

Quando Chiquinho Mota criou o Miss Brasil Gay, era só uma brincadeira entre amigos, que acontecia na casa dele, em que os homens se vestiam de mulheres para desfilar e representar um estado. O que começou dessa forma despretensiosa em 1975 teve sua primeira edição no Sport em 1977, e cinquenta edições depois se trata do maior evento da cidade, que movimenta cerca de R$ 6 milhões em um só fim de semana e foi considerado patrimônio imaterial.
Para que o evento se consolidasse dessa maneira, foi preciso de jogo de cintura — o que ele tinha de sobra, seja na sua pele mais conhecida pelo público ou como as personagens Mademoiselle Debret de Le Blanc ou Beth Vasconcellos, que encarnava ocasionalmente. O cabeleireiro, que hoje tem 81 anos, enfrentou a ditadura militar na cidade onde ela nasceu, fazendo uma festa única, onde se encontrava a classe alta da sociedade juiz-forana e a comunidade LGBTQIAPN+.
Um evento que desafiasse a moral e os bons costumes da época, mas que floresceu no contexto de repressão, precisava vir da mente criativa de alguém que tivesse os trâmites para circular em diferentes contextos. É o que entende André Pavam, amigo próximo de Chiquinho e escolhido a dedo por ele para ser seu sucessor no concurso. Quando conheceu o cabeleireiro, tinha apenas 16 anos, enquanto o outro já era um ícone na cidade e tinha um salão sempre agitado.
Foi esse tipo de acesso que ele entende que permitiu que “buscasse a briga”: “Ele lidava muito com as madames, muitas delas mulheres de militares, então tinha um trâmite dentro do meio. Mas quando resolveu fazer no ginásio, os militares chegaram a peitar ele: ‘Você pode fazer o concurso, mas não pode coroar a miss’. E como faz o concurso e não coroa a miss?’”, relembra. Mas Chiquinho não recuou, e assim teve a coroação de Soraya Jordão, a primeiríssima miss. Dois anos depois, André conta inclusive que quem sentava no júri do concurso era Dulce Figueiredo, a primeira-dama do país, esposa do General Figueiredo, o último general da ditadura a ser presidente do país.

Esse diálogo com diferentes públicos sempre foi algo natural para Chiquinho. É o que entende André, que compartilha desse mesmo senso na hora de organizar a festa: “Ele fala comigo: ‘Para dirigir o Miss Brasil Gay, não basta entender o concurso. Tem que ser uma pessoa correta e principalmente ter inteligência emocional, porque se mexe com ego'”, conta. Isso porque o concurso envolve inclusive a autoestima das pessoas que concorrem a faixa e a correria de bastidores.
O que Pavam entende, hoje também com uma carreira prestigiada como cabeleireiro, é que o ambiente de salão de beleza os lapidou para isso. Mas, com o distanciamento do tempo, também vê que o amigo não pensava que estava criando um movimento de resistência e que seria responsável por desdobramentos que dariam cada vez mais forças minorias sociais.
“Virou uma grande festa. Acho que as pessoas até esqueciam que era uma festa da comunidade LGBT… porque na verdade não era. Era uma festa da sociedade juiz-forana”, conta. Ainda que não fosse a intenção do amigo, isso permitiu que muito mudasse. “É um ato político orgânico. Ele não abriu as portas, ele arrombou as portas”.
Como conta Mirelle Mota, hoje responsável legal por Chiquinho, o avô dele veio de Portugal para o Brasil, onde conheceu sua mulher. A família era da região Visconde do Rio Branco, mas ele veio para a cidade onde mais tarde faria o concurso justamente para trabalhar. “Ele tentava passar para a gente que era uma vida normal, que o concurso era feito de sonhos e que as misses queriam muito, que juntavam dinheiro para vir e concorrer. Ele era muito querido pela sociedade, tinha clientes que o acompanhavam há anos e que faziam questão de comprar uma mesa”, conta.
Tratava-se, como gostam de dizer, de uma brincadeira muito séria. Desde cedo, ela se envolveu com os bastidores do concurso, e logo que completou 18 anos, foi à primeira edição. Quando era criança e o tio colocava a peruca para encarnar a Mademoiselle, a anfitriã do concurso, se lembra de brincar com a prima sobre o quanto ele ficava parecido com a mãe dele. E, quando se casou e teve a mesma costureira que fazia os vestidos do tio para o baile mais importante do ano, conta que pensou que a festa estava parecendo o Miss Brasil. “Ele nunca me passou tanto a angústia do preconceito, mas mais a parte boa”, diz.

As dores e as delícias
Quando Chiquinho subia no palco como Mademoiselle, André conta que ele se transformava completamente: “Não era uma pessoa muito fácil no palco. Fora, ele era uma mãe. As candidatas e as pessoas amavam ele, porque ele era todo solícito. Mas com essa personagem ele virava o disco, ficava muito rígido”. Isso porque se tratava de alguém inspirada na professora da escola Socila, que dava aula de boas maneiras para mulheres na década de 1970.
Já a Beth Vasconcellos, sua outra personagem, era o oposto. Era solta, fazia shows e interpretações com malemolência. No que muitas pessoas viam como três personas distintas, André faz questão de dizer que se divertia, mas enxergava a essência — e inclusive fazia uma brincadeira que o irritava, ao chamá-lo pro palco do concurso, anunciando-o como “Mademoiselle Debret de Le Blanc, o Chiquinho cabeleireiro”.
Se vivia intensamente assim, também enfrentava com o corpo inteiro as dificuldades. No que diz respeito ao concurso, o ano de 2005 foi um tormento: o seu último à frente do Miss Brasil Gay precisou ser no Rio de Janeiro, contrariando o seu desejo de que a festa continuasse em Juiz de Fora. E essa decisão foi tomada por ele porque a falta de apoio da cidade e dos patrocinadores inviabilizava que seguisse acontecendo.
“O maior desafio sempre será o financeiro. Quando falamos da sociedade conservadora da época, continua. Não mudou muito. Antes era a ditadura, mas hoje em dia também estamos vivendo uma certa ditadura de conservadorismo querendo impor comportamentos. Mas isso se vence, como vencemos na ditadura”, diz André. Depois da edição longe de casa, descrita como bem diferente das demais, Chiquinho ficou abalado. Logo depois, teve um AVC, fazendo com que precisasse sair inesperadamente da coordenação.
‘Encontro de almas’

Depois que o tio teve um AVC e permaneceu com sequelas debilitantes, Mirelle Mota passou a assumir suas responsabilidades legais. O salão onde ela cresceu esperando por horas que ele tivesse uma folguinha para que ela pudesse ser atendida precisou fechar. Hoje, ele permanece lúcido, vivendo em uma chácara com a irmã, e a recebe em casa da melhor maneira. “Faz questão de arrumar a mesa da sala para eu chegar, com guardanapo de pano e talheres diferentes. Ele é muito carinhoso, sempre foi”, diz.
Mas a festa não parou: seguiu com André, e foi se profissionalizando. Isso porque, na época de Chiquinho, ele centralizava a maior parte das funções. “Ele vendia os ingressos, na época que não era digital. Eram 3 mil ingressos e ele assinava um por um para não ter falsificação. Ele que vendia durante os ensaios. Enfiava na bolsa de couro os cheques e o dinheiro. E o meu lado era de setorizar e atualizar as coisas”, conta André.
Para continuar a história, André usa o broche que Chiquinho lhe deu, como símbolo da passada de bastão, mas também o mantém atualizado do concurso e faz com que essa história seja passada para frente. O pedido que o amigo o fez, quando ele assumiu a organização, foi que não deixasse o concurso morrer. A relação entre os dois, no entanto, vai além disso: “Eu e ele temos uma sintonia de alma. Somos irmãos que nos reencontramos”, conta.
E este ano, enquanto um documentário sobre o Miss Brasil Gay era gravado, Pavam conta que ele respondeu, com dificuldade, sobre o que sentia vendo tudo que o concurso aconteceu e o que virou nos anos de trabalho. “Ele disse ‘deu certo’. E isso veio dele pedir para eu não deixar o Miss Brasil morrer. Mais adiante, fizeram outra pergunta, relacionada a essa, querendo saber mais o que, e ele disse: ‘Orgulho’. ‘Deu certo’ e ‘orgulho’. Essa é a visão do Chiquinho”.

