

A exposição “Até onde alcanças?” leva o trabalho do artista plástico Gilton Monteiro Jr. (Sânju) para a Galeria Nívea Bracher. Com uma escultura e dez painéis dípticos, o artista buscou criar uma circunstância específica para que o público vivenciasse a propriedade poética. O próprio título propõe uma reflexão sobre as relações estabelecidas entre público, obra e artista. Os trabalhos seguem expostos no Mercado Municipal até 18 de outubro.
Ao montar a exposição, Sânju pensou na convergência dos elementos de modo que público, artista e obra de arte se encontrassem — considerando ainda o local da exposição, no Centro de Juiz de Fora. “O tema ‘Até onde alcanças?’ acaba por envolver uma reflexão sobre o movimento que vai de mim, através das obras, até um público sempre indeterminado”, reflete. Para ele, trata-se de um movimento que se amplia e que, ao mesmo tempo, se recolhe nos trabalhos e na situação expositiva. As obras escolhidas, por sua vez, envolvem temas que fazem parte da formação cultural brasileira e trazem gêneros tradicionais da pintura.
Na organização em dípticos, os painéis podem ter sua ordem invertida sem que a imagem perca sua coerência, embora a experiência visual se modifique. Ao reunir as obras, o artista entende que o que traz unidade a elas é justamente a capacidade de provocarem uma dinâmica relacional com o público. “A individualidade dos trabalhos convida e propõe um desafio ao público de perceber e construir, ali, naquela situação específica, uma relação”, explica.
Em sua perspectiva, essas relações são inventadas e construídas nesse movimento poético da exposição. “A relação com as obras e a maneira como cada espectador vai construir essa experiência com os trabalhos é que gera esse efeito de totalidade. Isto é o que está em jogo: não consigo prever totalmente o que cada um irá extrair do evento expositivo. Esse movimento em aberto é o que dá forma à exposição.”
Experiência de confronto
A ideia da exposição procura implicar o público no processo de relação com a obra de arte, considerando que ela pode se dar das maneiras mais diversas. “A relação que estabelecemos com a obra de arte é um pouco caótica. Nunca sabemos direito o que estamos vendo, às vezes gostamos sem saber por que gostamos e isso causa um movimento próprio, que é o da experiência, que só adquire forma com o tempo”, diz. Esse confronto entre público e objeto leva à reflexão sobre até onde é possível atingir com a percepção e a experiência com o evento expositivo, o que avança e que recua.
O desejo de Gilton Monteiro Jr. é que cada indivíduo explore a exposição a partir do que leva em si, suas próprias experiências e vivências. “Acho que a exposição de arte é um momento que faz trabalhar um pouco de próprio em cada um, mas também de impróprio, ou seja, o que está em circulação na cultura e na sociedade. Onde esses elementos e informações estão reformulados, reelaborados e adquirem uma destinação própria ao que cada um é capaz de produzir”, afirma ele, ressaltando que esse é um momento “potencializador da individualidade” e de reconexão com o mundo e consigo mesmo.
Próximos passos
Com essa exposição, Sânju explica que os caminhos se abrem para novos trabalhos — mas não é possível definir, agora, o que virá a seguir. “Cada exposição é um espanto, uma descoberta, um fato inédito. No contexto da minha trajetória artística, essa, de fato, pontua ou produz uma configuração específica do conjunto de questões que venho desenvolvendo e pesquisando. É difícil prever o que pode sair daí”, diz. Para ele, o tempo dedicado ao processo criativo rompe com a cronologia e cede a um mistério. “A força das contingências que se impõem no ato criativo tem um sentido próprio e é sempre difícil a gente tentar ver qual será e onde será dado o passo seguinte.”


