curta vento contra vento

curta vento contra vento
Produção é fruto de pesquisas entre Sala de Giz e Grupo NUN (Foto: Nina Cristófaro)

O curta-metragem “Vento contra vento” nasce da articulação entre cinema, dança e teatro. Essa produção juiz-forana foi feita por meio da parceria audiovisual entre o grupo de teatro Sala de Giz e o Grupo NUN de dança contemporânea, como forma de investigar poeticamente a memória e a perda em um cenário pós-pandêmico. O trabalho é desdobramento de uma pesquisa anterior realizada pela parceria entre os grupos, que também resultou nos trabalhos “Arataca” (2018) e “Pra tirar você da chuva” (2022), e foi aprovado pela Lei Paulo Gustavo. A obra será exibida no Cine Estação Alameda, terça-feira (20), às 18h.

A diretora Mayara Alvim explicou que o mote para criação do curta foi a relação humana com o mundo material, e para isso partiram de três personagens e objetos que os marcaram, e que eles desejam preservar: um pescador com seu barco velho, uma palhaça e seu nariz, um homem e seu relógio de bolso. “Encontramos nos objetos um arquivo de memórias, uma âncora no tempo. Entendo que, hoje, nossa relação com o mundo material se vê prejudicada: já não temos discos, livros ou filmes, apenas seu aluguel efêmero em plataformas digitais. Não passamos móveis, casas, ferramentas de geração em geração — tudo é feito para durar pouco, estragar rápido e ser substituído”, reflete. Dessa forma, ela acredita que a sociedade atual se vê cercada de objetos sem memórias, histórias ou sentidos especiais.

A partir disso, entenderam que a linguagem da vídeodança permitiria “uma investigação sensorial e sensível do corpo no audiovisual”. A ideia é que o público se sinta tocado pela relação entre os personagens, seus ofícios e seus objetos, com uma relação que também irá se alterar ao longo da obra, já que eles enfrentam desafios para conseguir essa preservação dos objetos da maneira que esperavam. “Eles precisam entender outras formas de se encontrar com o registro de suas memórias. Essa é a transformação que eles enfrentam”, diz.

Para que “Vento contra vento” chegasse ao público, também foi preciso aceitar transformações e intempéries que não dependiam da vontade da equipe. Isso porque, como explica a diretora, houve atraso na entrega do recurso, a diretora coreográfica mudou de cidade e a vida de toda a equipe já tinha se transformado bastante quando puderam de fato começar a trabalhar. Para que começassem a filmar, foi preciso reajustar todo o projeto e o roteiro. “Penso que chegamos ao resultado final sustentando um princípio de trabalho que faz parte da ética de toda a equipe, que é um respeito pelas exigências do próprio ofício para entregar um bom trabalho. É uma gente que não tem preguiça, é empenhada em dar o seu melhor. Isso é essencial”, conta.

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(Foto: Nina Cristófaro)

Estranhamento e surpresa

A ideia de que diferentes linguagens artísticas poderiam se complementar e brincar entre si serve, nesse projeto, para criar um “universo fantástico”. É assim que a diretora enxerga as possibilidades que cinema, dança e teatro trazem juntos. “Joga com a possibilidade de se comunicar por gestos e não por falas, de dançar uma angústia ou um alívio, de ver e ouvir os espaços sob o filtro sensível das estéticas cinematográficas escolhidas”, explica ela. Na perspectiva da equipe, essa complementaridade pode produzir um estranhamento da realidade, que obrigue o público a se deter com atenção e surpresa ao longo dos 14 minutos de filme por todas as sensações e intuições que podem ser despertadas.

Ao trazer para a obra temas como memória, perda e transformação, a diretora também considera que o curta-metragem dialoga com o momento presente, já que esses aspectos estão relacionados com feridas pessoais, mas também sociais — como tragédias climáticas, desastres ambientais e até a pandemia de Covid-19. Mais que chamar a atenção para isso, ela entende que o curta é um reflexo das “tentativas de elaborar esses temas como artistas”.