pela passagem dos dias e pela subjetividade da autora, após a constatação de mudanças permanentes no mundo e no íntimo, trazendo uma roupagem contemporânea para questões clássicas.

Com imagens como ampulheta, inventário de objetos inalcançáveis, arrastões ferozes e esfinges, a obra mistura tempos e sentidos. O lançamento acontece nesta quinta-feira (10), às 19h, na Planet, em evento com sessão de autógrafos e leitura de poemas. A obra publicada pela editora Minimalismos também está sendo vendida no site da editora. 

À medida que Valéria escrevia os poemas que, mais tarde, comporiam o livro, foi percebendo uma unidade nos temas e nas imagens que apareciam: eram desdobramentos de lembranças da própria vida e da necessidade de elaborar as perdas que sofreu. O conflito entre memória e esquecimento, como ela entende, já faz parte dos temas caros à poesia, mas ela também se aproveitou desse manancial para o seu próprio trabalho criativo.

“Acho que à medida que vamos vivendo e envelhecendo, essas questões relacionadas ao tempo vão se tornando mais presentes. Você vai tendo mais perdas e o temor do esquecimento, que é, na verdade, uma espécie de morte. A criação poética propicia minimizar essas perdas e essa morte traumática daquilo que se foi”, reflete.

valéria guerra
Foto: Arquivo pessoal

Nesse processo, foi a própria passagem do tempo que guiou a elaboração do livro, tal como o título também indica. Essa relação aparece a partir de lembranças, mas também na conexão com a natureza, a mudança de estações e os grandes acontecimentos do mundo. A marca autobiográfica, nesse sentido, é significativa no trabalho da poeta, como fica evidente no poema “Dispersos ao vento”: “Os 54 anos bateram como pedras/ A casa da infância, desfeita/ Dos avós paternos, modificada/ Dos maternos, imóvel público/ Derrocada mundial de tudo/ Algum eco em Estrela Dalva/ Poucos se importam”.

Para ela, não se trata de uma recuperação temporal que se encerra em si mesma, mas que propõe um deslizamento temporal entre presente e futuro. “Existe uma marca forte de recuperação dessas emoções relacionadas com a minha história pessoal, mas também um prosseguir, um recuperar para evitar esse apagamento e que isso se dissolva. Para dar uma certa perpetuidade e uma busca de um sentido na minha vida”, diz.

O que a autora busca com os poemas de “Relógio de areia”, no entanto, é ultrapassar a marca subjetiva para atingir o outro. “Acho que a subjetividade tem que ser amplificada para o mundo, porque estamos em permanente diálogo com a realidade, com o contexto histórico e nossa época”, explica. Em sua percepção, é por meio de uma inter-relação que o processo criativo deve se dar.

“Como corpo sensível e na busca de linguagem filosófica, sensorial e inteligível, estou sempre fazendo esse intercâmbio da subjetividade com o mundo à medida que vou criando”, conta. E também entende que a linguagem da poesia se afasta dessa linguagem informativa e objetiva, e por isso ela mesma já propicia essa convivência dos contrastes e a coexistência de opostos típicos da riqueza das vivências humanas.

Ligação com a natureza

O livro é permeado por areia, vento, mar e árvores, entre várias outras imagens que levam o foco para a natureza. Isso não acontece por acaso: na história familiar de Valéria, a natureza sempre teve grande importância, em uma ligação que se estendeu durante toda a vida e se tornou fonte de inspiração estética. “Também passou a ser uma preocupação na atualidade. Estamos vivendo um momento de muita incerteza em relação ao mundo, à ecologia e à vida. Acho que isso tudo está unido”, diz. 

Esse aspecto também levou Valéria a refletir sobre a finitude humana e o destino do planeta Terra. O olhar contemplativo para a natureza, em sua perspectiva, também pode ter sido favorecido pelo momento histórico em que parte dos poemas foi gestada: entre 2020 e 2021, quando o mundo se transformava pela pandemia de Covid-19 e evidenciava algumas dessas questões de mudança extrema na forma de encarar o entorno.

Interrogações e sentimentos

Ao transformar a rememoração em material poético, Valéria também entende que ele se transforma em algo que pertence a um outro tempo, que serve à revisitação e à rememoração. Como ocorre no poema que dá título ao livro, que descreve uma ampulheta: “Hoje sei: era um relógio de areia/ surgido no Oriente/ Uma das primeiras formas de medir o tempo/ de senti-lo/ Sem palavras, intuí com admiração/ Sua poesia persiste”.  

Aos leitores da obra, ela espera que permaneçam os sentimentos que o livro irá gerar, e os questionamentos sobre os caminhos que os homens vão seguir e as direções possíveis sobre o habitar. “Eu construí esse livro não simplesmente sobre a minha subjetividade, mas sobre uma subjetividade humana. Gostaria que permanecesse a emoção e uma preocupação com a nossa humanidade”, conclui.