Thiagus Petrus planeja aposentadoria para 2029 e avalia possibilidades de montar time de handebol em Juiz de Fora

O juiz-forano, multicampeão no handebol do Barcelona e com campanha histórica e trajetória longeva na Seleção Brasileira, Thiagus Petrus, foi o entrevistado desta quinta-feira (8) do programa Dá Jogo, transmitido ao vivo no YouTube da Tribuna. 

Durante a conversa, Thiagus falou sobre os planos de atuar na gestão esportiva após o fim da carreira, que deve acontecer em 2029 e também sobre possibilidades de incentivar o esporte na cidade natal. Ele ainda contou bastidores do Barcelona e como tem sido a vida em uma cidade de 50 mil habitantes na Hungria, país onde o esporte tem muita popularidade e cobranças.

Confira a entrevista, na íntegra:

Tribuna: Queria que você contasse um pouco da sua trajetória, desde o início, para quem ainda não te conhece tão a fundo. 

Thiagus Petrus: Sou juiz-forano de sempre. Nasci aí, morei em Santa Luzia, no Cruzeiro do Sul e no Parque Independência, onde minha mãe mora até hoje. Comecei a jogar handebol na escola, em Santa Terezinha, na Escola Estadual Sebastião Patrus de Souza. Depois, fui para o Olímpico Atlético Clube, que tinha uma equipe de handebol. Hoje, infelizmente, não tem mais. Em 2007, fui para São Paulo fazer um teste no Esporte Clube Pinheiros. Passei para a categoria sub-18, juvenil, e fiquei cinco anos no clube, desde o juvenil até o adulto profissional. Em 2012, recebi algumas propostas para jogar na Europa e acabei optando pelo Logroño, da Espanha. Fiquei três anos e meio por lá. Fomos vice-campeões da Copa do Rei e da Liga Espanhola. Também comecei a disputar a Champions League de handebol, que é a principal competição de clubes, mais importante até do que o Mundial de Clubes. Na semana passada, por exemplo, ganhamos o Mundial de Clubes com o meu time atual, mas esse título não tem o mesmo peso da Champions League aqui na Europa. É uma situação parecida com a do futebol. Depois de três anos e meio no Logroño, recebi uma proposta de um time um pouco melhor, o Pick Szeged, da Hungria, que, curiosamente, é um dos principais rivais do clube em que jogo hoje. Fiquei três anos no Szeged e, na minha última temporada, conquistamos a Liga Húngara, título que o clube não ganhava havia dez anos. Em 2018, fui para o Barcelona, onde vivi a etapa mais vitoriosa da minha carreira até então. Fiquei cerca de sete anos e conquistei todos os títulos possíveis, mais de uma vez. Foi realmente o auge. Quando terminou minha passagem pelo Barcelona, recebi uma proposta do Veszprém, um time que quer ganhar tudo e está competindo por todos os títulos. O treinador já havia trabalhado comigo no Barcelona e me conhece bem. Agora estou na minha segunda temporada aqui na Hungria. Na seleção brasileira principal, estou desde 2010. São praticamente 16 anos. Fiquei fora de alguns campeonatos por lesão ou por não ter sido convocado, mas participei de cerca de 80% a 90% das competições nesse período.

Tribuna: Você disse que a Champions League tem mais valor do que o Mundial, mas, querendo ou não, é um grande título. Você disputou a final no Egito, em que o Veszprém venceu o Barcelona por 42 a 33. Além de ser o clube em que você jogou por sete temporadas e conquistou tantos títulos, o Barcelona venceu vocês na final do ano passado. Qual é a sensação de ser campeão em cima do ex-clube? Existe também um sentimento de revanche?

Thiagus: Tem, claro que tem um pouco. Até porque tenho amigos no Barcelona. E aconteceu uma coisa curiosa nesse Mundial de Clubes. Há três anos, o Veszprém enfrentou o Barcelona na semifinal, quando eu ainda jogava pelo Barcelona. O Veszprém ganhou da gente, foi para a final e acabou sendo campeão mundial. No ano passado, já pelo Veszprém, disputei a final contra o Barcelona. Perdemos na prorrogação, e eles foram campeões. Aí pensei: “Esse ano é a terceira vez. Vou jogar outra final. Será que alguma vez vou conseguir ganhar do Barcelona? Ganhar uma final?” Eu já tinha conquistado o Mundial de Clubes em 2018 e 2019, mas fazia alguns anos. Dessa vez, conseguimos ganhar. Claro que tenho meus amigos lá. No ano passado, eles me zoaram um pouco porque tinham ganhado da gente. Neste ano, consegui devolver um pouco as brincadeiras. Foi muito importante. Por mais que o pessoal diga que quer a Champions, o Mundial de Clubes é o título mais importante que o Veszprém tem até hoje. Então, temos que dar valor. E damos bastante valor. Comemoramos um pouco, porque não tivemos muito tempo. Logo começamos a jogar de novo, e a temporada ainda está só começando.

Tribuna: Você atua muito na defesa. Em diversas partidas, você entra para defender e, quando a equipe vai atacar, sai para a entrada de outro jogador. Como essas substituições são administradas?

Thiagus: No handebol, as substituições são ilimitadas. Existe um limite de jogadores em quadra, normalmente sete, mas você pode fazer quantas substituições quiser. Só precisa respeitar um espaço delimitado para a troca. Um jogador tem que sair por essa área para que outro possa entrar. A gente aproveita isso porque alguns jogadores são melhores na defesa, outros no ataque, e também é uma maneira de descansar. Acabamos tendo alguns especialistas. Antigamente, eu também atacava e fazia gols. Mas, com a idade, as mudanças e a exigência do esporte, acabei ficando mais na parte defensiva. O handebol é muito dinâmico e cansa bastante. Então, entro para defender e, quando recuperamos a posse de bola ou sofremos um gol, eu saio. Às vezes, saio e a equipe já faz um gol de contra-ataque. Não dá nem tempo de descansar e já preciso entrar de novo. É muito corrido.

Tribuna: O handebol é um esporte muito dinâmico, com muitos gols. Diferentemente do futebol, em que as defesas muitas vezes conseguem prevalecer sobre os ataques, no handebol o ataque costuma levar vantagem. Quais características são necessárias para um bom defensor?

Thiagus: É diferente. No handebol, fazer uma falta pode ser algo positivo para a defesa, porque você consegue parar o ataque. Também existe a advertência por jogo passivo. Depois que ela é sinalizada, o adversário precisa arremessar dentro do limite de passes permitido. Caso contrário, perde a posse de bola. Então, nosso objetivo é fazer com que o adversário não consiga arremessar ou, se arremessar, que seja de uma posição mais distante do gol, aumentando as chances de defesa dos nossos goleiros. É isso que tento fazer. Assisto a muitos jogos e vídeos e conheço vários dos jogadores que vou enfrentar. Faço toda uma preparação. Também depende da estratégia do técnico e daquilo que o goleiro considera melhor. Sabemos que o adversário vai acabar arremessando em algum momento, então precisamos avaliar qual jogador podemos deixar finalizar, em quais condições e de quais posições nossos goleiros teriam mais chances de fazer a defesa. Tudo isso faz parte da estratégia do jogo.

Tribuna: Seu time tem muita expressão na Hungria. São 30 títulos do Campeonato Nacional, incluindo o que você conquistou em junho, e 32 títulos da Copa, competição que você também venceu em abril, e você disse que o Mundial de Clubes é o título mais importante da história do Veszprém. O clube já chegou quatro vezes à final da Champions League, mas nunca conseguiu conquistar o título. A equipe começou bem a temporada, com vitórias sobre adversários como Partizan, da Sérvia, Füchse Berlin, da Alemanha, e Porto, de Portugal. Com esse início, acredita que finalmente pode ajudar o Veszprém a ganhar a Champions League?

Thiagus: Sim, sem dúvida. É o que falo para eles. Não é que meu sonho seja morar na Hungria, ainda mais em uma cidade de 50 mil habitantes. Vim para cá porque acredito no projeto, no técnico e que o time tem condições de ganhar. Essa é uma coisa que sempre priorizei: a parte competitiva, o que posso acrescentar e o que isso pode somar à minha carreira. Foi um dos motivos que me fizeram aceitar o convite do clube. É um time montado para ganhar a Champions League, e é isso que quero fazer. No ano passado, perdemos nas quartas de final, antes de chegar ao Final Four. Foi nos pênaltis, contra o Berlin, que já vencemos duas vezes nesta temporada. Foi muito difícil e decepcionante. Agora estamos tentando conquistar o máximo possível de pontos para chegar às quartas de final em uma posição melhor e, teoricamente, enfrentar um adversário mais fraco. No handebol, costumamos dizer que às vezes é mais difícil chegar ao Final Four do que ganhar a Champions League. Hoje existem oito ou dez equipes com elenco e capacidade para conquistar o título. É uma competição muito equilibrada. Acho que já disputei sete edições do Final Four e vi acontecer de tudo. São dois jogos em dois dias, e nem sempre o favorito ganha. Quando você chega lá, joga em um ginásio lotado, na Alemanha, com quase 20 mil pessoas. É muito legal, e pode acontecer de tudo. Então, nosso primeiro objetivo é chegar ao Final Four. Depois, vamos ver o que acontece.

Tribuna: Como está sendo essa experiência na Hungria, fora do handebol? Sua família está com você? Como foi a adaptação ao clima, à alimentação e ao dia a dia? Existem muitas diferenças em relação ao Brasil?

Thiagus: É bem diferente. Minha esposa veio comigo para a Hungria. E, pensando que eu vinha de Barcelona, uma cidade muito legal, agitada, chegar aqui foi uma mudança enorme. Aqui é praticamente uma roça. Não tem muita coisa para fazer, quase não vemos gente na rua, quase não tem semáforo. Então, é bem diferente. Mas, como temos muitos jogos, às vezes nem temos tempo para pensar nisso. Treinamos de manhã, almoçamos e convivemos bastante com os companheiros de equipe. Vamos à casa uns dos outros, almoçamos, jantamos e assistimos aos jogos juntos. Hoje mesmo tem jogo da Champions League à tarde, e vamos assistir juntos. Às vezes, dois ou três jogadores se reúnem na casa de alguém para assistir e comentar. Quando temos um pouco mais de tempo, vamos para Budapeste, que fica a uma hora e meia daqui. É uma cidade muito legal. Quanto à comida, é relativamente parecida com a do Brasil. Conseguimos encontrar mais ou menos as mesmas coisas. Mas o feijão é complicado. O angu também é difícil de achar, e a couve você pode esquecer. Não encontra aqui na Europa. Mas já estou acostumado. Faz 14 anos e meio que moro na Europa, então hoje consigo me adaptar bem a essas situações.

Tribuna: E quanto ao idioma? Vi que você concede entrevistas em inglês. Fora do ambiente do clube, a dificuldade com o húngaro atrapalha seu dia a dia? Você já conseguiu aprender alguma coisa?

Thiagus: É difícil. Sei xingar o pessoal em húngaro e sei contar. Também consigo falar o básico: oi, tchau, obrigado, tudo bem. Mas não sei muito mais do que isso. No time, temos quatro húngaros, além dos meninos da base. O restante é estrangeiro, inclusive o técnico. Então, no dia a dia, não convivemos tanto com húngaros que não falam inglês. Então, a gente acaba não usando. Acabamos nos perguntando para que vamos aprender húngaro. É um país de cerca de 10 milhões de habitantes, e não é como aprender francês, alemão ou italiano, que são idiomas mais utilizados em outros lugares. Fica um pouco mais complicado. O clube também não nos obriga a aprender. Na Polônia, por exemplo, existe um clube grande que exige que os jogadores aprendam polonês. Aqui não temos essa obrigação. Então, acabamos procrastinando e deixando o húngaro para lá.

Tribuna: Você jogou três temporadas pelo Szeged, que é rival do seu clube atual. Em uma entrevista ao nosso ex-repórter Vinícius Soares, no fim do ano passado, você também disse que os jogadores na Hungria talvez fossem melhores individualmente, enquanto os da Espanha se destacavam mais coletivamente. Queria saber como foi sua recepção no Veszprém e como os torcedores do Szeged reagiram à sua contratação pelo rival. Houve algum atrito ou provocação? E você confirmou essa percepção sobre as diferenças entre o handebol dos dois países?

Thiagus: Sim. Quando ficou oficial que eu iria para o Veszprém, ainda fui jogar com o Barcelona lá em Szeged. O pessoal já começou a me vaiar. Recebi algumas mensagens. Teve gente que disse que me amava até aquele momento, mas que agora eu era um traidor. Um torcedor chegou a me mandar uma foto de Judas. Só mandou a foto, sem escrever nada. Alguns torcedores com quem tenho mais contato disseram que era uma pena eu não ter voltado para lá. Eu respondi que são coisas da vida e que precisamos escolher o que é melhor para nós. Mas não passou disso. Houve algumas vaias, o que é normal, mas tudo dentro do respeito. Não tive nenhum atrito. Com os jogadores, menos ainda. Alguns continuam no Szeged desde a época em que joguei lá, e nunca tivemos problema. Todo mundo é profissional e entende como funciona. Depois do jogo, vamos tomar um café, conversar. Conhecemos as famílias uns dos outros. No ano passado, por exemplo, disputamos a Copa em outra cidade da Hungria e enfrentamos o Szeged na semifinal. Depois da partida, encontramos nossas famílias, que estavam juntas. Então, não existe problema nesse sentido. Sobre a diferença entre o handebol da Hungria e o da Espanha, a principal questão é o dinheiro. Aqui na Hungria existem dois times economicamente muito fortes, o Veszprém e o Szeged. Na Espanha, é o Barcelona. Mas, mesmo tirando essas equipes da comparação, os clubes húngaros ainda pagam melhor do que os espanhóis. Então, os jogadores vêm para cá porque ganham mais e gastam menos. Na Espanha, os salários não são tão altos. Se você tem mais dinheiro, consegue contratar jogadores de maior qualidade individual. Por outro lado, a Espanha é conhecida por ter um jogo coletivo e tático muito forte, um pouco parecido com o futebol. Costumamos dizer que, se você quer aprender a jogar handebol, deve ir para a Espanha. Se quer ganhar dinheiro, vai para a Alemanha, Hungria, Polônia ou França. É uma diferença que continua existindo ao longo do tempo. Nas competições europeias, vemos equipes espanholas com muito menos dinheiro, que pagam salários menores, competindo de igual para igual com clubes que têm o dobro ou até quatro vezes mais orçamento. É uma diferença bem perceptível.

Tribuna: E como é a pressão na Hungria? O handebol é um esporte muito popular?

Thiagus: Aqui a pressão é diária. Desde que cheguei, a primeira coisa que o pessoal fala é que temos que ganhar a Champions League. É sempre isso: temos que ganhar a Champions. E, quando perdemos, a torcida vaia. O handebol é muito popular aqui na Hungria. Nos jogos da Champions League, muita gente vai ao ginásio. Cabem cerca de 5.500 pessoas, e normalmente fica lotado. Nos jogos contra o Szeged também. Quando vamos a Budapeste, por exemplo, os húngaros nos reconhecem. Mais ou menos todo mundo sabe quem somos. Acredito que o handebol seja o esporte número um ou o segundo mais popular do país. O polo aquático também é muito forte, além do futebol, claro. Mas, em termos de reconhecimento europeu, o handebol e o polo aquático têm muita força. E a pressão é grande.

Tribuna: Falando desse reconhecimento e fazendo uma comparação com o futebol: por tudo o que você conquistou, por ser brasileiro e por ter vindo do Barcelona, você chegou ao Veszprém com status de estrela, como se fosse o Ronaldinho da equipe? Ou o elenco é mais equilibrado nesse sentido?

Thiagus: Não, é tudo bem equilibrado. Claro que alguns jogadores têm mais fama ou mais status do que outros. Mas, se você pensar, eu sou como um zagueiro. Ninguém costuma dar o título de estrela do time para um zagueiro. Quando cheguei, o pessoal já me respeitava. Principalmente porque sou o mais velho do time. Os jogadores me conhecem, me escutam bastante, e consigo ajudar tanto no funcionamento da equipe quanto na evolução dos companheiros. Tenho um status que conquistei ao longo dos anos, mas isso existe mais na relação com os jogadores do que com os torcedores ou outras pessoas. Uma coisa muito legal aqui, que nem sempre acontece nos clubes, é que temos um grupo muito unido. São quatro egípcios, dois croatas, dois sérvios, acho que três franceses, um sueco, um dinamarquês, eu, que sou brasileiro, e os húngaros. Devo ter esquecido alguma nacionalidade. Imagine como é complicado fazer todo mundo entrar na mesma dinâmica, ter o mesmo pensamento. Mas conseguimos manter isso. Os mais velhos ajudam, porque todos temos o mesmo objetivo. Isso facilita bastante. Claro que existem algumas hierarquias dentro do grupo, e estou entre os jogadores com mais influência, pela idade e pela experiência que tenho em relação à maioria dos companheiros.

Tribuna: Como foi sua experiência no Barcelona? O clube tem uma força na Espanha parecida com a que possui no futebol? Você chegou a ter contato com jogadores como Messi e Neymar ou as modalidades funcionam de maneira separada? 

Thiagus: Sempre falo para o pessoal que jogar handebol é uma coisa, mas jogar handebol no Barcelona é outro esporte. É totalmente diferente pela estrutura que o clube oferece, pela parte médica, pelas viagens e por toda a segurança que proporciona ao atleta. Às vezes, o jogador nem valoriza tanto isso. Mas, se você se machuca, tem o melhor suporte médico disponível. Precisei fazer uma artroscopia no cotovelo, um procedimento relativamente simples, e quem me operou foi um médico que atendia os pilotos da MotoGP. Toda essa estrutura é algo que você praticamente não consegue comparar com a de outros clubes de handebol. Tivemos contato com alguns jogadores do futebol em determinadas ocasiões. Houve uma festa do clube, por exemplo, em que encontrei o Raphinha, há uns dois ou três anos. Treinávamos no mesmo centro de treinamento do futebol. Mas existe o Barcelona como clube e, dentro dele, o futebol é uma bolha muito grande. É difícil ter contato porque todos os dias há pessoas na porta esperando os jogadores do futebol. Você chega para trabalhar, sai do trabalho, e os torcedores continuam lá. Por isso, mesmo dentro do clube, os jogadores de futebol ficam em uma área mais reservada. Nunca tive tanto contato com eles. Mas alguns companheiros tinham mais proximidade. Um português que jogava comigo conhecia o João Félix e o João Cancelo, quando eles estavam lá. O croata também tinha contato com o Rakitić. Os jogadores de países menores às vezes têm mais facilidade para estabelecer essas relações. Eu tinha mais contato com o pessoal do futsal, porque treinávamos praticamente no mesmo espaço, com uma quadra em cima e outra embaixo.

Tribuna: E o Léo Santana, que também é de Juiz de Fora e jogou futsal no Barcelona? Vocês chegaram a conviver por lá?

Thiagus: Sim. A gente foi para lá praticamente no mesmo período. Ele ficou mais uns dois anos. Nós nos víamos algumas vezes, mas quase não dava tempo. Por causa dos horários, dos jogos e das viagens, era tudo muito corrido. Às vezes, um viajava, depois o outro. Mas conseguimos nos encontrar algumas vezes durante os anos em que estivemos lá. Depois, teve uma ocasião em que estávamos em Juiz de Fora e fomos a um pagode. Acabamos nos encontrando lá. Aí eu falei: “A gente se encontra em Juiz de Fora, mas não se encontra em Barcelona.”

Tribuna: Você também fez parte da campanha histórica do Brasil, que chegou às quartas de final do Mundial no ano passado. Na entrevista ao Vinícius Soares, você comentou que, para o handebol conquistar mais espaço entre os brasileiros, seria necessário um investimento maior da Confederação, principalmente nas categorias de base, para garantir a renovação da seleção. Você está com 37 anos, continua jogando em alto nível e tem a expectativa de participar do próximo Mundial, em janeiro, na Alemanha. Já começa a projetar o fim da carreira? E percebe alguma melhoria nos investimentos que havia cobrado anteriormente?

Thiagus: Sobre os investimentos, não ouviram nada, porque a situação ainda está muito difícil. A sorte é que existem alguns clubes que brigam, fazem bons trabalhos e continuam formando e desenvolvendo jogadores. Também temos uma porta muito mais aberta para os brasileiros jogarem na Europa. Hoje temos muito mais jogadores atuando fora do país do que antes. Lembro que, quando saí do Brasil, havia apenas quatro ou cinco brasileiros jogando no exterior. Depois, houve uma crise na Espanha, os clubes ficaram com menos dinheiro e começaram a contratar mais brasileiros, argentinos e outros jogadores que custavam menos, mas conseguiam dar conta do recado. Sobre a minha carreira, planejo jogar até os 40 anos. Ou seja, esta temporada e mais duas, até 2029. Mas já estou pensando no futuro e tenho algumas portas abertas. Terminei a faculdade de Administração há bastante tempo. Há uns cinco anos, também fiz uma pós-graduação em Gestão Esportiva e concluí o curso de treinador na Espanha. Com essa formação, posso treinar equipes de handebol de qualquer nível na Espanha. Agora estou pensando em obter também a licença europeia, que me permitiria trabalhar como treinador em qualquer clube da Europa. Não é necessariamente o que quero fazer, mas estou abrindo portas, porque não sei o que pode acontecer no futuro próximo. Ter o diploma e a licença não custa tanto e pode ser importante mais à frente. É uma das possibilidades que estou considerando.

Tribuna: Você já tem alguma coisa em vista para quando se aposentar? Se não pretende ser treinador, gostaria de continuar trabalhando no esporte? E, sobre a seleção brasileira, ainda tem o sonho de conquistar um título de grande expressão pelo Brasil? 

Thiagus: Para começar, quando acabar minha carreira, ainda não tenho nada planejado. Estou esperando para ver o que vai acontecer. Tenho alguns projetos e estou abrindo algumas portas, mas não tenho nada definido. Eu não gostaria de ser treinador. Preferia ajudar na parte de gestão do esporte. Acho que, com tudo o que vivi e estudei, poderia contribuir para melhorar principalmente a parte estrutural, que considero a mais importante. É a parte que ninguém vê. Se você consegue oferecer uma boa estrutura, vai colher os frutos mais à frente. Acho isso fundamental. Sobre a seleção, claro que o sonho é disputar uma Olimpíada e conquistar uma medalha olímpica. Sempre falo com o pessoal que, no handebol, é muito mais fácil ganhar uma medalha olímpica do que uma medalha no Mundial. No Mundial, você precisa vencer cinco ou seis equipes europeias para conseguir chegar a uma semifinal. É muito complicado. Nós podemos ganhar. Tanto que, no último Mundial, vencemos quatro ou cinco seleções europeias. Mas é difícil. Na Olimpíada, são seis seleções em cada grupo, e quatro avançam para as quartas de final. Se você consegue se classificar e vence as quartas, já está na semifinal e brigando por uma medalha. Então, em teoria, é muito mais fácil conquistar uma medalha olímpica do que uma medalha mundial. Esse seria um dos meus sonhos. Mas primeiro precisamos conseguir a classificação para a Olimpíada. Depois, podemos pensar no que vem pela frente. Antes disso, ainda temos o Mundial.

Tribuna: Você acompanha a situação do handebol em Juiz de Fora? No feminino, temos a Barbarah Bella, que estava no Pinheiros, mas, no masculino, não temos uma equipe profissional disputando competições de maior expressão. Como você avalia esse cenário e o que poderia ser feito para oferecer mais oportunidades aos jovens que querem seguir seus passos no handebol?

Thiagus: Está bem triste a situação do handebol em Juiz de Fora. Converso com o pessoal sobre isso. Tanto que, na última vez em que fui a Juiz de Fora, estive na Secretaria de Esporte e conversei com as pessoas de lá. Elas também disseram que a situação do handebol estava muito ruim. Tenho conversado com alguns amigos para tentar mudar isso. No feminino, existe um projeto muito legal do professor Francisco Netto. Mas o masculino está bem devagar. Estamos conversando para ver se conseguimos montar alguma coisa. Existem equipes nas escolas, existem jovens jogando, mas, quando eles terminam a escola, não têm onde continuar. Não têm para onde ir. Então, todo o trabalho acaba ficando pelo caminho. O menino não tem uma referência de qual é o próximo passo, de onde deve jogar ou como pode continuar se desenvolvendo. Tenho esse projeto e essa vontade de ajudar, mas a distância atrapalha bastante. Estou avaliando algumas propostas e possibilidades para ver se conseguimos montar um time em Juiz de Fora. Acredito que a cidade tem muito potencial em todos os esportes, inclusive no handebol. Claro que, como sou do handebol, vou puxar a sardinha para o meu lado. Acredito que podemos manter uma equipe. Não precisa começar sendo extremamente competitiva, mas, pelo menos, disputar os campeonatos locais, o Campeonato Mineiro e fazer um bom papel. O importante é dar continuidade ao trabalho e seguir incentivando o handebol na cidade.

Tribuna: A motivação para continuar seguindo a rotina de atleta depois de tantos anos vem da possibilidade de conquistar novos títulos, especialmente pela seleção brasileira, ou existe algo além disso que faz você continuar competindo em alto nível?

Thiagus: Outro dia eu estava pensando nisso. Com a idade, você já não consegue se recuperar tão facilmente como antes. Depois de um jogo, por exemplo, o corpo sente muito mais. Ontem viajamos seis horas. Hoje, já preciso fazer exercícios de mobilidade e outras atividades para conseguir me recuperar. Tudo isso custa mais. Mas minha principal motivação é que gosto do que faço. Gosto de jogar handebol e gosto de competir. Sou viciado em competir. Enquanto achar que tenho nível para jogar e continuar tendo essa vontade de competir e ganhar, é isso que vai me motivar. Por mais que os dias depois dos jogos estejam ficando mais difíceis, porque agora dói tudo. Uma dorzinha que antes desaparecia em dois dias hoje pode demorar uma ou duas semanas para passar. Isso é algo que consigo perceber claramente. Mas minha motivação não é a medalha olímpica, porque sei que é uma conquista muito difícil. Minha motivação é acordar, jogar, melhorar e tentar ganhar o jogo de amanhã. O esporte tem uma coisa absurda: ele não tem memória, ou não dá tempo de ter. Ganhamos o Mundial na quinta-feira passada e, na quarta-feira seguinte, já estávamos jogando a Champions League como se nada tivesse acontecido. A vida volta ao normal muito rapidamente, tanto quando você ganha quanto quando perde. Às vezes, nem temos tempo de pensar no que aconteceu. Só conseguimos parar para refletir em dezembro, quando vamos para a seleção, ou em junho, quando termina a temporada. Aí você olha para trás e pensa no que aconteceu. Fora isso, não dá tempo. O que me motiva é jogar. Você disputa a Champions League, tem quatro ou cinco mil pessoas assistindo, gritando a seu favor ou contra você. Enfrenta os melhores jogadores do mundo e continua ali competindo. Hoje, aos 37 anos, conseguir manter esse nível é algo complicado, mas também muito motivador. É o dia a dia, são os jogos. Treinar já custa um pouco mais, o corpo dói mais, aquecer é mais difícil. Mas, quando chega a hora do jogo, que é a parte gostosa, continua sendo muito legal.

Tribuna: Quem foi o jogador mais difícil que você já marcou em toda a sua carreira?

Thiagus: Nikola Karabatić. Para mim, ele foi o melhor jogador de todos os tempos. O mais completo. Eu conseguia pará-lo em alguns jogos, mas não em todos. Ele tinha uma quantidade absurda de recursos e era fisicamente muito bom. Agora ele já se aposentou, faz uns dois anos, mas continua muito forte. Encontrei com ele há uns dois ou três meses e até brinquei: “Você não vai emagrecer? Não vai ficar gordo? Não vai mudar? Vai continuar forte assim? Ainda dá para continuar jogando.” Sem dúvida, foi o adversário mais difícil que enfrentei. Era um jogador muito físico, forte e inteligente. Claro que, contra outros atletas, você pode ter dias melhores e piores. Mas, contra ele, acho que perdi muito mais do que ganhei. Se enfrentasse o Karabatić dez vezes, acho que conseguiria levar vantagem em uma, enquanto ele ganharia as outras nove. Estou falando do confronto individual, porque, coletivamente, o resultado depende do time. Mas, no confronto individual, ele levava vantagem muito mais vezes do que eu. Com certeza, foi o jogador mais difícil que já marquei.

Tribuna: O Karabatić, que é francês e também jogou na Espanha, pelo Barcelona. Thiagus, é muito bom receber você aqui e saber que também tem projetos para incentivar o handebol em Juiz de Fora. Vamos continuar acompanhando sua carreira, porque você é um orgulho para a nossa cidade.

Thiagus: Eu que agradeço. Não conhecia o podcast, mas agora vou procurar e começar a seguir. Como viajo bastante, consigo aproveitar esse tempo para ouvir os episódios que ficam disponíveis e acompanhar tudo o que acontece no esporte da nossa cidade. Agradeço pela oportunidade. Sou de Juiz de Fora e já faz mais tempo que moro fora da cidade do que morei aí. Mas, sempre que posso, volto para ficar com a minha família e encontrar meus amigos. Afinal, é minha cidade natal e é onde gostaria de morar no futuro. Mas minha esposa não quer. Enfim, quero ser feliz.