benze benzedeiras encruza
benze benzedeiras encruza
‘Benze’ nasceu do encontro entre tradição e novos caminhos (Foto: Janaína Fernandes/ Divulgação)

O espetáculo “Benze”, produzido pelo grupo de teatro Encruza a partir do encontro com benzedeiras da região de Juiz de Fora, mergulha nos saberes ancestrais de cura. A peça, a partir deste mês, circula e, mais tarde, o processo de criação e a pesquisa darão origem a um minidocumentário, como forma de preservar gestos e memórias.

A primeira parada acontece em Mariana, considerada a primeira cidade do estado de Minas Gerais, neste domingo (27). Depois, recebem o espetáculo as cidades de Viçosa, Chácara, Cataguases e Juiz de Fora, além do Rio de Janeiro. Com o intuito de ampliar as experiências para além do palco, as sessões são acompanhadas de uma roda de conversa com a equipe.

Com dramaturgia de Ciça Liberdade, fundadora do grupo, e Janaína Fernandes, “Benze” dialoga com os saberes populares e tem como referências nomes como Leda Maria Martins e Carlos Rodrigues Brandão. O projeto busca transformar o benzimento em linguagem de resistência e ancestralidade.

“Para nós, preservar essa tradição não significa congelá-la no passado, mas criar caminhos para que ela continue sendo conhecida, lembrada e transmitida às novas gerações”, define Janaína.

Reza e história

A pesquisa para “Benze” começou com o encontro com Dona Ivone, benzedeira do Bairro Retiro, em Juiz de Fora. Por meio do seu trabalho, o grupo teve vontade de compreender melhor a tradição e os saberes por trás do ato de benzer.

A equipe começou a entender o universo de rezas, ervas, gestos, histórias e, como Janaína destaca, a relação de cuidado que as benzedeiras estabelecem com suas comunidades. “Percebemos que são conhecimentos transmitidos muitas vezes pela oralidade e que correm o risco de desaparecer”, explica.

benze benzedeiras encruza
Depoimentos de benzedeiras foram fundamentais para a composição do espetáculo (Foto: Janaína Fernandes/ Divulgação)

A pesquisa, antes quase acadêmica, foi levada para o corpo e para a voz e, por fim, para a dramaturgia, transformando memórias em presença cênica. Janaína também percebe “Benze” como uma forma de homenagem às mulheres que carregam uma tradição que atravessa gerações.

O encontro com Dona Ivone foi o ponto de partida que motivou o grupo a conhecer outras benzedeiras em Juiz de Fora, Bias Fortes e Goianá. “Durante a circulação, teremos também a presença de três benzedeiras de Viçosa, que darão seus depoimentos e contarão suas histórias e experiências”, explica a dramaturga. Esses relatos irão complementar o minidocumentário, ampliando o olhar sobre a tradição da benzeção em diferentes territórios de Minas Gerais.

As guardiãs

Para Janaína, “enquanto o espetáculo apresenta uma criação artística a partir da pesquisa, o documentário aproxima o público das próprias benzedeiras”, permitindo que elas contem suas histórias e apresentem seus saberes com suas próprias vozes.

Nas cenas, em cima do palco, memórias viram experiência e a tradição, vivência. “Benze” pretende criar um espaço de reflexão para o público, já que as benzedeiras participam da cultura popular e, muitas vezes, são invisibilizadas.

“Para nós, é uma grande honra poder ouvir essas mulheres e registrar suas vozes, seus saberes e suas memórias. São mulheres fortes, guardiãs de uma tradição”, define.

A integrante da companhia de teatro reforça também que “Benze” não pretende falar apenas sobre as benzedeiras, mas, sim, criar caminhos para que elas sejam ouvidas. O diálogo entre teatro, memória e território é o que dá sentido ao projeto: a cena provoca, o encontro escuta e a troca cria novos sentidos.

benze benzedeiras encruza
Foto: Janaína Fernandes/ Divulgação

Depois da sessão de “Benze”, o público é convidado a participar de uma roda de conversa para compartilhar impressões, histórias e relatos relacionados aos saberes populares e à tradição das benzedeiras. A equipe também deseja conhecer as particularidades em diferentes territórios de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.

Janaína reforça que a presença das benzedeiras e das pessoas da comunidade é muito importante nesse momento, porque são elas que trazem suas próprias vivências e ajudam a ampliar a conversa.

“Benze” foi contemplado, em 2025, pela Lei Paulo Gustavo, por meio do Edital Multicultural da Funalfa, da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora e do Ministério da Cultura e também pela Política Nacional Aldir Blanc (Pnab).

Sobre o Encruza

Fundado por Ciça Liberdade, o grupo Encruza de teatro chega ao seu quarto ano de existência como associação e Ponto de Cultura, desenvolvendo ações de criação, pesquisa, formação e circulação nas artes cênicas, voltado principalmente para a valorização da cultura negra, da ancestralidade e das narrativas de mulheres.

O grupo já realizou trabalhos como os espetáculos “Orixás, Flores e Amores”, “Mata-me” e “Benze”, além de performances e outras ações formativas, de pesquisa e produção cultural, buscando fortalecer a presença negra nas artes cênicas.

O grupo também é o idealizador do Festac – Festival de Artes Cênicas de Juiz de Fora e busca entender o teatro não apenas como espaço de criação artística, mas também como instrumento de memória, reflexão e transformação social.

*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy