Todas as terças à noite, a advogada Jamyle Neves se senta em uma poltrona da Novelaria, um café especializado em tricô na Vila Madalena, em São Paulo, e passa três horas sem olhar para o celular. Não por regra da casa — simplesmente porque as mãos e a cabeça estão ocupadas com outra coisa.
Ela é uma entre muitas pessoas que encontraram no tricô e no crochê uma maneira de se afastar das telas sem precisar fazer um esforço consciente para isso. “A Novelaria nasceu em 2011 com o propósito pioneiro de ser o primeiro knit café do Brasil”, afirma sua fundadora, Aida Fonseca, em entrevista à CNN Brasil.
Idealizado como “um refúgio de bem-estar e encontros”, o espaço assumiu um formato que mistura loja, escola e cafeteria, atualmente com unidades na Vila Madalena e em Moema. Lá, alunos aprendem desde tricô e crochê até bordado, macramê e corte e costura, sempre acompanhados por professores especializados.
“A grande maioria chega buscando uma pausa”, conta Fonseca. Segundo ela, aprender a técnica é só a primeira laçada — mas é a “correntinha”, elo por elo, que prende de verdade, criando um espaço para descompressão, calma e um tempo de qualidade para si, dentro da rotina urbana carregada de estímulos.
Ultimamente, Aida tem percebido uma mudança no perfil dos frequentadores. Segundo ela, cresceu o número de jovens da geração Z, além de executivos e um público masculino que antes praticamente não aparecia. Para essa geração que nasceu conectada, diz, o artesanal virou uma espécie de “luxo do analógico” — algo raro justamente por não caber em um feed.
Como é, na prática, essa pausa das telas?

Embora tenha aprendido a tricotar aos 12 anos, Jamyle nunca tinha conseguido terminar uma peça inteira. Por isso, quando viu as aulas da Novelaria, pensou: “Vou me dar esse presente”, afirmou a advogada à CNN Brasil. A ideia era fazer um suéter do começo ao fim e, principalmente, produzir algo que não tivesse relação com seu trabalho.
A aula de três horas, em uma cadeira confortável, “é uma delícia porque é muito tranquila”, conta Jamyle. De frente para outras pessoas, entre conversas, tricô e perguntas, “a professora está ali o tempo todo”. Se algo dá errado, a solução é simples: desmancha e tenta outra vez.
Para quem vive resolvendo problemas o tempo todo, “descobrir um lugar em que o erro não é uma tragédia é maravilhoso”, resume a aluna, que prefere deixar o celular de lado, não por ter se imposto esse limite, mas porque as mãos e a mente ficam ocupadas contando pontos e seguindo a receita da peça.
Menos do que desligar o celular, talvez o grande charme da experiência seja perceber que ainda existe prazer em fazer uma coisa devagar. Enquanto a IA faz em segundos coisas que demoravam horas, há esse retorno ao manual. “Eu acho essa contradição muito interessante. No tricô não tem atalho: um ponto depois do outro”, resume Jamyle.
Por que fazer tricô desacelera a mente?

Como é possível que repetir pontos ajude a desacelerar a cabeça? Para a psicóloga clínica Caroline Macarini, cofundadora da healthtech Unolife, atividades manuais e cadenciadas exigem atenção concentrada no “aqui e agora” e nos movimentos repetitivos, levando a uma mudança no estado de alerta do organismo.
Citando a neuropsicologia, ela diz que esse tipo de atividade ajuda a acionar o sistema nervoso parassimpático, ligado ao estado de descanso do organismo. Além disso, manter as mãos e a mente ocupadas pode ajudar a reduzir a ruminação mental, “aquela sucessão de pensamentos intrusivos e preocupações”.
Na psicologia clínica, explica Macarini, as artes manuais são consideradas uma espécie de mindfulness informal. No knit café, o caminho para chegar a esse estado é bem menos formal do que na meditação tradicional, na qual é preciso ficar imóvel e em silêncio, o que costuma ser muito difícil para pessoas ansiosas.
Por isso, a busca pelo artesanato, pelo tricô, pelo crochê funcionaria “como um contra-ataque intuitivo à fadiga digital”, jogando uma âncora no mundo físico. Na prática, o hobby manual impõe um tempo próprio, que não dá para “acelerar em 2x” como um áudio ou vídeo.
Macarini faz, porém, uma ressalva: hobbies manuais ajudam no autocuidado e podem aliviar o estresse cotidiano, mas não substituem psicoterapia ou acompanhamento psiquiátrico quando há necessidade de tratamento.
Como a geração Z está descobrindo o trabalho manual?

Enquanto “para as gerações anteriores, as atividades manuais eram muitas vezes vistas como obrigação doméstica” — pontua Macarini —, para quem nasceu já imerso no mundo digital, esse trabalho virou um ato de resistência a um cotidiano marcado pela hiperestimulação, pela conexão permanente e pela cobrança por produtividade.
Segundo a psicóloga, esses hobbies oferecem experiências que a internet nem sempre consegue reproduzir: a satisfação de criar alguma coisa com as próprias mãos, o encontro presencial com outras pessoas e, talvez o mais simples deles, uma pausa, sem pressão para performar ou monetizar.
É esse componente comunitário que Aida Fonseca conseguiu captar na Novelaria. Aulas são pretextos para conversas. E o que começou como um ponto de encontro evoluiu para uma malha de trocas, amizades e experiências compartilhadas.
Jamyle hoje se interessa menos pelos fios e mais pelas histórias de quem os produz, pelas tradições de outros lugares e pelas pessoas que encontra pelo caminho. O que começou como refazer um suéter de infância incompleto acabou abrindo uma porta para um universo que ela nem sabia que existia.
No fim, talvez o encanto esteja justamente na simplicidade: o tricô não pretende acelerar nada, nem transformar três horas em três minutos. Não há problema nenhum em ir devagar, pois isso pode ser um prazer em si. “O tricô exige paciência, mas também ensina paciência”, conclui Jamyle ao arrematar o seu suéter.

