'Belezas do meu lugar': documentário feito por jovens de Santa Rita de Ibitipoca é selecionado para festival internacional
'Belezas do meu lugar': documentário feito por jovens de Santa Rita de Ibitipoca é selecionado para festival internacional
História da comunidade dos Moreiras irá até em Caruaru, em Pernambuco, para o festival (Foto: Divulgação)

O documentário “Belezas do meu lugar”, produzido em uma oficina de documentários do coletivo Vozes da Serra Grande, foi selecionado para o Festival Internacional de Cinema de Itaúna, em Pernambuco. A produção, realizada por crianças, conta a história da cachoeira Janela do Céu, em Santa Rita de Ibitipoca, município mineiro próximo a Lima Duarte.

A produção é resultado da segunda edição do curso “Introdução a Documentário – Desvendando a Serra Grande 2”, que atendeu duas turmas: uma com os jovens das comunidades de Bom Jesus do Vermelho e Moreiras, em Santa Rita de Ibitipoca, e outra turma com os jovens da comunidade Quilombola Colônia do Paiol, em Bias Fortes.

Durante as aulas, os participantes tiveram contato com a produção audiovisual, direção de fotografia, captação de som, história oral, documentário e roteiro, e produziram sete documentários. A ideia dos roteiros surgiu dos próprios jovens, que desejavam conhecer mais sobre o local onde moram.

“Eles elaboraram os roteiros, fizeram as entrevistas com pessoas mais velhas, detentores de saberes, participaram da produção dos filmes no som, na fotografia e na direção”, explica Celine Billard, que realizou as aulas.

Preservar na criação

Apesar de ter o acesso pela portaria do parque em Lima Duarte, a Janela do Céu é localizada no município de Santa Rita de Ibitipoca. O acesso por baixo dela é privado, localizado no distrito de Moreiras e é conhecido como Cachoeira das Sete Quedas.

No contrato de concessão do Parque do Parque Estadual de Ibitipoca, foi incluído o projeto de uma nova portaria com acesso pela comunidade dos Moreiras, demanda antiga das comunidades vizinhas, que se sentem excluídas dos benefícios que o turismo traz para a região.

Nesse contexto, os jovens decidiram falar sobre as Sete Quedas e a cachoeira porque não conheciam sobre, mesmo estando em seu território. A metodologia aplicada na produção do documentário também passou pela necessidade de se preservar a história do local, valorizando a escuta e a produção coletiva de conhecimento.

Celine relata que “as turmas mostraram muito empenho em registrar as histórias, tradições, memórias das comunidades, interagindo com os mais velhos, e muitos talentos se revelaram”.

documentário belezas do meu lugar
Jovens participaram de todas as etapas da produção (Foto: Divulgação)

Em todas as produções de documentários, aconteceram exibições nas comunidades, para que os jovens, suas famílias e amigos pudessem assistir aos documentários prontos. Entretanto, agora que as produções alçam novos voos, é preciso pensar em soluções criativas.

“Queremos que os jovens participem dos festivais, mas a logística e a falta de recurso para o transporte limitam a participação. Estamos vendo a possibilidade de organizar uma sessão de cinema em Juiz de Fora com a participação das turmas, porque ver o seu trabalho na tela grande é outra experiência”, explica Billard.

Audiovisual como modo de expressão

De acordo com Celine, o intuito do projeto Vozes da Serra Grande é a valorização das comunidades que sofrem um processo de gentrificação acelerado pelo turismo ligado ao Parque Estadual Ibitipoca. Por isso, a ideia é dar as ferramentas para que os próprios moradores possam usar o audiovisual como modo de expressão.

O documentário “O mistério do lobisomem” foi produzido pela turma da comunidade de Bom Jesus do Vermelho, em Santa Rita de Ibitipoca, onde também foi produzido “A trilha de São Francisco”. Já o outro documentário, “Mãe do ouro” foi produzido na comunidade Quilombola Colônia do Paiol em Bias Fortes, onde também foi produzido “A história do maculelê”, “Mas na verdade, o que são ‘os mugangos’?” e o poema visual “Colônia do Paiol”.

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Vozes da Serra Grande advoga pela memória da região (Foto: Divulgação)

Além da oficina que deu origem a sete documentários, são realizadas também:

  • Carta Sonora – Oficina de Podcasts;
  • Oficina de Biscoitos Artesanais e Patrimônio Cultural – Resgate e valorização da gastronomia tradicional para crianças;
  • Pesquisa e publicação – Produção do e-book Memória e Patrimônio Cultural através de Biscoitos Artesanais, que reúne narrativas, receitas e registros sobre essa tradição;
  • Oficina de stop motion e património imaterial;
  • Capacitação de jovens em animação com foco na preservação do patrimônio cultural;
  • Corredor do Tear – Formação em tecelagem manual para mulheres, promovendo a economia criativa.

O Ponto de Memória e de Cultura Vozes da Serra Grande é um coletivo cultural fundado por Céline Billard, Danielle Arruda e Fred Fonseca, dedicado à valorização do patrimônio imaterial, das memórias e das tradições das comunidades da Serra Grande (atual Parque Estadual do Ibitipoca) inicialmente, e estão em processo de ampliar para outras comunidades rurais e periféricas.

Durante a pandemia de COVID-19, criaram um acervo digital de histórias orais, conectando a comunidade e registrando narrativas ameaçadas. Esse trabalho revelou processos de gentrificação acelerados pelo turismo e a necessidade de salvaguarda dos saberes locais. Diante dessas demandas, passaram a atuar no fortalecimento dos laços identitários da população.

*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy

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