Um grupo de compositores da Unidos de Vila Isabel anunciou, nesta terça-feira (15), que está deixando a escola do bairro de Noel Rosa após uma celeuma envolvendo a escolha do samba-enredo de 2027. A azul e branco da zona norte do Rio de Janeiro levará para a Sapucaí um enredo sobre o livro “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior.
A história começou na sexta-feira (11), quando a Vila Isabel anunciou que promoveria uma junção de dois sambas-enredo para formar o hino que embalará seu desfile no ano que vem. A obra seria composta pelo samba da parceria liderada por Martinho da Vila — e integrada por outros dois compositores históricos da escola, Evandro Bocão e André Diniz — com o refrão principal do samba da parceria de Paulo César Feital.
A escolha foi criticada nas redes sociais e, na manhã desta terça-feira (15), anunciou que havia voltado atrás na decisão e levará para a avenida o samba de Martinho da Vila na íntegra. Em nota publicada em suas redes sociais, a Vila Isabel explicou que levou em consideração a ligação de Martinho com a agremiação e sua posição a respeito da ideia de juntar os sambas. . Ele é o presidente de honra e faz parte da escola há 60 anos.
“Foi uma decisão pensada com muito cuidado e, acima de tudo, pensando na Vila Isabel. O Martinho tem uma relação muito especial com a nossa escola. São 60 anos de história e ele é o nosso presidente de honra. Diante da posição dele e de tudo que avaliamos com a nossa equipe de Carnaval, entendemos que o samba nº 13 era o melhor caminho”, afirmou Luiz Guimarães, presidente da escola.
“É uma obra forte e que conta muito bem a história que queremos levar para a Avenida. Agora vamos trabalhar junto com os compositores, fazer os ajustes necessários e preparar esse samba para defender a Vila Isabel no Carnaval 2027.”
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A decisão fez com que os autores do samba que foi deixado de lado anunciassem a saída da Vila Isabel, entre eles Thales Nunes, que exercia a função de diretor geral da Ala de Compositores e estava na escola há 17 anos.
“Agradeço de coração todo apoio. Estou envergonhado, mas ciente que só fiz meu papel de sonhador. Não pedi para que meu sonho fosse dilacerado”, escreveu Thales. “O amor pela instituição será eterno, talvez a dor também.”
O mesmo movimento foi feito por Gabriel Simões, Gustavinho Oliveira e Rafael Tinguinha. Oliveira, inclusive, afirmou que, “em alguns momentos, parece que Martinho, André Diniz e Evandro Bocão são maiores do que a própria instituição para algumas pessoas”. Tinguinha, por sua vez, é filho do intérprete principal da escola e fazia parte do time de apoios do pai no carro de som da Vila.
Além de presidente de honra da Vila Isabel, Martinho é autor de outros nove sambas na agremiação:
- “Carnaval das Ilusões” (1967);
- “Quatro Séculos de Modas e Costumes” (1968);
- “Ya-tá do Cais Dourado” (1969);
- “Glórias Gaúchas” (1970);
- “Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade” (1972);
- “Sonho de um Sonho” (1980);
- “Pra Tudo se Acabar na Quarta-feira” (1984);
- “Raízes” (1987);
- “Gbala – Viagem ao Templo da Criação” (1993);
- “Noel: A Presença do Poeta da Vila” (2010);
- “A Vila Canta o Brasil, Celeiro do Mundo – Água no Feijão que Chegou Mais Um” (2013);
- “Memórias do Pai Arraia – Um Sonho Pernambucano, Um Legado Brasileiro” (2016).
Ele também foi o enredo de 2022 da escola e idealizador do enredo que rendeu o primeiro título da Vila Isabel em 1988, “Kizomba, Festa da Raça”.
Evandro Bocão, por sua vez, foi presidente da escola entre 2002 e 2005, vice-presidente entre 2005 e 2011 e diretor de carnaval em 1997, 1998, 2007, 2010 e 2016. André Diniz também exerceu a função neste último ano. Somando os anos que concorreram juntos ou separados, a dupla é autora de mais de 20 sambas-enredo na Vila Isabel, incluindo os que renderam os títulos de 2006 e 2013. Veja a lista:
- “Muito Prazer! Isabel de Bragança e Drummond Rosa da Silva, mas Pode Me Chamar de Vila” (1994);
- “Cara e Coroa, as Duas Faces da Moeda” (1995);
- “João Pessoa, Onde o Sol Brilha Mais Cedo” (1999);
- “Academia Indígena de Letras – Eu Sou Índio, Eu Também Sou Imortal” (2000);
- “A Vila É Para Ti…” (2004);
- “Singrando os Mares e Construindo o Futuro” (2005);
- “Soy Loco Por Tí, América: A Vila Canta a Latinidade” (2006);
- “Metamorfoses: Do Reino Natural à Corte Popular do Carnaval – As Transformações da Vida” (2007);
- “Trabalhadores do Brasil” (2008);
- “Neste Palco da Folia, Minha Vila Anuncia: Theatro Municipal, a Centenária Maravilha” (2009);
- “Mitos e Histórias Entrelaçadas pelos Fios de Cabelo” (2011);
- “Você Semba Lá… Que Eu Sambo Cá! O Canto Livre de Angola” (2012);
- “A Vila Canta o Brasil, Celeiro do Mundo – Água no Feijão que Chegou Mais Um” (2013);
- “Retratos de Um Brasil Plural” (2014);
- “Memórias do Pai Arraia – Um Sonho Pernambucano, Um Legado Brasileiro” (2016);
- “Em Nome do Pai, do Filho e dos Santos, a Vila Canta a Cidade de Pedro” (2019);
- “Canta, Canta, Minha Gente! A Vila É de Martinho!” (2022);
- “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que Um Sambista Sonhou a África!” (2026).
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