planejadin
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Exposição de Fabrício Carvalho se aprofunda sobre materiais e formas como elementos de criação (Foto: Sergio Neumann/ Divulgação)

A exposição “Planejadin” leva para o Espaço Manufato uma série de obras que refletem sobre o diálogo entre o desenho, a escultura e a arquitetura. O trabalho, realizado pelo artista Fabrício Carvalho, convida o público a experienciar a escultura para além do objeto, criando uma  relação direta com o ambiente e o espectador. A madeira se torna o objeto central de estudo e criação — e não à toa. Esse elemento resume muito da relação do artista com o seu território e também uma reflexão sobre a passagem do tempo. As obras podem ser conferidas no espaço até 28 de agosto, de segunda a sexta-feira, das 15h às 20h.

Trabalhar com uma linguagem que misture esses elementos não é novidade para Fabrício, que é professor na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Para ele, trata-se dos frutos de uma produção artística e de iniciativas em que pôde formalizar suas propostas, onde esses elementos já apareciam. O desenho, por exemplo, já aparecia em sua atuação informal e na vida íntima, mas depois foi se tornando algo mais técnico e desenvolvido; a partir da faculdade, inclusive, passou a ter mais a ver com a paisagem urbana e com o que era esquemático.

Dessa formulação, começou a coletar alguns materiais que encontrava na rua, principalmente madeira que as pessoas abandonavam, e trabalhar para que fosse possível reconstruir esses materiais como uma colagem. Nessa exposição, no entanto, ele enxerga que essa experimentação se aproxima mais de manuais de construção e de uma certa geometria.

Isso porque, ao adotar esse método, também pôde avançar na concepção de como e por que usar a madeira. “Eu vivi na zona rural de Ubá até os 15 anos, em uma dessas famílias numerosas, com uma dessas histórias bem tradicionais da nossa região. Era um Brasil muito rural e um lugar bem afastado do contato com o mundo urbano, em uma época em que a relação entre o rural e urbano ainda era muito distante”, relembra.

Nesse contexto, vindo de uma família em que o pai trabalhava com marcenaria e carpintaria, ele também foi percebendo o potencial criativo que existia ali. “Em uma situação de muita escassez, a madeira era um material muito disponível e que estava ali para resolver os problemas do cotidiano”, disse ele, que já tinha percebido que era possível fazer com aqueles materiais objetos como banco, porta e carro de boi.

E não é só a madeira que interessa a ele, mas também as formas dos objetos como são, e a possibilidade de se apropriar deles de maneira a não limitá-los. “Se me aproprio de uma caixa de papelão, a forma vai ser limitada ao modo como o material se comporta. Não vou transformar o material, triturar o papelão e fazer com que ele vire outra coisa. Quero que aquilo ainda esteja presente no objeto final”, explica.

O nome “Planejadin” faz referência a uma série de ideias, mas também a isso: primeiro, parte da palavra plano, pois grande parte do ofício vem de planificar geometria de coisas que recebe em casa. “Então compro, por exemplo, um café, e essa caixa vem montada com uma geometria super estável. Eu desmonto essa caixa, abro essa geometria, planifico essa geometria, e a partir dessa geometria planificada reconstruo isso de outra forma, criando outros jogos de plano e rebatimentos, como no neoconcretismo brasileiro”, diz.

Erro e improviso

Mas também há a ligação que remete ao plano enquanto o plano dos móveis e da arquitetura. “Os planos nunca saem como planejamos. Sempre escutamos histórias de alguém que contrata marceneiro e a pessoa não entregou, que contratou um arquiteto e a coisa não saiu como era pra ser…Temos uma tradição política de obras inacabadas, essa ideia de ‘país do futuro’. Existe um plano, mas que em uma dimensão mais ampla não é efetivado”, explica. 

Há, ainda, a possibilidade de ligação com o encurtamento do modo mineiro de falar e o remeter ao Aleijadinho, porque em sua linguagem escultórica ele traz dobras muito geométricas na madeira. “Quando trago essa ideia do ‘Planejadin’, trago pro íntimo, de um corpo em uma condição bem abstrata, mas que está presente nesses trabalhos e quer uma conexão com os corpos que veem os trabalhos. É um gestual muito pontual”, explica.

Mas, enquanto foca nesse aspecto íntimo, também se permite apostar no erro e no improviso como aspectos da criação. É o que acontece, por exemplo, na série “Pedra, papel e tesoura”, que usa formas geométricas como se fossem pedras espetadas em palitos, filetes de madeira, e fossem cair a qualquer momento, e que fazem referência à construção nas encostas e à forma pela qual Juiz de Fora tem sido ocupada.

Ou na série “Pé no chão”, que faz referência ao samba do juiz-forano Mamão, na qual trabalha  com estrutura e escaletas de madeira, base que parece lama. É uma massa de madeira, mas que faz referência a esse chão de barro, essas estruturas que estão presas a esse espaço mole, e por isso podem cair. “Opero muito nessa lógica na medida em que encaro restos de coisas como potencial para criação. Tem algo do momento e da intuição que se refere ao que vai ser construído mais do que coletar as coisas e colocar elas dentro de um plano. É um pouco do que dá pra fazer com o que tem”, explica. 

Ligação com a Zona da Mata

A ligação com a Zona da Mata, portanto, está presente desde a escolha dos materiais como também na paisagem que o cerca e o inspira, assim como no que decide pensar criticamente. Quando decide usar a madeira já transformada em carvão vegetal, por exemplo, conta que pensou em trazer uma reflexão sobre o tempo, mas também propor uma leitura ecológica para sua obra. “Essa  madeira que utilizo geralmente é uma madeira de segunda mão, que já fez parte de um móvel ou algo que já habitou um lugar ou teve uma trajetória. E é a madeira em outro estado, a madeira morta, queimada”, explica.

Ao deslocá-la, ele também entende que provoca reflexões ecológicas sobre essa paisagem que tanto já se alterou. “Posso evocar esse discurso das queimadas e do próprio efeito que essa indústria moveleira tem na nossa região, com a substituição da vegetação natural por plantação de eucalipto. Essa indústria mudou a paisagem que temos da nossa região.”