
A ponteira juiz-forana Lara Martins, de 21 anos, e o técnico volta-redondense Fabrício Amaral, ambos do JF Vôlei, foram os entrevistados desta quarta-feira (12) do programa Dá Jogo, transmitido ao vivo no YouTube da Tribuna de Minas.
Durante a conversa, a dupla contou as respectivas trajetórias no esporte e no projeto, além de falarem sobre a participação inédita na Superliga C feminina, pela primeira vez na história do JF Vôlei, e a perspectiva para projetos futuros.
Confira a entrevista na íntegra:
Tribuna de Minas: Primeiro, gostaria que falassem um pouquinho da história de vocês no esporte, no voleibol, da trajetória até chegarem ao JF Vôlei.
Lara Martins: Começa na história bem básica de toda menina alta. Todo mundo, já desde novinha, falava: “essa vai jogar vôlei”. E sempre me apoiaram muito, principalmente minha família – meu pai e minha mãe principalmente. Sempre me incentivaram, desde o começo. Antes mesmo de começar a jogar vôlei.
Quando eu fiz 11 anos, mais ou menos, já estava mais na idade de começar a praticar o esporte e tive a oportunidade de fazer parte de um dos primeiros núcleos do JF Vôlei na base. Batia bola na parede da escola até que uma professora de Educação Física me viu, a Marina Esteves, e me indicou para um clube. Mas eu já fazia parte do JF Vôlei, um dos primeiros núcleos na Escola Municipal Tancredo Neves, perto da UFJF, então já tinha esse contato com o esporte, foi muito importante para mim começar com esse incentivo, era muito acessível para a galera da comunidade. Era perto da minha casa, era favorável praticar um esporte, era um projeto mais sério, então foi uma boa oportunidade para eu começar.
Gostei, comprei a ideia do vôlei, minha família também comprou, me incentivou, e aí fui indo, passei por alguns clubes aqui em Juiz de Fora depois disso: pelo Sport e pelo Bom Pastor, no qual tive a primeira oportunidade de jogar uma Taça Paraná, que era um campeonato de alto nível, um dos maiores de base da América Latina. Então, eu me espelhei muito naquelas meninas que eu via jogando, na época eu tinha uns 13 anos e estava jogando sub-18, então eu me espelhava muito nelas. Falava: “eu quero ser igual a elas, quero buscar isso”. E fui buscar.
Saí cedo também, no final de 2019, com 13 anos, tive a oportunidade de fazer uma peneira no Praia Clube. Fui para Uberlândia, sozinha, viajei umas 15 horas, fiz minha primeira peneira e, para a surpresa até dos meus pais, eu passei. Eles não esperavam, mas ficaram muito felizes e já saíram vendendo tudo para mudarmos pra Uberlândia. A gente foi, fiquei dois anos na base do Praia Clube, joguei CBI, a gente conquistou o segundo lugar na classificatória, com a vaga para a última fase, e depois fiz a peneira no Sada Cruzeiro.
Na época ainda tinha um time feminino, hoje em dia não tem mais. Com 16 anos, foi a primeira experiência realmente longe da minha família, morando em Belo Horizonte. Foi tudo muito novo, mas eu tinha muita vontade, acho que eu não tinha muita noção na época de que eu estava em outra cidade, longe da minha família. Eu queria muito vôlei, então eu só pensava em vôlei, em treinar. Então eu fui, encarei essa experiência e fui amadurecendo também, porque a gente precisa, querendo ou não. Às vezes não é só sobre estar dentro da quadra, mas o extraquadra também importa muito, ainda mais nessa idade, nessa fase de amadurecimento. Foi muito importante para a minha vida. Coisa que a gente leva fora do esporte, para a vida toda.
Depois de passar pelo Sada, terminei o sub-18, fiz a peneira em Santos, passei também, joguei em São Paulo dois anos: uma temporada em Santos e outra em Vinhedo, no interior, perto de Campinas. Depois, voltei para Juiz de Fora. Estava procurando alguns times já para o próximo ano, fui chamada para fazer um teste pra tentar jogar a Superliga B, em Brasília. Meu pai ficou meio “assim”: “será que vai?” Porque é um campeonato adulto de um nível muito longe do que eu estava acostumada, meninas muito mais experientes, muito mais velhas. Mas o “não” eu já tinha, então era encarar mais um desafio.
Eu fui para Brasília no final de 2024 e na primeira semana o técnico já me avisou que eu ia ficar, que eu ia jogar a temporada com eles. Já fui e fiquei direto, tive a oportunidade de jogar a Superliga B, me preparar. Tive lesão também no meio do caminho, um estiramento no tornozelo. Foi bem difícil para mim, mas superei, terminei a temporada como uma das titulares da equipe, mesmo mais nova ainda e vindo da base. Tenho muita gratidão por essa experiência, por mais que tenha sido um período difícil, me fez amadurecer muito e ter mais certeza ainda de que eu estava no caminho certo, porque não é toda menina da base que vai comprar a ideia de jogar uma Superliga.
Eu continuei, busquei times que eu pudesse ter o estudo alinhado também, porque já estava na hora de ter talvez um plano B além do vôlei. Consegui a equipe de Foz do Iguaçu, que joguei o ano passado, que também tinha o sub-21 – meu último no ano passado – e o adulto, que foi a minha segunda Superliga. Foi uma experiência também meio louca, porque a gente morava em um alojamento com muitas meninas. Quando você lida com outras culturas, com outras pessoas, é sempre desafiador, e me fez amadurecer e crescer muito. Sou muito grata por isso. Tive o esporte alinhado com os estudos, então também tive a oportunidade de jogar o campeonato universitário brasileiro, muitas experiências.
Voltando para casa no final do ano, estava mais focado nos estudos mas não tinha parado de treinar. Estava em Juiz de Fora, não tão ativa quanto antes, nos clubes, mas tive a proposta do Maurício (Bara). Ele me chamou num dia e disse: “Lara, você topa? A gente quer jogar”. Eu falei: “Estou dentro, é claro que eu quero”. Depois de vestir tantas camisas, finalmente representar a minha cidade, não sei nem explicar a sensação, de verdade. É muita alegria, muita felicidade mesmo. Comprei essa ideia e me dediquei ao máximo, dei o meu melhor, desde que fiquei sabendo, que realmente ia dar certo, eu ia fazer parte. Falei com o meu pai: “vou largar tudo, vou investir agora, vou voltar”.
Fabrício Amaral: Eu sou de Volta Redonda (RJ) e comecei no vôlei já faz um tempinho: 32 anos desde o meu primeiro contato com o esporte. Eu tinha 10 anos e comecei a treinar em um clube da cidade. Desde então, me apaixonei, entendi que era isso que eu queria para a minha vida, seja como atleta ou não.
As coisas foram se desenhando, disputei a base, toda feita em Volta Redonda, disputando campeonatos estaduais, alguns brasileiros até no adulto. Mas sempre tive muito em mente que eu queria trabalhar com o voleibol, e não como atleta. Então, entrei na faculdade de Educação Física com 17 anos, em 2001, em 2005 eu me formei e já saí empregado nesse clube que eu fiz a minha base, que é o Clube dos Funcionários. Saí já como técnico da base feminina. De lá pra cá, já se vão 25 anos que eu trabalho com a base feminina.
Desde então, tive outros trabalhos, com base masculina, com adulto masculino, com adulto feminino, mas nunca deixei a base feminina. Em Volta Redonda, o projeto do clube foi crescendo com o tempo. Quando gente começou era muito regionalizada, só na região sul-fluminense. Com o tempo, começamos a disputar competições a nível estadual, depois a nível nacional, nesse meio tempo vieram equipes adultos. De 2005 até 2010, disputamos muitos torneios amadores adultos na cidade, muitas das vezes utilizando a base, como foi feito aqui na Superliga C.
Em 2012, recebi o convite para comandar um time adulto profissional feminino, do Volta Redonda Futebol Clube, pelo qual iríamos disputar a Superliga B – que na época era a Liga Nacional. Disputamos o estadual, jogos abertos do interior, ficamos em primeiro, fomos para os jogos abertos brasileiros, ficamos em segundo. Foi, na verdade, o meu primeiro contato com o voleibol profissional adulto.
No ano seguinte, Volta Redonda já vinha com alguns anos de equipe profissional masculina, que disputava a Superliga A na época, e inclusive chegou a fazer vários jogos contra Juiz de Fora, a gente já acompanhava bastante. No ano seguinte, recebi o convite, no meio da temporada já para o final, para assumir a equipe masculina de Volta Redonda. Eles fizeram a troca na parte final da Superliga, e eu fiquei apenas nos últimos dois jogos da Superliga A como treinador da equipe.
Na temporada seguinte, seria o treinador. Fizemos toda a pré-temporada, mas por questões políticas, há duas semanas de começar o torneio, a equipe acabou. Foi uma pena, porque eu já vinha há cinco, seis temporadas com uma equipe na cidade. Mas como eu disse, nunca larguei a base, mesmo com esse trabalho das equipes profissionais. Quando acabou, a gente continuou no Clube dos Funcionários, que sou muito grato. Fui sair no final de 2023, fiquei lá 22 anos. Fomos crescendo, disputando com a base Taça Paraná, Campeonatos Brasileiros Interclubes, então o projeto ficou muito legal, cresceu bastante, virou referência na região.
Em 2024, algumas coisas mudaram. Parti para um novo desafio. Conversando com o Maurício, vim para Juiz de Fora. A ideia inicial era de reestruturar a base feminina – a masculina já vinha com uma certa tradição. Foi muito legal, um desafio novo e que, de verdade, me fez muito bem, me motivou mais, voltou até aquele gás de quando comecei lá em 2005. Acho que às vezes essas mudanças na nossa carreira são importantes.
Em 2024, quando vim, já existia um projeto, mas a ideia de fato era o crescimento da base feminina. De lá para cá, estou muito feliz com que a gente vem construindo junto: a diretoria, as atletas, os pais, que são peça importante nesse processo. Começamos disputando competições na cidade, e já no primeiro ano, disputamos, em uma categoria, campeonato estadual.
Em 2025, passamos a disputar mais competições fora daqui, estadual em mais categorias. Com esse crescimento, a nossa captação de atletas cresceu muito, fortalecendo a base, aumentando as categorias e o número de atletas. Em 2026, foi uma virada de chave. Subimos alguns degraus. Disputamos campeonato brasileiro, interclubes em duas categorias, os estaduais, campeonato metropolitano, continuamos com os municipais, até a Superliga C.
Lá no início do ano, no planejamento, o Maurício Bara, a quem sou muito grato e admiro demais, falou: “por que não disputar uma Superliga C, dar mais um passo?” Não é pensando muito em resultado esportivo, mas tudo que tem para trazer de positivo para o nosso projeto. Comprei a ideia dele, mesmo com um grupo muito novo, porque a nossa base hoje é só até o sub-17. Mas foi muito legal, muito positivo.
Esqueci: nesse meio tempo, tive passagem por Seleção Carioca de Base, ficamos em terceiro lugar no Campeonato Brasileiro sub-16, como assistente técnico, e nessa trajetória, em 2024 e 2025, também fui assistente, do André, no JF Vôlei masculino, naquela campanha histórica de Superliga B, em que nós tivemos o acesso para Superliga A, e o ano passado também, estava na comissão técnica. Apesar do resultado não ter sido o esperado, o esporte é isso: desafio. A gente está batalhando bastante para conseguir colocar a cidade sempre no mais alto possível.
Tribuna de Minas: Seria legal contar também da experiência na Superliga C, já que é a primeira vez que o JF Vôlei participa – tanto da perspectiva como equipe, no geral, como da atleta, uma das mais experientes, sendo tão nova, e de um treinador que pega desde o início da base e vê as atletas jogando no profissional, com média de idade era de menos de 17 anos.
Fabrício: A gente tinha três atletas acima de 18 anos: a Lara, a nossa ponteira, a Ingrid, levantadora, que também é daqui de Juiz de Fora, e a Malu, que veio da parceria com o Mackenzie. É uma menina que já tinha rodagem dentro do vôlei, com passagem na Seleção Brasileira de Base, já treinando com a equipe principal do Mackenzie, que hoje disputa a Superliga A. Fala da história da Lara, que tem 21 anos, ninguém acredita.
Falando da Superliga C, foi muito legal e, de fato, pode até ter parecido loucura entrar com uma equipe tão nova numa competição profissional adulta, mas a gente sabia o que queria, qual era o nosso objetivo com isso. Antes até de falar um pouco da experiência, uma coisa que fica e que eu vejo que foi um dos pontos mais positivos da nossa participação é que a gente pretende dar sequência a isso.
A Lara teve que sair muito nova da cidade, porque não tinha uma perspectiva para seguir dentro do vôlei aqui. Com uma equipe profissional, as jovens atletas passam a ter perspectiva para continuar dentro da própria cidade e batalhar dentro do esporte. Uma coisa importantíssima que ela falou: tem que estar muito ligado ao estudo, que tem que fazer parte da vida do atleta – até porque é muito difícil, então é importante que continuem andando lado a lado.
Mas a Superliga, com um time tão jovem, conversamos muito com nossas atletas. Nos preparamos e quando a gente entra em uma competição, a gente quer vencer, o esporte de alto rendimento é muito competitivo. Mas também temos que ser conscientes a ponto de saber qual é o nosso principal objetivo: dar rodagem e experiência a essas meninas e que elas possam trazer isso para as categorias delas.
Vamos disputar daqui a duas semanas o Campeonato Brasileiro sub-16. Essas atletas que estavam lá, que participaram do processo, têm que trazer algo positivo para a categoria. Nossa equipe foi composta pela Lara e pela Ingrid, por seis meninas que vieram da base do Mackenzie e sete da nossa. Só que participaram do processo de treinamento15 atletas da nossa base, treinando junto.
Falei para elas: “muito mais importante do que estar na Superliga C é participar do processo”. Porque é o dia a dia, elas terem a experiência de uma equipe de alto rendimento, treinar dois períodos, fazer treino de academia, a importância do descanso na vida de um atleta. Quando você está na base, treina quatro vezes na semana, está tranquilo, mas quando vai para um treinamento mais puxado, uma hora o corpo vai pedir o descanso, o sono é importante. Elas de fato mudaram um pouco a mentalidade, e as partes técnica e tática estão no nível mais alto.
As meninas do Mackenzie que vieram foram fantásticas, que agregaram muito nesse processo, mesmo com a pouca idade. Algumas delas têm passagem em Seleção Brasileira. A Marininha, líbero que veio do Mackenzie, é de 2010, tem 16 anos – a mesma das nossas, mas já com a passagem pela seleção em treinamentos. Então tira o que você pode tirar dela para trazer para cá, era uma menina com uma atitude diferenciada. É muito legal estar no dia a dia com atletas assim, que só tem a somar para a nossa base.
A nossa campanha foi muito legal, porque a gente jogou, disputou, competiu, tivemos uma vitória de virada, poderíamos ter tido outra, que foi no dia seguinte. Eu acho que esse jogo pesou um pouco, porque vínhamos de um com a carga emocional e física tão grande, e ter que virar uma chave em menos de 24 horas complica. Mesmo assim, ainda fizemos um jogo de 3 a 2. Não desmerecendo a outra equipe, mas a gente tinha qualidade para ter essa segunda vitória.
Talvez o jogo que a gente ficou um pouco mais abaixo tenha sido a estreia. Por ser um time muito jovem, sentimos um pouco, enfrentamos logo de cara a equipe da casa, que é uma equipe muito boa, do Paineiras, e elas já tinham feito a estreia um dia antes. Toda estreia é assim, até em Copa do Mundo. Uma equipe com média de idade de menos de 17 anos não vai sentir uma estreia na competição profissional? Mesmo assim fizemos um terceiro set em que perdemos no detalhe, um 25/23.
O último jogo, que foi contra a equipe campeã, que terminou invicta na competição, a gente disputou, competiu muito bem. Queria a vitória, mas saímos com a sensação de que fizemos o nosso melhor, e isso é muito importante. Quando você sai da quadra pensando que poderia ter feito algo, você carrega isso. Esporte é isso, a outra equipe foi superior por muitos motivos, então a gente sai mais leve. Foi uma competição muito positiva, saímos muito felizes com tudo, com toda a trajetória, com toda a preparação, e espero que a gente tenha sequência a todo esse projeto, é um desejo.
Lara: O que mais me preocupava em relação a essa Superliga seria realmente a comunicação, a convivência com as meninas mais novas, até porque, passando por duas equipes adultas, teve essa comparação: como vou reagir, como vai ser. É muita responsabilidade, mas, ao mesmo tempo, eu olhava pra elas e lembrava que, na idade delas, eu não tinha noção da responsabilidade que era. Agora eu tenho, com 21 anos.
Fiquei muito feliz por ter sido escolhida para ser a capitã, poder pegar a responsabilidade para mim, assumir esse peso e deixar mais leve para elas. Não tive nenhum problema em relação a isso, tentei encarar da melhor forma, me divertir com elas, mais do que realmente cobrar alguma coisa. Essa cobrança extrema, ela realmente foi associada às outras equipes. Aqui já era outra história, outra chave. Foi uma outra postura e foi o que tinha que ser, como o Fabrício falou, a gente saiu de lá com, mesmo, infelizmente, não com a vitória que a gente esperava, com a sensação de dever cumprido.
O que precisava ser feito, foi feito. O que precisava para mim, naquele momento, assumir a responsabilidade e encarar de forma mais leve, para poder trazer isso para elas, também foi cumprido.
Fora da quadra, tivemos muitos momentos em que eu ficava: “gente, como assim a gente está em uma Superliga?” Elas realmente não tinham tanta noção do que era, mas eu tenho certeza que elas vão olhar para trás e falar: “nossa, como foi importante”, da mesma forma que eu olho hoje e vejo como foi importante. Elas vão ser gratas por terem vivido esse momento.
Agradecer também, mais uma vez, ao Maurício, pela confiança, e ao Fabrício também. A gente já tinha se encontrado antes, jogando contra aqui, ele já me conhecia um pouco, me acompanhava e confiou em mim como capitã. Falei: “se o Fabrício confia em mim, então sou eu mesmo”.
Tribuna de Minas: Em relação ao momento do projeto, temos no esporte como um geral, uma cultura resultadista, entrou em quadra, tem que ganhar a qualquer custo. Conhecendo a história de vocês ainda mais agora, a gente vê o quão importante é estruturar um projeto, uma caminhada, para que depois os resultados apareçam – e eu acho que esse exemplo que vocês trouxeram da história de vocês mesmos, do tempo que você está no JF Vôlei, da sua história de vida no esporte, mostra o quão importante é esse projeto, ter essa história do projeto como é o JF Vôlei, que começou com os núcleos ali, começou a estruturar a base, reestruturou, já pensando em uma possibilidade, e certamente todo mundo falaria que não é o momento ainda de uma Superliga C, se o projeto não estivesse consolidado a esse ponto.
É uma coisa que falta muito aqui em Juiz de Fora. Levando pra outras modalidades, nós já tivemos clubes no futebol, no Campeonato Mineiro, Série B do Brasileiro; no handebol, na Liga Nacional de Handebol; na Liga Nacional de Futsal; que duraram uma temporada só, e depois voltaram e acabaram. O JF Vôlei, não.
A Lara é um exemplo de que os trabalhos nas escolas, nos núcleos, são trabalhos que dão certo, que te ajudam a seguir seu sonho, caminhando com o estudo. É importante que as pessoas entendam que não é só ganhar os jogos. Vocês mais que ninguém querem ganhar. O importante é estar lá e evoluir.
Fabrício: Uma coisa que me impressionou muito foi a grandiosidade do JF Vôlei na cidade. Não tinha essa dimensão. Falamos do crescimento da base do feminino nesses últimos anos desde que eu cheguei, mas sou uma peça dessa engrenagem. O projeto é tão grande e, com isso, nosso potencia de captação aumentou demais, o que fez a base crescer.
Hoje, o JF Vôlei tem núcleos de lei estadual e federal, além de escolas particulares. São pelo menos 11 núcleos espalhados na cidade. Estamos movimentando o voleibol, e isso dá uma sustentabilidade. Mais gente jogando, maior a captação. Conseguimos formar uma base mais forte.
O principal, na minha visão, é o legado que vamos deixar. Já vimos muitas equipes com o pensamento de já partir lá de cima. Disputa um ano, uma competição de nível nacional de alto rendimento, com investimento; no segundo ano, o investimento cai um pouco; no terceiro ano, acaba o projeto. Qual o legado deixado?
Com um trabalho que começa da base, está sustentando algo que não depende tanto de uma equipe profissional adulta e de um financeiro tão forte. Entramos numa competição com parte da nossa base. Claro, a parte financeira é importante para o resultado. Mas com a base forte, isso ajuda bastante.
Vejo que esse é nosso pensamento, de crescer um passo de cada vez, sem dar um maior que nossas pernas. Somos muito conscientes em relação a isso. A importância é essa, além do que movimentamos dentro de Juiz de Fora. Estamos muito conhecidos. Não simplesmente nos aventuramos, tudo está sendo planejado de forma a crescer.
É importante para a cidade, para o esporte e para as pessoas envolvidas: próximo de mil pessoas envolvidas ao todo no projeto. Temos que valorizar. Queremos vencer, mas não a qualquer custo. Conversando com o Maurício, falamos que são poucos os projetos de vôlei no país que atingem o algo grande como o JF Vôlei. As próprias equipes de Superliga A. A cidade pode ficar orgulhosa.
Lara: O mais importante é valorizar a acessibilidade do projeto. Por mais que não saiam jogadores profissionais, saem pessoas do bem. O esporte traz valores importantes: disciplina, respeito.
Quanto mais crianças o projeto atingir, em todos os núcleos, melhor para a sociedade. Criar bons cidadãos sem pensar somente no retorno financeiro ou no esporte, pessoas que escolhem praticar em vez de fazer coisas erradas.
Tribuna de Minas: Lara, você ter começado mais jovem e hoje trazer experiência para as mais jovens te traz uma maturidade maior, né?
Lara: Com certeza. É outro olhar que tenho depois de passar por tantas coisas. É o que realmente importa: o respeito, as amizades que carregamos. Poder proporcionar isso para as outras meninas. Saber que elas olham e têm a gente como espelho. Trocar uma ideia e saber que nem tudo é sobre o vôlei, mas ele pode te levar a alcançar aquilo.
Eugênio Gomes (espectador): Está nos planos da equipe feminina participar do Campeonato Mineiro nesta temporada?
Fabrício: Mais para frente acredito que possa estar, mas nesta, não. Até porque o Mineiro hoje conta com três equipes que são de alto nível no Brasil. Competitividade e investimento de outro nível.
Temos que ir em um passo de cada vez, seria um desafio que ainda não está no momento. Quem sabe, lá na frente? É um desejo entrar nesse cenário.
Tribuna de Minas: As leis de incentivo não permitem pagar salário de atletas diretamente. Essa é uma dificuldade financeira do JF Vôlei, falando até do masculino. É mais para a parte estrutural do projeto, o que mostra a diferença para as próprias equipes do estado. O Praia Clube, por exemplo.
Fabrício: Exatamente. Fica muito dependente até de verba direto, com patrocínio. É uma dificuldade encontrada até na montagem do elenco. Precisamos ser mais criativo pelo financeiro.
A parte de logística, estrutural, é beneficiada pela lei. Já temos alguns patrocinadores, mas para competir nesse nível ainda estamos um pouco abaixo.
Tribuna de Minas: E sobre os projetos futuros? Como está o calendário do JF Vôlei feminino após a Superliga C?
Fabrício: Temos um segundo semestre bem movimentado para a base. Estaremos disputando, em agosto, competições dentro da cidade em todas as categorias. Neste final de semana, vamos participar de uma no Clube Cascatinha, com equipes da cidade e algumas das proximidades. Na outra semana, viajamos para o Campeonato Brasileiro Interclubes sub-16, em Criciúma (SC).
Em setembro, temos o campeonato estadual sub-16 e sub-17. O sub-16, inclusive, deve ser em Juiz de Fora. Seguimos para o campeonato metropolitano, no qual fazemos uma campanha positiva: de dez equipes, estamos em terceiro, atrás apenas do Minas e do Olímpico. Tivemos sete vitórias em nove jogos. Um resultado bem expressivo que pretendemos manter no segundo turno.
Também tem estadual sub-14 e sub-15. Final de ano movimentado e que esperamos seguir crescendo. Uma parte legal dos projetos é que temos atletas que saíram de projeto, a partir de lei, e fazem parte da nossa base. Vamos seguir firme levando o nome de Juiz de Fora para o estado e país.
Tribuna de Minas: Lara, não poderíamos deixar de perguntar sobre o seu futuro e suas referências – em uma cidade de Márcia Fu, Giovane Gávio. Olhando até para Seleção Brasileira, quais são suas referências no voleibol feminino? E dá para segurar a Lara para a próxima Superliga C?
Lara: Sempre, é só me chamar, independente de onde eu estiver. Casa não tem jeito, tem um peso maior para a gente.
Sobre referências, cito Gabi Guimarães, exemplo de jogadora e atleta; Bruninho é outro que me espelho muito. Tive oportunidade de vê-lo em Juiz de Fora e fiquei fascinada. Vamos buscando as referências e vemos que é além do esporte. São pessoas boas que queremos nos espelhar na vida.
Em agosto, vou disputar uma copa com as meninas no adulto. Na última semana do mês, tenho campeonato brasileiro universitário, representando o Recife, em Goiás.
Tribuna de Minas: Passa um recado para as meninas que sonham em seguir uma carreira como você, algo que você vivenciou e possa ser importante nesse início.
Lara: A partir do momento em que a gente busca um sonho, uma experiência nova, seja esporte ou outra coisa, precisamos aprender a lidar com as frustrações. Isso vai ter na base, no adulto, no vôlei, fora do vôlei.
O recado é aprender a lidar com isso. Falamos muito disso na Superliga. Nem sempre vai ser tudo ruim. É olhar para o lado positivo para poder seguir buscando as coisas boas na trajetória. Os desafios vão aumentando sempre, e quando mais rápido aprendermos a virar a chave e partir para a próxima, melhor.
Tribuna de Minas: Fabrício, tem como participar do projeto? Como funciona para os pais interessados em levar meninos e meninas para o JF Vôlei? Quem saber, estarem sendo treinados por você na próxima Superliga.
Fabrício: Estamos sempre de olho nos núcleos espalhados na cidade. Também há escolas particulares de vôlei, nos colégios Balão Vermelho, Machado Sobrinho e Degraus. Quando vemos alguém com potencial para ser trabalhado na base, nós recrutamos, convidamos para fazer parte.
No final do ano, como sempre, também temos nossa seletiva para buscar atletas já pensando no ano seguinte. Existem várias formas de entrar no projeto, e o primeiro passo é começar lá de trás. Começar igual à Lara: em uma escolinha, em um projeto social.
O mais importante é gostar de jogar e praticar vôlei, não entrar já querendo ser profissional. O sonho é importante, mas tem que gostar muito do que faz.
Às vezes, aparecem durante o ano determinados atletas que jogam em outras cidades e fazem contato conosco. Podemos marcar uma avaliação junto a algum treinamento e, a partir disso, convidar para integrar a equipe.
