

Baby Mancini está cansada. Em agosto, foram alguns dias dormindo menos de 4 horas por noite, para voltar a se acostumar com o fuso horário brasileiro enquanto também pegava o ritmo com o salão de beleza do qual é dona. Ela passou 52 dias viajando pela Europa, aproveitando festas, praias e restaurantes. Antes mesmo de ir, também já tinha deixado passagem reservada para ir a Salvador, em outubro. E uma cirurgia plástica já paga.
Mais importante ainda foi deixar escolhido o tecido para o vestido que vai usar no Miss Brasil Gay 2026, festa que frequenta desde o primeiro ano. Vencedora da edição de 1979 e a mais antiga miss viva, ela sustenta o título com o ânimo de quem se acostumou, desde então, a ter uma agenda cheia. Em conversa com a Tribuna, ela conta sobre seus planos e os preparativos para mais uma noite no concurso.
A coroação de Baby veio quando usava o nome Thaís Lombardi. Na época, ela participou do concurso nas mesmas condições que os outros participantes, como um homem que se tornava mulher nos palcos a partir do suporte de roupas femininas, maquiagem, silicones plásticos e enchimentos. “A gente brincava assim no apartamento do Chiquinho. E no começo, era com lençol, a gente pegava e enrolava. Levantava o pé porque ninguém tinha salto alto”, relembra.
Mas, com o tempo, as coisas foram mudando, e já na primeira edição participou investindo no visual. Na segunda, inclusive, acredita que era pra ter ganhado — e também diz que muita gente pensava o mesmo. “Mas foi bom para mim, porque quando ganhei, o concurso já tinha certa visibilidade e foi o primeiro ano em que os artistas participaram do júri”, revela, adicionando que nomes como Elke Maravilha e Edwin Luisi ajudaram a elegê-la.
Mas não foi só o concurso que mudou com o tempo. Baby também entendeu que a mulher que nascia nos palcos não existia apenas na época do concurso, e que o feminino já estava presente na sua vida desde sempre. “Saía com minhas primas e irmãs para fazer footing na praça, como era comum naquela época, e eu me sentia garota, como elas, pronta para paquerar”, conta sobre sua infância, no Bairro Manoel Honório.
Essa identidade só foi se confirmando com o tempo. “Eu fui me transformando assim, devagar…Quando vi, já tava”, relembra. Atualmente, no entanto, o Miss Brasil Gay não aceita mulheres trans entre as participantes, pois precisam ser homens cis que se apresentam com o gênero oposto. Para ela, faz sentido: o objetivo sempre foi valorizar o transformismo.
Um ponto marcante de sua transição foi quando ganhou a primeira lingerie para os seios, de uma cliente que era esposa de um tenente, no salão de beleza. “Contei que ia colocar silicone em um médico de Belo Horizonte, em uma época que nem se colocava aqui. Ela me deu um sutiã branco, transparente, com uma borboletinha cor de rosa com uma pedrinha. Foi meu primeiro sutiã.”
Naquela época, Baby conta que o Miss Brasil Gay e a ditadura militar conviviam, especialmente porque o quarto batalhão ficava na cidade e tinha muitas festas em que as mulheres dos militares participavam. “Elas faziam o cabelo comigo. Iam no concurso, me pediam ajuda para escolher roupa. Serviam aquelas mesas com lanches pra gente dentro de casa. Era uma relação boa”, afirma ela, que conta ser entrosada com a “alta sociedade”.
Dia a dia no salão

Por ter passado tantos dias fora do Brasil, as clientes sentiram falta. Durante a conversa, uma chega com os cabelos longos e pedindo explicações para a cabeleireira, que já frequenta há 40 anos. “Nós fazemos amizades aqui. Sei muito da vida delas e elas da minha”, conta. Essa, inclusive, usa da intimidade para abrasileirar seu nome, a chamando pelo apelido de Babi, como o que costuma ser usado para Bárbara.
E Bárbara de fato também passou a ser seu nome de registro, desde que o Supremo Tribunal Federal determinou que pessoas trans deveriam ter o nome do gênero oposto registrado. Outra cliente, por sua vez, Baby mesma grita quando vê na rua, avisando que voltou.
Essa trajetória começou quando ainda não tinham cursos para ensinar a fazer cortes ou tinturas nos cabelos na cidade. “Eu parava na porta de um salão famoso, na Rio Branco, e ficava olhando. E depois tentava fazer nos outros. Foi errando e acertando”, diz, sobre um processo que reconhece como muito diferente do atual, quando se pode pesquisar na internet e tirar dúvidas com bem mais facilidade. Mas deu certo.
Ela trabalhou em dois salões antes de ir para o Rio de Janeiro e, depois, passar a fazer parte do salão de Chiquinho Mota. “Eu estava naquela fase de começar a transformação. As minhas clientes faziam comigo e iam pro Clube do Papo ou Dom Pedro, os clubes sofisticados da época, e falavam ‘tem uma menina de cabelo lisinho lá no Chiquinho que é ótima’, e fui criando a minha clientela. Quando saí, a clientela veio comigo”, relembra ela, que atualmente mantém as portas abertas na Avenida Luiz Perry.
Vida aos 74
Aos 74 anos, a vida muda. Foi o que aprendeu em 2025, quando, depois do carnaval, teve uma pneumonia grave que a deixou 33 dias internada e entubada. “Os médicos já tinham me desenganado. De repente, eu melhorei. Falei ‘o que?’. Vou vender minha casa, que é grande pra eu morar sozinha, e quero aproveitar a vida. Enquanto tenho vontade”, diz. E as vontades também mudaram: além de viajar bastante, é claro, também gosta de ler, fazer palavra-cruzada e fazer a própria comida.
Mas não dispensa uma chance de brilhar: “Só vou onde me dá vontade. Mas me fala que vai ter uma festa bonita, que eu vou usar uma roupa bonita, eu vou. Eu adoro”. Para o sábado, ela já adianta que terá uma produção como essa: com direito a um salto verde-esmeralda, brincos novos e sempre uma novidade para o público que a acompanha.



