

Para o tantrismo, filosofia originada na Índia Antiga, “aquilo que não está aqui, não está em lugar nenhum”, e o inverso também vale: “Tudo o que está aqui está lá”. É essa inspiração que guia o artista Marco Raphael em sua exposição em cartaz na Galeria Helio Fádel, no prédio da reitoria da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
A mostra reúne 13 pinturas inéditas, produzidas entre 2013 e 2014 com técnicas mistas, durante um período em que o artista buscava o autoconhecimento por meio do yoga. “Tudo o que está aqui está lá” fica em cartaz até o dia 13 de novembro, com visitação gratuita, das 8h às 18h.
O artista explica que as telas foram uma forma que ele encontrou para externalizar seus sentimentos naquele momento. Professor de yoga há 16 anos, Marco espera que as pessoas saiam de sua exposição da mesma forma que saem de uma aula: melhores do que quando entraram, como conta. “Eu quero que as pessoas saiam dali leves. Saiam bem depois de terem visto uma exposição de arte. Não quero que fiquem buscando muita explicação.”
Da noite para o dia
Natural do Rio de Janeiro, Marco Raphael estudou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Jardim Botânico. Antes de se voltar para o estudo do yoga, ele atuou no projeto do Edifício Galeria de arte contemporânea com outros artistas, em Santa Teresa, ainda na cidade onde nasceu.
O Edifício Galeria era um espaço de experimentação artística, composto por uma casa de 12 cômodos e três andares. Era o final dos anos 1990 e o Rio de Janeiro ainda não possuía muitas galerias de arte contemporânea. “Então a gente viu a necessidade de montar alguma coisa, de ajudar a montar um circuito de arte”, explica Marco.
O espaço tinha instalações, escritórios, um estúdio de música, ateliês, um esquema de cama e café e até mesmo um bar. “A gente recebia artistas, curadores e músicos e a galera ligada à cultura do mundo todo lá no nosso espaço. Então era uma coisa gigante.”
Enquanto cuidava dos negócios, o artista deixou a faculdade e entrou em uma banda, embora nenhum dos integrantes soubesse tocar um instrumento – o que seria resolvido mais tarde com prática. A banda também possuía um aspecto visual forte, já que era formada por artistas visuais.
A cena em Santa Teresa ficava cada vez mais agitada e o Edifício Galeria chegava a receber eventos e festas a semana toda. A combinação de uma vida desregrada com a administração simultânea de seis negócios fez com que Marco sentisse a necessidade de mudar. “Chegou uma hora que eu estava sentindo que ou ia quebrar, ou ia colapsar. Então, eu resolvi fazer yoga, começar a meditar, e isso transformou minha vida.”
Um pequeno bálsamo
O então ex-boêmio decidiu virar a chave, tornando-se uma pessoa matinal e com, basicamente, um outro estilo de vida. “Eu comecei a me dedicar, voltei para a pintura. Eu estava fazendo uma coisa com muita gente, e resolvi fazer uma coisa mais sozinho”, define.
Marco Raphael começou a estudar o yoga e o tantrismo com mais afinco, sendo uma inspiração que passou pelo braço, pela mão e parou no quadro. “Eu estava lendo muito sobre o tantrismo, sobre a filosofia indiana, mas sem ainda orientação de um mestre. Então, tem pinceladas ali do tantrismo e da filosofia indiana, mas de uma forma muito discreta ainda”, afirma sobre os quadros da exposição “Tudo o que está aqui está lá”.
A exposição representa uma fase de mudanças na vida do artista, que, uma década depois, já desenvolveu um conceito próprio e aprimorou sua relação com a pintura. A liberdade é o ponto-chave de seu fazer artístico. Para ele, “Tudo o que está aqui está lá” é como um bálsamo.
Atualmente, o artista está terminando seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPCIR/UFJF), em que estuda, a partir das lentes do yoga, a espiritualidade contida na obra do artista plástico indo-britânico Anish Kapoor, vencedor do Prêmio Turner, organizado pela Tate Gallery em Londres.
Serviço
“Tudo o que está aqui está lá” de Marco Raphael
Visitação: das 8h às 18h, de segunda a sexta-feira, até 13 de novembro
Galeria Helio Fádel (prédio da Reitoria, campus-sede da UFJF, Rua José Lourenço Kelmer, s/n, São Pedro)
Entrada gratuita
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy



