A maior escassez global de oferta de petróleo da história encabeçou a lista de preocupações dos economistas desde o início da guerra com o Irã. Mas mesmo com os Estados Unidos e o Irã retomando os bloqueios ao Estreito de Ormuz — fazendo o preço do petróleo disparar acima de US$ 80 o barril —, a economia enfrenta um novo problema.

Gasolina. Ou seja, a capacidade mundial de produzi-la.

Os centenas de milhões de barris de petróleo que saíram do Golfo Pérsico e chegaram ao mercado nas últimas semanas ajudaram a ampliar a reserva mundial de petróleo — mas, por si sós, não servem para muita coisa.

O petróleo precisa ser refinado em produtos e combustíveis que as pessoas possam utilizar, incluindo asfalto, plástico, óleo de aquecimento, combustível de aviação, diesel e gasolina.

Mas a capacidade de refino mundial está profundamente limitada. Isso se deve, em parte, ao fato de a cadeia de suprimentos ter sido prejudicada durante a guerra. Também porque o Irã atacou dezenas de refinarias no Oriente Médio. E, mais recentemente, a Ucrânia começou a destruir instalações energéticas russas.

Some-se a isso as temperaturas extremas que perturbam as condições de resfriamento necessárias para a destilação adequada nas refinarias, e o resultado é um grande problema.

As refinarias globais estão processando 8,4 milhões de barris de petróleo bruto a menos por dia do que processavam antes do início da guerra — produzindo 10% menos combustível, de acordo com Natasha Kaneva, chefe de pesquisa global de commodities do JPMorgan.

“A questão não é mais se os barris de petróleo bruto vão retornar, mas com que rapidez o sistema global de refino conseguirá processá-los”, disse ela.

Oferta e (falta de) demanda

O fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz está longe de voltar ao normal.

A retomada dos ataques no Oriente Médio, a declaração do presidente Donald Trump de que o Memorando de Entendimento entre os EUA e o Irã está “encerrado” e a reimposição do bloqueio naval liderado pelos EUA desaceleraram o que era uma promissora recuperação do tráfego de navios-tanque pela importante via marítima.

A produção do Oriente Médio está voltando lentamente, com alta de 4 milhões de barris por dia em relação a maio, segundo a Macquarie Research.

Mas, ao longo das últimas semanas, 200 milhões de barris de petróleo saíram pelo estreito — acrescentando 17 dias de oferta, de acordo com a Lipow Oil Associates.

E o petróleo bruto ainda está saindo agora, apesar do aumento da atividade militar.

“A narrativa fundamental do mercado de petróleo permanece inalterada: há petróleo suficiente disponível globalmente, desde que ele possa ser transportado para onde é necessário”, disse Rob Thummel, gestor sênior de portfólio da Tortoise Capital.

A questão agora é o que fazer com ele. A demanda por petróleo despencou durante a guerra porque a oferta caiu drasticamente e muitas pessoas reduziram seu consumo de petróleo.

Isso ajudou a manter os preços mais baixos do que a maioria dos analistas havia previsto ao longo da guerra — mas também complica a recuperação do mercado de energia.

Por exemplo, a China desativou 3 milhões de barris por dia em produção de refino, de acordo com o JPMorgan, à medida que o governo expandiu massivamente suas usinas a carvão e impulsionou os veículos elétricos.

A China esgotou suas enormes reservas de emergência para compensar a perda de petróleo do Golfo Pérsico e reduziu drasticamente a quantidade de gasolina e diesel que vinha refinando e exportando para países vizinhos — agravando a escassez generalizada de combustível no Sudeste Asiático.

Antes que a capacidade de refino chinesa volte a crescer, o governo vai querer garantias de que o petróleo bruto está fluindo pelo estreito sem impedimentos, previu Kaneva.

Avaliação de danos

A retomada das hostilidades no Golfo Pérsico também complica a retomada do refino no Oriente Médio. A região possui 11,7 milhões de barris por dia de capacidade de refino, que será difícil de reativar caso o combustível não tenha para onde ir.

Um obstáculo ainda mais significativo: o Irã atacou 30 refinarias do Oriente Médio durante a guerra, de acordo com o JPMorgan. Ainda não está claro em que condições operacionais essas instalações estarão quando forem reativadas.

Os Estados Unidos tornaram-se o exportador de última instância de gasolina e diesel depois que o Oriente Médio parou de exportar combustível durante a guerra.

As refinarias americanas aumentaram sua produção de combustível de aviação para ajudar a suprir a demanda na Europa e de diesel para ajudar a suprir a demanda na Austrália e na Ásia. Isso limitou a capacidade dos Estados Unidos de produzir gasolina, combustível de aviação e diesel para seu próprio mercado — uma das razões pelas quais os preços da gasolina não “caíram como uma pedra”, como Trump havia previsto.

A capacidade de refino nos Estados Unidos tem sido um problema há anos. Quatro refinarias foram fechadas na Califórnia até agora nesta década por causa de regulamentações ambientais e altos custos.

A última nova refinaria americana com capacidade significativa foi a instalação da Marathon em Garyville, Louisiana, construída em 1977.

O assunto Rússia

Portanto, não é exatamente o melhor momento para a Rússia, maior exportadora mundial de óleo combustível e segunda maior exportadora de diesel (atrás dos Estados Unidos), simplesmente… parar de exportar combustível.

A Rússia proibiu na semana passada as exportações de diesel após drones ucranianos continuarem a bombardear refinarias russas. O país enfrentou escassez significativa de combustível nas últimas semanas: carros estão fazendo fila em postos de gasolina, e os preços do combustível em algumas regiões subiram 50% nos últimos dias.

Essas interrupções também estão causando problemas enormes para o mercado global de diesel: um quinto da redução mundial nas operações de refinarias foi causado pela capacidade perdida da Rússia, segundo o JPMorgan.

Os 800.000 barris por dia de diesel exportado pela Rússia antes do bombardeio ucraniano representavam 12% das remessas mundiais de diesel, de acordo com Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates.

Essa é uma das principais razões pelas quais os futuros de diesel subiram 20% nas últimas três semanas — e por que os preços da gasolina e do diesel podem permanecer elevados por um período bem mais longo do que qualquer pessoa gostaria, mesmo com o petróleo voltando a fluir.

“Mesmo que a atenção do mercado permaneça compreensivelmente fixada em Hormuz, um dos determinantes mais importantes dos balanços globais de refino pode agora estar a quase 2.000 milhas ao norte”, disse Kaneva.

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