Adultério, promiscuidade e atos lascívios em pleno Fórum Romano: estas são as acusações que teriam levado Júlia, a única filha do primeiro imperador de Roma, a perder todos os privilégios e morrer de fome no exílio.
Milênios depois, historiadores reconstruíram a história de vida da princesa e descobriram uma figura muito mais complexa. Ela era amada pelos cidadãos da época, conduzia sua própria articulação política e pode ter usado a sexualidade como arma para enfraquecer o governo do pai.
Entenda o legado da autora de um dos maiores escândalos da história antiga, e como sua reputação evoluiu desde o período anterior a Cristo até os tempos contemporâneos.
Filha de divórcio, mãe do futuro imperador
A vida de Júlia foi conturbada desde os primeiros segundos. Ela nasceu no mesmo dia em que o primeiro governante do Império Romano, seu pai, se divorciou da segunda esposa, Scribonia. O imperador Augusto usou seu poder político para tirar a bebê da mãe e assumir a guarda total.
A menina foi criada com sua madrasta, Lívia, e educada para manter a boa reputação do pai em círculos aristocráticos e religiosos de Roma. O historiador Suetonius, que viveu na mesma época, a descreve como uma jovem de “cultura considerável”, amante da literatura e produto de uma criação “rigorosa e um tanto antiquada”.
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A educação dos filhos refletia o projeto político de Augusto, que se dizia tradicionalista e defensor da moral e dos bons costumes esquecidos diante dos anos de decadência de Roma. Ele era figura principal do governo e da religião, e usava todas as suas áreas de influência para promover o casamento, a obediência, a separação de classes e o puritanismo.
Mas ser filha única do Imperador era uma responsabilidade que ia além de compromissos sociais e religiosos. A capacidade de Júlia de gestar e dar à luz os herdeiros do Império Romano seria usada como moeda de troca por Augusto e definiria grande parte de sua vida.
Três casamentos arranjados
Como muitas princesas históricas, Júlia não pôde escolher seus maridos. O casamento com a filha do Imperador era uma importante ferramenta política, prometido por Augusto a seus aliados como forma de garantir a permanência no poder e preservar a pureza da linhagem de Júlio César.
- O primeiro marido de Júlia foi seu primo Marco Cláudio Marcelo, numa união que durou apenas dois anos e foi interrompida pelo falecimento do rapaz. Ele morreu de uma doença repentina antes que pudesse gerar filhos.
- O segundo, Marco Vipsânio Agripa, foi um comandante militar e amigo pessoal de Augusto que auxiliou na conquista dos territórios anos antes. Ele era 25 anos mais velho que a princesa e acumulava uma influência incômoda em Roma; Augusto teria escolhido transformá-lo em seu genro para impedir que usurpasse seu poder.
O matrimônio de nove anos com Agripa alcançou o objetivo principal: gerar herdeiros para o Império. Foram cinco no total, sendo Caio e Lúcio os escolhidos de Augusto para assumir seu posto no futuro. Júlia ainda estava grávida quando o marido faleceu de forma súbita; o bebê recebeu o nome de Agripa, em homenagem ao pai.
Uma união amarga
Menos de um ano após virar viúva pela segunda vez, Júlia entraria em seu terceiro e mais conflituoso casamento até então. O noivo era Tibério, enteado de Augusto. Alguns historiadores acusam Lívia de ter persuadido seu marido a colocar o filho na linha de sucessão, motivando sua escolha como genro.
Mas o homem já era casado. Tibério, um importante líder militar, era extremamente apaixonado por sua esposa, Vipsânia – que, por sua vez, era filha do falecido Marco Vipsânio Agripa e enteada de Júlia.
Tibério e Júlia se odiavam. O único filho dos dois morreu ainda bebê, e foi neste casamento que os rumores de infidelidade e promiscuidade da princesa vieram à tona.
A ilha das mulheres exiladas
Pandatária, hoje chamada de Ventotene, é uma ilhota vulcânica na costa italiana de Nápoles. No Império Romano, virou local de exílio de mulheres aristocratas cujo comportamento feria as convenções de conduta pregadas por Augusto.
O imperador havia criado leis que proibiam o adultério, inclusive com pena de morte. Havia um porém: o crime só era atribuído a mulheres. Homens mantinham o direito de trair suas esposas e, em certos casos, eram obrigados a se divorciar ou até a matar parceiras infiéis.
Esta foi a lei que determinou o exílio de Júlia. Mas, antes, o casamento que já era infeliz piorou: Tibério fugiu de Roma para afastar-se da esposa; um dos filhos do segundo casamento da princesa faleceu, e Augusto começou a suspeitar que sua própria herdeira tramava contra ele.
Um escândalo sexual na História Antiga
Júlia desafiava seu pai e as normas de conduta do Império e reivindicava as mesmas liberdades das quais os homens já gozavam. Até seu visual era uma contradição ao governo puritano de Augusto: ela se vestia sem modéstia e estava sempre acompanhada por uma comitiva de jovens belas e extravagantes.
Esta personalidade rebelde já incitava rumores sobre a sexualidade e a moral da princesa. Mas quando Tibério fugiu de Roma e deixou Júlia sozinha, eles aumentaram.
As acusações iam desde festas noturnas até encontros explícitos com diversos homens em pleno Fórum Romano. Havia boatos de que a princesa estaria dormindo com estranhos ou, ainda, praticando prostituição aos pés da estátua de Mártias, símbolo da liberdade na antiga república.

Foi então que o imperador parou de ignorar os rumores sobre a filha – por receber provas concretas ou, segundo teorias de historiadores modernos, por ter descoberto uma conspiração da jovem para enfraquecer seu governo. As demonstrações públicas de promiscuidade e oposição à lei contra o adultério seriam um ato político, para além de lazer ou diversão.
Não é consenso se a jovem havia sido adúltera a vida toda e, com o passar dos anos, parou de esconder seu comportamento, ou se havia passado a se encontrar com homens como protesto contra o poder absoluto do Imperador após três casamentos forçados. O que se sabe é que o pai condenou Júlia ao exílio, sem direito a julgamento, e fez Tibério se divorciar por carta, impedindo-o de retornar a Roma.
“Eu não tentarei dizer que Júlia ficou celibatária depois de ser deixada por seu terceiro marido, nem excluo a possibilidade de ela ter sido amante de todos estes homens em um momento ou outro. Mas o momento de sua exposição é conveniente demais”, argumenta a historiadora Elaine Fantham em seu livro ‘Julia Augusti, a Filha do Imperador’. “Histórias sobre sua conduta rebelde mostram que essa mulher espirituosa queria fazer suas próprias escolhas, pelo menos em questões do dia a dia. Mas seu pai todo-poderoso tomou seus filhos por adoção e a eliminou da sociedade, arruinando sua vida e sua reputação para a posterioridade.”
A ruína da filha única do imperador Augusto
Júlia foi enviada à ilha de Pandataria, onde ficou por dois anos antes de ser transferida para um local ainda mais distante. Neste período, ela viveu uma vida austera, mas ainda com proteção oficial e o básico para sua sobrevivência.
Mesmo fora de Roma, ela continuou sendo uma ameaça ao Império: um de seus filhos teria conspirado com opositores para resgatá-la e iniciar um golpe militar contra Augusto, o que não ocorreu.
Apesar dos boatos, a personalidade irreverente de Júlia fez dela uma figura amada pelos súditos de seu pai. Diversas petições públicas foram abertas no Fórum Romano para trazer a princesa de volta; nenhuma foi atendida.
Quando o ex-marido Tibério assumiu o comando do Império Romano, um exílio relativamente confortável transformou-se em tortura. Como vingança por um casamento amargo e por ter sido forçado a se divorciar de seu verdadeiro amor, o novo imperador ordenou que sua ex-esposa fosse privada de comida.
A causa da morte de Júlia foi inanição, mas historiadores discordam sobre as circunstâncias. Alguns acreditam que a própria passou a recusar alimentos, desiludida com suas chances de retornar a Roma e ajudar a tomar o poder. Outros afirmam que a fome fez parte da vingança de Tibério.

Mulher devassa ou revolucionária?
O legado desta figura histórica começou a mudar a partir do século XIX, quando estudiosos passaram a questionar a narrativa oficial sobre Júlia, repercutida por historiadores da época do Império, e a considerá-la uma agente política influente e contrária ao governo.
Esta perspectiva foi resumida pelo escritor Christoph Martin Wieland, que publicou uma defesa de mulheres como Aspásia e a imperadora Faustina, a Jovem, além da filha de Augusto:
Pobre Júlia. Não foi o bastante desperdiçar uma parte tão grande de seus melhores anos naquela odiosa ilha de Pandataria? Não foi suficiente ser usada como sacrifício para a política e as fraquezas de um pai temperamental, ansioso pelo poder absoluto que usurpou; para as perseguições secretas de uma madrasta buscando dominação ilimitada, e para a vingança lenta e cruel de um monstro inumano como Tibério? Para completar sua ruína, você precisava ser tratada pelos escritores de história e romance como uma criatura que desgraçou o nome das mulheres, rotulada com abusos desfigurantes e condenada com o maior dos ódios e desprezos?
Christoph Martin Wieland, poeta e filósofo alemão iluminista

