Do primeiro Cristo Redentor do Brasil a Di Cavalcanti: conheça a história de monumentos de Juiz de Fora

Espalhados por Juiz de Fora, os monumentos compõem a paisagem e ajudam a contar e preservar a história da cidade. Entre bens tombados, o município possui o primeiro Cristo Redentor do Brasil, um marco modernista e até mesmo uma homenagem para um bispo italiano. O roteiro desta semana convida o leitor a descobrir a história por trás dessas obras e a conhecer Juiz de Fora de outra forma.

Conheça 4 monumentos de Juiz de Fora:

Cristo Redentor

Apesar de o monumento do Cristo Redentor mais famoso ser localizado no Rio de Janeiro, ele não é o primeiro a ser construído no Brasil. Na verdade, o primeiro Cristo Redentor está localizado no Morro do Cristo, em Juiz de Fora, e foi encomendado por Batista de Oliveira na virada do século 19 para o século 20.

Para celebrar a mudança de século, Batista mandou erguer no alto do Morro do Imperador uma cruz. Naquele lugar, seria realizada uma missa campal e, em seguida, construído o Cristo Redentor.

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Monumento marca pioneirismo como característica de Juiz de Fora (Foto: Leonardo Costa)

A construção foi finalizada após o falecimento de Batista de Oliveira, sendo continuada pela Associação Católica Pão de Santo Antônio em contrato com a Cia. Pantaleone Arcuri & Spinelli, pertencente a nomes influentes da elite juiz-forana. As obras foram concluídas em 1905 e o monumento foi inaugurado no ano seguinte, com uma cerimônia que reuniu cerca de seis mil pessoas.

A imagem veio diretamente de Paris, da “Maison Raffe”. O monumento possui 25 metros de altura e fica localizado a cerca de 700 metros do nível do mar.

Apesar do pioneirismo, o espaço do Morro do Imperador precisou passar por diversas inovações e reconfigurações do seu espaço para se adaptar à Juiz de Fora. Os primeiros projetos buscaram integrar o espaço à cidade, pois na época era um monumento de difícil acesso e uma via férrea vertical foi cogitada, embora não tenha sido construída por falta de apoio do poder público.

Já na década de 1940, o espaço do Morro do Cristo ganhou o seu primeiro uso para além da religião, sendo utilizado como abrigo para os concursos musicais ligados aos principais compositores das Escolas de Samba da cidade. Essa tradição seguiu durante o período da ditadura militar, compondo a programação da comemoração do Dia do Trabalhador.

A primeira linha de ônibus para o local surgiu quase na década de 1950, quando o espaço começou a ser visto com potencial turístico.

Na administração de Itamar Franco (1969), é construído Mirante Salles de Oliveira, de autoria do arquiteto Jean Kamil. O espaço então ganhou contornos turísticos no seu exterior e a parte interna foi utilizada por restaurantes de renome – hoje, inutilizado.

Com mais adições ao seu entorno e novos espaços, o Morro do Cristo foi oficialmente tombado em 1990. Atualmente, o espaço está interditado em razão das chuvas que atingiram a cidade em fevereiro.

Marco do Centenário

Situado no Bairro Poço Rico, o Marco do Centenário fica localizado na Praça Pantaleone Arcuri, em frente ao Cemitério Municipal. Ele foi construído estrategicamente, já que na época o terreno onde se encontra a praça era o principal ponto de acesso da cidade, antes da abertura da atual Avenida Itamar Franco.

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O Marco do Centenário foi o primeiro monumento modernista construído em praça pública com utilização de pastilha Vidrotil, na década de 1950, e servia como manifestação física do progresso experienciado em Juiz de Fora, que vivia uma expansão urbana.

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Caderno Dois da Tribuna de Minas já abordou degradação do monumento (Foto: Acervo TM)

De autoria de Arthur Arcuri, a construção do monumento chegou a ser defendida pessoalmente por Oscar Niemeyer em visita à cidade e tomou o lugar original onde o Monumento ao Expedicionário deveria ser construído.

A obra buscava estabelecer um elo entre a industrialização da “Manchester Mineira” e a estrada União Indústria, e conta com mosaicos de Di Cavalcanti, marcando um novo momento na carreira do artista.

O processo de tombamento do monumento contou com a mobilização de jornais e da população, na década de 1990. Com a mudança do fluxo urbano para a Avenida Itamar Franco, a praça deixou de ter a mesma importância – o que impactou inclusive na preservação do monumento.

Em 1996, a Tribuna publicou um manifesto assinado por artistas e arquitetos juiz-foranos. Com adesão da Coordenação do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFJF e da Sociedade de Arquitetura e Urbanismo de Juiz de Fora, foram emitidos pareceres exigindo a restauração de duas importantes obras da cidade: o Marco do Centenário e o Painel “Quatro Estações” de Di Cavalcanti.

Nomes da cena cultural juiz-forana como Carlos, Fani, Décio e Nívea Bracher, César Brandão, Fernando Pitta, Jorge Arbach, Gerson Guedes, Eliardo França e Marcos Olender assinaram o manifesto.

Depois disso, o Marco do Centenário passou por um incêndio que afetou ainda mais sua estrutura. Diversos mosaicos foram retirados. Nenhuma reparação foi feita desde então.

Dom Lasagna

Na passagem em nível entre os trilhos nas ruas Dom Lasagna e a Rua Mariano Procópio, fica um monumento em homenagem a Dom Lasagna. O bispo salesiano realizou obras missionárias no Paraguai, Uruguai e Brasil, e foi vítima do maior desastre ferroviário de Juiz de Fora, ocorrido em novembro de 1895.

O acidente aconteceu em um dia de chuvas intensas e tempestades, que cortaram a comunicação entre as estações do Mariano Procópio e a Praça da Estação. Como resultado, um trem saindo do Mariano Procópio atingiu em cheio o vagão em que estava a comitiva salesiana de Dom Lasagna, que estava destinada a Ouro Preto, sem ter tempo hábil para frear.

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Monumento segue sendo vítima de atos de vandalismo e descaso; na foto, é possível ver danos à estrutura e lixo (Foto: Felipe Couri)

Lasagna foi pupilo de Dom Bosco e tinha como plano realizar diversas obras missionárias no país, antes do seu falecimento. O bispo e sua comitiva de padres e freiras foram sepultados na antiga Igreja da Glória em Juiz de Fora mas, mais tarde, foram transferidos para Niterói, onde atualmente existe um Santuário, que foi idealizado por Dom Lasagna.

O monumento é constituído por um marco de pedra com a efígie do bispo e as armas da Igreja e foi tombado em 2000. A inauguração foi em 6 de novembro de 1915, 20 anos após a sua morte em um acidente ferroviário. A existência do monumento relembra a população juiz-forana de sua relação com a via férrea e os cuidados necessários.

Princesa Isabel

O monumento à Princesa Isabel em Juiz de Fora é um dos primeiros realizados em sua homenagem no Brasil. O busto fica dentro do parque do Museu Mariano Procópio, fundado em 1921 para a comemoração do centenário de nascimento de Mariano Procópio por Ferreira Lage, que buscava preservar objetos relacionados ao Império do Brasil, dada a relação entre a família Lage e a família real.

A obra, de autoria de Umberto Cozzo, data de 1934 e retrata a princesa em uma postura de redentora, associando-a a instauração da Lei Áurea.

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Monumento é de responsabilidade do Museu Mariano Procópio (Foto: Felipe Couri)

Os pesquisadores Luan Pedretti de Castro Ferreira e Bianca Marlene da Silva questionam inclusive essa homenagem no trabalho “A redentora e o ex-escravizado: memória coletiva, representações dos negros e a construção da imagem da princesa Isabel”, em que citam o busto de bronze e a representação do homem negro na escultura, louvando a princesa.

O Monumento Princesa Isabel foi tombado pela Prefeitura Municipal de Juiz de Fora por sua importância cultural para a cidade e o fato de seu pioneirismo, sendo erguido apenas 13 anos após a morte da princesa.

*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy