CAPA queijos sophia arquivo pessoal

logo POR JF 45 anos tribunaPara quem vive da produção de queijo, manter uma atividade tradicional no campo também significa encontrar maneiras de fazê-la caber nas contas. Em pequenas propriedades de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, a busca por alternativas para aumentar a renda vem acompanhada de mudanças no modo de produzir, comercializar e aproveitar os recursos disponíveis. Água, soro do leite, energia e até a relação direta com o consumidor passaram a fazer parte dessa equação. 

A discussão faz parte da série especial pelos 45 anos da Tribuna, que busca refletir sobre os caminhos para a reconstrução econômica de Juiz de Fora e sobre quais atividades podem sustentar a geração de emprego e renda nas próximas décadas, após os impactos das chuvas de fevereiro. 

No sítio da família de Nathalie de Souza, a produção de queijo, que recebe o nome de Queijos Da Dalt, começou justamente a partir dessa necessidade. Quando a propriedade foi adquirida, não havia uma atividade produtiva estruturada. A família começou com a criação de gado e, posteriormente, percebeu que precisava de uma fonte de renda para manter o sítio. A produção de queijo foi uma das alternativas encontradas. 

Queijo Felipe Couri
(Foto: Felipe Couri)

“Eu busquei apoio junto à Prefeitura e à Emater para regularizar os queijos que a gente já vinha fazendo”, conta Nathalie. A partir da capacitação e da regularização, a família ampliou a produção, investiu na agroindústria e diversificou os produtos. O que começou com queijo Minas frescal passou a incluir meia-cura, parmesão, coalho, mussarela, manteiga e iogurtes. 

A estratégia também passou pela organização coletiva. A família criou uma cooperativa, que passou a fornecer produtos para a alimentação escolar por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Mais recentemente, participou da criação do Arranjo Produtivo Local (APL) do Queijo Minas do Caminho Novo, que reúne produtores da região. 

Hoje, a comercialização ocorre por diferentes canais, como feiras livres, cooperativa e venda direta, e os produtos já renderam dois prêmios para a família. Os Queijos Da Dalt também estão entre os produtores que integram a Rota do Queijo, iniciativa que será lançada ainda em setembro e pretende receber visitantes interessados em conhecer as propriedades e acompanhar de perto a produção. 

Mais de 30 produtores fazem queijo em Juiz de Fora, aponta APL  

A história da família Da Dalt exemplifica uma transformação que vem acontecendo na produção de queijo artesanal da Zona da Mata: uma atividade tradicional passa a incorporar capacitação, organização coletiva, novas formas de comercialização e práticas de aproveitamento de recursos para aumentar o valor gerado no campo. Em Juiz de Fora, esse movimento também ganha espaço por meio do Arranjo Produtivo Local (APL) do Queijo Minas do Caminho Novo, que aproxima produtores de consumidores e estabelecimentos da cidade. 

De acordo com os dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Agrário (SDA), 34 produtores da cidade integram o Arranjo Produtivo. Juntos, eles processam entre 9 mil e 12 mil litros de leite por dia, resultando em mais de uma tonelada diária de queijo. Considerando também produtos como iogurte, ricota, bebida láctea e manteiga, o volume pode chegar a duas toneladas por dia. O arranjo também é composto pelas cidades de Belmiro Braga, Matias Barbosa, Mercês, Santana do Deserto, Simão Pereira, Santos Dumont, Chácara, Coronel Pacheco, Piau e São João Nepomuceno. 

De acordo com o presidente do APL do Queijo Minas, Igor Rocha, antes da criação do arranjo, os produtores trabalhavam de forma mais isolada e tinham menor poder de negociação. A organização passou a facilitar o acesso a capacitações, feiras, restaurantes, padarias e outros pontos de venda. 

Ele reforça que o APL também busca agregar uma identidade territorial ao produto. Em vez de vender apenas um queijo, a proposta é apresentar a história e a origem da produção, aproximando o consumidor das propriedades e fortalecendo o mercado local. “Ao fortalecer a marca coletiva (Caminho Novo), os produtores ganharam espaço. Houve aumento nas vendas e melhoria no valor do produto”, diz. 

Sustentabilidade que cabe nas contas 

Para os produtores, agregar valor não significa apenas vender um produto por um preço maior. Também envolve reduzir desperdícios e aproveitar melhor os recursos disponíveis na propriedade. É nesse ponto que práticas associadas à chamada economia verde começam a aparecer no cotidiano das pequenas queijarias. 

No caso de Nathalie, a água utilizada para resfriar o leite é reaproveitada no processo de pasteurização. Já o soro, subproduto da fabricação dos queijos, é destinado à alimentação dos animais. Além disso, a família também investiu na instalação de placas de energia solar. 

A lógica é semelhante à de outros produtores que integram o APL. Segundo Igor, há propriedades que utilizam sistemas fotovoltaicos para abastecer equipamentos como tanques de resfriamento e câmaras de maturação, enquanto o esterco do gado é transformado em adubo para as pastagens. O soro também pode ser utilizado na alimentação animal ou incorporado à fabricação de outros produtos, como ricota e bebidas lácteas. “A produção sustentável no contexto de uma queijaria familiar não significa maquinários de última geração, mas sim eficiência de recursos.” 

Para ele, essas medidas representam mais do que uma preocupação ambiental. Em propriedades de pequena escala, o uso mais eficiente dos recursos pode significar economia: o reaproveitamento do soro reduz a necessidade de comprar alimentação para os animais, a energia solar pode diminuir a conta de luz e o uso racional da água reduz gastos relacionados à captação e ao bombeamento. 

O investimento inicial, porém, ainda é um dos obstáculos para os produtores. A instalação de sistemas de energia solar e a adequação das queijarias às exigências sanitárias demandam recursos que nem sempre estão disponíveis para quem trabalha em pequena escala. Segundo Igor, o retorno de investimentos em energia solar pode ocorrer em um período estimado entre quatro e seis anos. Por isso, o APL busca parcerias e capacitações com instituições como Prefeitura, Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Sindicato Rural, Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). 

O desafio de agregar valor 

queijaria sophia arquibvo pessoal
Foto: arquivo pessoal

É justamente entre investimento e retorno que aparecem alguns dos limites da chamada economia verde no campo. Luiza Lopes, à frente da Queijaria Sophia, começou a produzir queijo em 2017 por uma necessidade econômica. A produção de leite da família já não era suficiente para garantir a rentabilidade da propriedade, e o queijo apareceu como uma forma de transformar a matéria-prima em um produto de maior valor agregado. 

A produção começou na cozinha de casa. Em 2018, ela construiu uma queijaria e, no ano seguinte, conseguiu a regularização municipal. Desde então, ampliou o espaço, investiu em equipamentos e diversificou a produção. Em 2023, a queijaria passou de 25 para 50 metros quadrados. 

Hoje, Luiza também é responsável pela administração e pelas finanças do negócio, enquanto a mãe ajuda nas entregas e nas vendas. A rotina inclui a ordenha, o processamento do leite, a pasteurização e a fabricação dos queijos, além da distribuição dos produtos aos clientes. 

Para evitar perdas, a produção é planejada de acordo com os pedidos, principalmente no caso dos queijos frescais e da muçarela. Já os queijos maturados permitem uma produção contínua, porque podem permanecer por períodos maiores antes da comercialização, como ela explica. O soro é utilizado na alimentação dos bezerros e o excedente é vendido para pequenos produtores de suínos. 

A própria proximidade com o consumidor também entra nessa conta. Para Luiza, produzir para mercados próximos reduz a necessidade de transportar o leite e os produtos por longas distâncias, diminuindo custos e o consumo de energia associado à refrigeração. Mas ela pondera que nem toda mudança sustentável representa, necessariamente, ganho financeiro imediato. A produtora avalia substituir o sistema utilizado na pasteurização por uma alternativa movida a energia solar. No entanto, a mudança exigiria um investimento elevado e não garantiria, por si só, aumento no valor de venda do queijo. 

Tradição passada por gerações 

Se para Luiza o queijo surgiu como uma alternativa diante da baixa rentabilidade do leite, para Adriana Pereira, ele também representa uma forma de manter uma tradição familiar e, ao mesmo tempo, criar uma segunda fonte de renda para a propriedade. 

Na Queijaria das Palmeiras, a fabricação havia sido retomada pelos pais de Adriana depois de uma tradição que vinha do bisavô. Em 2019, ela e a mãe voltaram a produzir os queijos. O pai permanece ligado à criação do gado e à ordenha, enquanto a mãe se dedica principalmente à fabricação e Adriana atua nas entregas e no contato com os clientes. 

“Nossa produção é totalmente familiar. No início, enfrentamos dificuldades, mas nunca desistimos de oferecer o nosso melhor. Temos muito orgulho, principalmente nós, mulheres, por termos conquistado nosso espaço e sermos reconhecidas pelo nosso trabalho”, comenta Adriana. 

Mulheres ocupam papel de destaque na cadeia 

A participação feminina tem um importante papel na produção queijeira da região e aparece nos dados do APL. Dos 34 produtores de Juiz de Fora que integram o arranjo, nove têm mulheres à frente dos negócios, segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Agrário. 

Na prática, elas ocupam diferentes funções dentro do setor, desde a fabricação à administração, comercialização e relacionamento com os clientes. Nathalie, Adriana e Luiza são exemplos de mulheres que participam diretamente das decisões e da condução dos negócios familiares. 

Segundo Igor, a presença feminina também foi um dos aspectos observados durante a formação do APL. Ele afirma que, historicamente, as mulheres já participavam da fabricação dos queijos, enquanto os homens costumavam concentrar a comercialização e a titularidade dos negócios. Com a formalização das queijarias, porém, elas passaram a ocupar mais espaços de gestão e comercialização. 

Para os entrevistados nesta reportagem, a presença feminina é, portanto, parte de uma transformação mais ampla da atividade, em que a produção de queijo deixa de ser apenas uma forma de complementar a renda e passa a envolver gestão, planejamento, comercialização e busca por novos mercados. São mudanças que ajudam a definir não só como o queijo é produzido, mas também quem participa das decisões.  

Entre tradição e inovação, a produção artesanal de queijo passa, assim, por uma transformação que não abandona as características do campo, mas procura novas maneiras de fazê-las gerar renda. O desafio da economia verde, nesse caso, é também econômico: produzir melhor, desperdiçar menos, encontrar mercados e fazer com que o valor permaneça, cada vez mais, nas propriedades e no território.