Economia criativa: menos de 23% dos trabalhadores da cultura em Juiz de Fora vivem exclusivamente da atividade artística

logo POR JF 45 anos tribunaJuiz de Fora vive a expectativa de virar uma cidade da economia criativa, reforçada pela inauguração de iniciativas como o Polo Audiovisual JF Cine. No entanto, apenas 22,8% dos trabalhadores da cultura de Juiz de Fora vivem exclusivamente das atividades culturais.

De acordo com o Cadastro Municipal de Agentes Culturais (CadCultural) da Funalfa, entre as 2.261 pessoas cadastradas no sistema que mapeia os trabalhadores da área (e que é obrigatório para quem deseja concorrer a editais públicos), 50,5% têm outras fontes de renda, enquanto 21,4% não ganham dinheiro algum com as atividades culturais. Os demais têm faturamento proveniente de bilheteria, venda de ingressos ou renda com aulas e cursos.

Entre as medidas tomadas pela fundação e a engrenagem desse sistema de fato funcionar para a renda sustentar a maior parte dos artistas ainda são necessárias diversas etapas. Por isso, a Tribuna escutou profissionais da área e a gestão cultural para saber o que consideram mais urgente nesse processo. A matéria faz parte da série especial de 45 anos da Tribuna, que reflete sobre os caminhos para a reconstrução econômica de Juiz de Fora. 

A economia criativa no Brasil é responsável por aproximadamente 3,59% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e movimenta centenas de bilhões de reais por ano, de acordo com informações dos Sistemas Firjan. Esse valor ultrapassa setores tradicionais da indústria, como por exemplo o automotivo. Mas, para quem vive no dia a dia a realidade da cultura fora dos grandes centros urbanos, não são apenas os valores altíssimos que chamam a atenção: é a necessidade de encarar a cultura como trabalho.

“Há uma dificuldade comum aos profissionais da área: que a arte seja vista também como um trabalho e não como um hobby. Isso reflete num dos maiores desafios para os artistas locais, que é ter no seu ofício a sua principal fonte de renda”, afirma Carol Canêdo, escritora e gestora da Autoria Casa de Cultura. Para ela, isso também embasa comportamentos da população, que não tem costume de pagar ingressos ou mesmo comprar livros, principalmente quando se trata de algo produzido no cenário local.

DESENVOLVIMENTO ECONOMICO FELIPE COURI
Artistas afirmam que a falta de espaços para se apresentar em Juiz de Fora é um dos fatores que dificultam viver da cultura na cidade (Foto: Felipe Couri)

Além de uma cultura estruturada para que a população se interesse e consuma o que é local, os artistas entrevistados enxergam que falta espaço para isso. É o que diz Bruno Quiossa, ator, diretor e professor de teatro na Sala de Giz: os equipamentos culturais da cidade possuem preços elevados de aluguel e não são pensados para produções nascidas em Juiz de Fora.

“Isso faz com que a gente não consiga ter uma temporada de espetáculos, apenas uma ou duas apresentações de uma peça, e depois precise esperar um ano para conseguir se apresentar no espaço de novo. Não conseguimos fazer uma temporada longa, como vemos em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Isso nos prejudica, porque precisamos encontrar outras formas dentro da área para nos sustentar”, diz ele. Na sua percepção, a situação piorou após a pandemia de Covid-19 e o fechamento da sala no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas.

Se o investimento público representa apenas uma parte do que faz a economia criativa funcionar, para muitos dos trabalhadores é uma fatia vital do que possibilita os projetos saírem do papel. Por isso, a falta de previsibilidade dos editais de cultura da cidade também foi apontada pelos trabalhadores como um problema atual. “Não é possível que tenhamos editais parados como temos agora há tanto tempo; não é possível que os recursos das leis de incentivo não tenham valores corrigidos de fato para acomodar as demandas dos setores; não é possível que não exista um calendário organizado e cumprido com previsões concretas sobre as datas dos editais”, diz Bruna Schelb, diretora e sócia da produtora Filmes do Mato.

O mesmo reforça o grafiteiro Stain sobre o setor das artes, o que mostra que o impacto se alastra até mesmo na formação de público. “Esse público ainda é pequeno, e precisamos de mais pessoas interessadas nas diversas formas de produção artística. Com um público maior e mais participativo, a demanda por cultura também cresceria, o que poderia estimular a criação de novos incentivos privados — atualmente, ainda são poucos na cidade”, diz.

Audiovisual necessita de investimento maior 

O Polo JF Cine não foi escolhido como a primeira medida para impulsionar a economia criativa por acaso. Em todo o Brasil, o audiovisual mobiliza R$ 70 bilhões, sendo uma das áreas culturais mais rentáveis. No entanto, Bruna Schelb e Luis Bocchino, também cineasta e sócio da Filmes do Mato, acreditam que as dificuldades para o audiovisual local ainda são relacionadas ao fato de que, ao contrário de como acontece nos grandes centros, não existir um fluxo de produções capaz de contratar a extensa classe audiovisual.

“O que temos em Juiz de Fora é um cenário de produções pequenas, com orçamentos apertados, que não conseguem remunerar os profissionais adequadamente durante o ano todo. Isso faz com que muitos profissionais tenham que se envolver em projetos e trabalhos fora da cidade para conseguir pagar as contas”, explica Luis. 

Também por isso, ele acredita que ocorre a dependência de editais municipais, que trazem ao menos dois grandes problemas para que o setor se sustente. “O primeiro deles é a imprevisibilidade do cronograma, e o segundo são os baixos valores ofertados para projetos audiovisuais, que possuem custos muito altos”, explica.

No caso da Lei Murilo Mendes, um filme, que precisa mobilizar mais trabalhadores da cultura que uma exposição, por exemplo, recebe o mesmo teto fixo de R$ 50 mil para a sua produção. Eles pensam que uma possível solução para isso seria criar uma independência do setor em relação aos editais, de forma que os agentes culturais pudessem realizar projetos por meio de mecanismos como a LeiC MG e os artigos da Lei do Audiovisual, com uma conexão maior entre os agentes culturais com o empresariado da região.

Música é principal atividade artística

A música (797) é a principal atividade artística exercida pelos profissionais da cultura em Juiz de Fora, seguida das artes visuais (532), do audiovisual (503), da literatura (391), da cultura popular (349), das artes cênicas (327), das “outras” (326), da dança (188), das artes urbanas (159), do carnaval (97), do patrimônio (96) e das etnias (70). E não apenas isso: Juiz de Fora é frequentemente lembrada por seus artistas da área musical, como Sueli Costa, Mamão, Caetano Brasil, RT Mallone e Dubdogz. 

Mas, para quem vive de música, uma dificuldade se mostrou evidente nos últimos anos: a falta de espaços para exercer as atividades, principalmente com o fechamento das casas de shows e casas noturnas. É algo que Rick Guilhen, produtor cultural e presidente do Muvuka, também ressalta: “Temos poucos lugares para ocupar e exercer nossas atividades, principalmente de cultura negra”. Dentro da cidade, no entanto, os agentes culturais negros são quase metade: cadastrados no CadCultural, são 1.010 pessoas, um percentual de 44,7%, somando o número de pretos e pardos.

DESENVOLVIMENTO ECONOMICO LEONARDO COSTA 6
Agentes culturais negros representam 44,7% dos cadastrados no CadCultural em Juiz de Fora (Foto: Leonardo Costa)

Próximos passos 

Do ponto de vista da gestão cultural, a economia criativa é um projeto de investimento de médio e longo prazo, que precisa de bases e estruturas para acontecer. Nesse sentido, além do Polo JF Cine, que o superintendente da Funalfa Rogério Freitas destaca ter apenas um ano e meio, outro projeto que considera que irá alavancar o setor é o das Estações CulturaisO objetivo dessa iniciativa é a criação de um território de campo audiovisual, que engloba Barbacena (responsável pela produção musical), Juiz de Fora (que irá capitanear o projeto e ser responsável por toda a parte técnica do audiovisual) e Cataguases (com a animação).

Economia criativa: menos de 23% dos trabalhadores da cultura em Juiz de Fora vivem exclusivamente da atividade artística
Funalfa afirma que ações de médio e longo prazo buscam estruturar a economia criativa e ampliar as condições de trabalho para artistas e produtores culturais em Juiz de Fora (Foto: Leonardo Costa)

“Vamos criar uma oferta de mão de obra muito especializada, ainda mais do que a gente tem hoje, que já é muito boa em relação às cidades médias do Brasil, e com isso esperamos atrair mais produtores para cá”, explica ele. O projeto teve como inspiração o Cariri, no Ceará, no que diz respeito ao artesanato, e a previsão é que “deslanche” em três ou quatro anos, pois já foi aprovado no edital do Ministério da Cultura.

Diante das demandas do setor, ele também explica que a Funalfa aderiu à Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) em uma modalidade do governo federal que oferece uma nova categoria para os pontos de cultura. Dentro deste recurso, 10% do valor total pode ser usado para investimento em estrutura de espaços culturais e, por isso, será usado para terminar os elevadores do Teatro Paschoal Carlos Magno e trazer mais conforto para o público.

Outra iniciativa é o investimento em ações continuadas, que servem para a manutenção de espaços culturais relevantes para a cidade, categoria na qual se pode concorrer para obter uma verba de R$ 100 mil para manutenção anual. “Estamos falando em estruturar a base onde acontece a cultura”, diz Rogério.

Ele ainda destaca que o diálogo com o empresariado é uma parte importante para que a economia criativa aconteça. Isso já resultou em boas experiências, como a sala patrocinada pela Unimed para as Quintas Musicais. Outros projetos também têm sido debatidos, mas ainda precisam ser elaborados: por exemplo, a possibilidade de criar um “Selo JF” para o que é produzido na cidade e um Vale-Cultura (que é previsto até como um dos objetivos na Lei Murilo Mendes).

Para além disso, ele entende que o audiovisual não pode depender apenas dos editais locais para sobreviver, mas de um diálogo com ecossistemas diversos e a possibilidade de coproduções. Outra entrega que pretende ter é a Sala de Encenação Flávio Márcio, no CCBM, que deve ficar pronta até o final do ano.

Cidade com as próprias histórias

Se as dificuldades existem, os motivos para continuar em Juiz de Fora são muitos: entre os entrevistados, incluem desde laços familiares até a boa qualidade de vida da cidade, a ligação com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e os custos de vida menores em comparação aos centros urbanos. Mas também as possibilidades de se inventar e criar que existem só aqui.

Continuar em Juiz de Fora é um desejo porque nós somos daqui. É uma escolha fazer teatro aqui, falar das nossas dores e das nossas escolhas, da nossa identidade. Tem toda uma pesquisa e uma identificação com a cidade que nos faz fincar as raízes aqui”, diz Bruno Quiossa.

E o mesmo defende Luis Bocchino: “Acredito que a cidade tem muito potencial, com profissionais qualificados em todos os setores do audiovisual, temos boas histórias, bons elencos e locações”.