koya ucho

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Foto: Hiram Apon Puri/Divulgação

A atriz Boacé Puri leva ao Teatro Paschoal Carlos Magno o espetáculo “Koya Ucho”, o primeiro projeto de um artista indígena a ser aprovado para receber financiamento da Lei de Incentivo à Cultura Murilo Mendes. Com apenas 24 anos, ela foi responsável por escrever e por assumir o protagonismo da narrativa — que também está relacionada com a própria trajetória, a sua relação com Juiz de Fora e o reconhecimento da luta dos povos originários.

A peça narra a trajetória de Koya, uma mulher que entra em conflito com o avanço acelerado e desordenado de um vilarejo dentro de seu território ancestral, e traz à tona problemas atuais, como a emergência climática e a invasão de terras. A obra terá duas apresentações no sábado (24), às 19h e às 20h30, e os ingressos estão sendo vendidos no Sympla.

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Foto: Hiram Apon Puri/Divulgação

Escrita há cerca de dois anos, a peça nasceu de dois desejos da artista: abordar suas raízes indígenas e se desafiar enquanto atriz. Foi então que ela iniciou um trabalho de pesquisa para lançar luz sobre temas urgentes da contemporaneidade, como as estratégias de sobrevivência e resistência dos povos originários diante do avanço da urbanização.

Na época, ela contou que estava lendo os livros  “A queda do céu”, de Davi Kopenawa, e “Ideias para adiar o fim do mundo”, de Ailton Krenak, que a ajudaram no processo. “Minha ideia era mostrar para as pessoas que nós existimos, que nós não fomos extintos, e que estamos em todos os lugares — inclusive nas artes”, destaca ela.

Boacé começou no teatro aos 15 anos, após ter a infância marcada por peças infantis, que assistia por influência de um tio, que era ator. Ela participou do programa Gente em Primeiro Lugar e, em seguida, passou por companhias como Eita!, Sala de Giz e Cravo Verde. “Quero ver até onde consigo chegar, agora, como atriz. Fui muito inspirada pelo Amaury Lorenzo e a vinda dele no Teatro Paschoal Carlos Magno, e pensei que queria fazer exatamente o que ele fez: segurar uma plateia, sozinho, por uma hora”, explica ela.

O processo de criação também envolveu o desenvolvimento de sua escrita, presente em sua vida desde a infância, para construir uma narrativa que trouxesse reflexões sobre as chuvas, como as que atingiram Juiz de Fora e outras partes do país.

Para ela, ser a primeira artista indígena a ter um projeto aprovado no edital de financiamento cultural representa reconhecimento e a possibilidade de abrir caminhos para outras iniciativas. “Sinto que posso abrir portas para outros parentes indígenas que não tinham pensado que podiam ocupar esse espaço de editais em Juiz de Fora. Acredito e confio muito nisso, que esse espetáculo possa dar esperança para os povos originários”, destaca. O espetáculo conta, ainda, com a direção de Bruno Quiossa, trilha sonora de Fred Fonseca e figurino de Giselle Maiô Pataxó.

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Foto: Hiram Apon Puri/Divulgação

Inspiração na própria trajetória

Boacé explica que se reconhece indígena como parte do movimento chamado “retomada”, já que não cresceu em aldeia, mas em cidade. Esse movimento é marcado pela recuperação de histórias, línguas e práticas espirituais que tiveram suas origens apagadas pela colonização e pela urbanização.

Ela não sabia que era puri, embora percebesse que a família tinha tradições consideradas “diferentes”, como o uso de remédios à base de plantas, o respeito aos ciclos do sol e da lua e hábitos alimentares próprios dos povos originários.

Ela e a mãe começaram a compreender melhor suas origens durante uma visita de Dauá Puri, ancião e contador de histórias do povo Puri, acompanhado de Ryal Petara Puri, liderança da Ambô Taheantah. Ao ver roupas, grafismos e músicas pertencentes ao povo puri, a mãe reconheceu parte de sua história ali.

A partir desse encontro, a família iniciou um processo de investigação da própria história e de recuperação de suas raízes, posteriormente reconhecido pelas lideranças. “Para escrever o espetáculo, também contei com a ajuda das minhas lideranças, para garantir que tudo fosse muito respeitoso com a história dos indígenas e dos puris”, destaca.

Desafios enquanto artista

Para ela, subir ao palco será um grande desafio, já que interpretará vários personagens e precisará transmitir diferentes emoções ao público por meio do próprio corpo. Mas não é só isso. Boacé confessa que uma de suas maiores preocupações é contar uma história que é tão importante para ela. “Quero transmitir o que a gente como indígena sente: esse medo, essa luta contra a invasão”, diz.