Depois de fechar a quinta-feira (10) em alta de 1,42%, aos 188.268 pontos, o Ibovespa chega no pregão desta sexta-feira (11) diante de dois indicadores capazes de mexer com as expectativas de juros no Brasil e nos Estados Unidos.
Lá fora, será divulgado o CPI, índice de preços ao consumidor americano. Por aqui, sai o IPCA, inflação oficial do país. Os dois dados serão acompanhados de perto porque chegam poucos dias antes das reuniões do Federal Reserve e do Copom.
O ponto de partida é bastante diferente nos dois países. Nos Estados Unidos, o mercado atribui 73,1% de probabilidade a uma alta de 0,25 ponto percentual dos juros em setembro, segundo o CME FedWatch. No Brasil, as Opções de Copom da B3 indicam 95% de chance de corte de 0,25 ponto percentual da Selic, hoje em 14% ao ano.
Ao mesmo tempo, a Bolsa brasileira chega aos dados depois de uma sequência de valorização em que fatores domésticos, sobretudo as expectativas em torno da eleição presidencial, ganharam espaço na formação dos preços.
A questão para esta sexta, portanto, não é apenas se CPI e IPCA virão acima ou abaixo das projeções. O mercado também tentará medir como os números alteram as expectativas para Fed e Copom e até que ponto o cenário eleitoral local continuará influenciando o Ibovespa.

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CPI pode mexer com aposta de alta dos juros nos EUA
A expectativa é de que o CPI tenha avançado 0,4% em agosto e 3,4% em 12 meses. Para o núcleo, que exclui componentes mais voláteis, o consenso aponta para alta de 0,2% no mês e 2,4% no ano.
O indicador chega depois de outros números que já vêm alimentando o debate sobre a política monetária americana.
Na semana passada, o payroll mostrou criação de 162 mil empregos, muito acima do esperado. Nesta quinta-feira, o PPI, índice de preços ao produtor, avançou 0,4% em agosto, em linha com o consenso. Em 12 meses, a alta chegou a 5,4%.
Com isso, as apostas de alta dos juros pelo Fed ganharam força antes mesmo da divulgação do CPI.
Para Pablo Spyer, economista e sócio da XP, a atenção não deverá ficar restrita ao índice cheio.
“A atenção recairá sobre o núcleo da inflação e a composição do índice”, afirma. Segundo ele, uma surpresa para cima, especialmente com pressão em serviços, poderia elevar ainda mais a probabilidade de alta de juros na próxima reunião.
Rafael Perretti, economista e analista da Clear Corretora, também vê o CPI como um dado capaz de confirmar ou alterar a atual precificação do mercado.
“A expectativa é de alta dos juros na próxima reunião. O CPI pode confirmar esse cenário ou levar o mercado a revê-lo”, afirma.
Como um CPI mais forte ou mais fraco chega ao Ibovespa?
O efeito da inflação americana sobre a Bolsa brasileira passa, principalmente, pelas expectativas de juros, pelos Treasuries e pelo dólar.
Na avaliação de Spyer, um CPI acima do esperado tende a aumentar as apostas de uma política monetária mais restritiva. Nesse cenário, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano podem subir e o dólar ganhar força.
Isso pode reduzir a atratividade relativa dos mercados emergentes. Segundo Spyer, juros maiores nos Estados Unidos aumentam o retorno oferecido pelos ativos americanos e podem reduzir o fluxo destinado a países como o Brasil.
O movimento contrário também é possível. Uma inflação mais comportada poderia diminuir a pressão por uma alta de juros, aliviar os Treasuries e enfraquecer o dólar, criando um ambiente mais favorável aos ativos de risco.
Perretti chama atenção especialmente para a curva de juros americana. Para ele, um CPI mais fraco pode reforçar a percepção de manutenção dos juros, enquanto uma inflação mais pressionada pode voltar a elevar os rendimentos, sobretudo nos prazos mais longos.
Por isso, Spyer ressalta que a leitura não deve terminar no número do CPI.
“Para o Ibovespa, não basta só olhar para o CPI e ver se veio acima ou abaixo do consenso”, afirma. Segundo ele, será importante observar a reação dos Treasuries, do dólar e das apostas para a decisão do Fed.
IPCA testa expectativa de corte da Selic
No Brasil, a expectativa é de queda de 0,29% do IPCA em agosto e inflação acumulada de 4,27% em 12 meses.
A divulgação ocorre com o mercado fortemente concentrado em um cenário para a reunião do Copom. As Opções de Copom negociadas na B3 apontam cerca de 95% de probabilidade de corte de 0,25 ponto percentual, o que levaria a Selic de 14% para 13,75% ao ano.
O movimento está em linha com o cenário mais recente do mercado. No Boletim Focus divulgado nesta semana, a projeção para a Selic no fim de 2026 permaneceu em 13,75%.
Nesse contexto, a discussão pode ir além da decisão imediata e se concentrar também nos próximos passos do Banco Central.
Spyer avalia que um IPCA abaixo das expectativas, principalmente se vier acompanhado por melhora nos núcleos e na inflação de serviços, pode reforçar a percepção de desinflação e ampliar o espaço esperado para cortes adiante.
Uma leitura mais pressionada teria efeito contrário. Segundo ele, inflação disseminada entre núcleos e serviços poderia levar o mercado a reduzir as apostas em cortes e aumentar o prêmio de risco.
Alexandre Wolwacz, o Stormer, trader e sócio-fundador da Liberta, também relaciona o IPCA ao espaço para redução da Selic.
Na avaliação dele, uma inflação abaixo do esperado facilitaria uma queda mais rápida dos juros e poderia favorecer a Bolsa. Já um resultado acima das projeções reduziria esse espaço.
A relação entre inflação e juros também está no foco dos investidores de renda fixa. Nesta semana, o InfoMoney mostrou por que o IPCA desta sexta-feira virou um teste para as estratégias de aplicação diante da expectativa de novas quedas da Selic.
Um IPCA pode mudar a decisão do Copom?
Para os especialistas, há diferenças sobre a capacidade de um único dado alterar a reunião da próxima semana.
Alison Correia, trader e sócio da Dom Investimentos, considera pouco provável uma mudança relevante na decisão já esperada apenas com a divulgação desta sexta-feira, dada a proximidade da reunião do Copom.
Isso não impede, porém, que o dado mexa com as expectativas para os encontros seguintes.
André Moraes, analista, fundador e CEO da Trade ao Vivo e chairman da BFR Investimentos, considera a inflação uma variável central para definir a velocidade de queda dos juros no Brasil.
Na visão dele, um IPCA abaixo do esperado tende a ser favorável ao mercado acionário, enquanto um resultado mais forte pode gerar pressão em sentido contrário.
A relação entre juros mais baixos e ações brasileiras também voltou ao centro das estratégias das instituições financeiras. Nesta semana, o Bank of America elevou a recomendação para ações brasileiras e apontou um ciclo mais profundo de cortes da Selic como um dos gatilhos para o mercado.
Perretti acrescenta outro elemento. A trajetória dos juros brasileiros também depende do que acontecer nos Estados Unidos.
Caso os juros americanos subam mais, o espaço para cortes no Brasil pode diminuir, já que o diferencial entre as taxas dos dois países influencia a atratividade dos ativos brasileiros.
“A curva de juros brasileira é impactada diretamente pela inflação e pela curva de juros norte-americana também”, afirma.
E se CPI e IPCA apontarem para direções diferentes?
A divulgação dos dois índices no mesmo dia pode produzir sinais opostos para o mercado.
Um CPI mais forte nos Estados Unidos e um IPCA mais fraco no Brasil, por exemplo, poderia pressionar a curva americana ao mesmo tempo em que o dado doméstico reforçaria as expectativas de queda da Selic.
No cenário inverso, um CPI mais benigno ajudaria o ambiente externo, enquanto um IPCA acima das projeções poderia pressionar os juros locais.
Se os dois indicadores vierem mais comportados, as duas curvas de juros podem receber sinais favoráveis. Caso ambos surpreendam para cima, o mercado terá de lidar com pressões simultâneas sobre as expectativas de juros nos dois países.
A reação do Ibovespa dependerá, portanto, não só dos números, mas de qual dessas forças terá maior impacto sobre os ativos durante o pregão.
Ibovespa chega aos dados após forte valorização
O ponto de partida da Bolsa também merece atenção.
O Ibovespa encerrou a quinta-feira aos 188.268 pontos, após subir 1,42%, e chega aos novos dados depois de uma recuperação expressiva nas últimas semanas.
O movimento recente também recolocou as grandes ações do índice no centro das atenções.
Perretti observa que a valorização já levou indicadores técnicos para níveis mais elevados. Segundo ele, o IFR, Índice de Força Relativa, está acima de 70, região normalmente associada a um mercado sobrecomprado.
Isso não representa, por si só, uma indicação de reversão.
“É só um fator de atenção neste curto prazo, porque nada sobe sem parar”, afirma. Segundo Perretti, os indicadores mostram um Ibovespa esticado, mas isso não impede a continuidade do movimento caso os fatores econômicos permaneçam favoráveis.
Uma surpresa desfavorável na inflação, portanto, encontra um índice que já avançou bastante no curto prazo. Por outro lado, números que aliviem as expectativas de juros podem continuar dando suporte ao movimento comprador, na avaliação das fontes.
Trade eleitoral continua no radar
Os indicadores de inflação serão protagonistas nesta sexta-feira, mas não estarão sozinhos.
Nos últimos pregões, as expectativas em torno da eleição presidencial passaram a exercer influência relevante sobre a Bolsa brasileira. Na quinta-feira, o Ibovespa saiu do negativo para uma alta superior a 1% com o fortalecimento das expectativas eleitorais.
Spyer atribuiu a alta da sessão ao chamado “trade eleitoral”. Segundo ele, o mercado vem ajustando posições à medida que as pesquisas apontam uma disputa mais apertada e aumentam as expectativas de uma possível alternância de poder. Na avaliação do economista, essa leitura está ligada, entre outros fatores, às expectativas dos investidores para a política fiscal do próximo governo.
Perretti também relaciona o cenário eleitoral à percepção sobre as contas públicas. Para ele, fatos políticos tendem a ganhar relevância para o Ibovespa principalmente quando alteram as expectativas sobre a eleição e, consequentemente, sobre a condução da política fiscal.
Esse comportamento já apareceu em sessões recentes. Na semana passada, um payroll muito acima das expectativas chegou a derrubar o Ibovespa mais de 1%, mas o índice recuperou praticamente todo o tombo até o fechamento.
O episódio mostra que os indicadores externos não atuam isoladamente sobre a Bolsa brasileira. Nesta sexta-feira, CPI e IPCA dividirão espaço com um cenário doméstico que permanece bastante ativo.
As tensões envolvendo o Supremo Tribunal Federal também seguem no radar. Spyer cita o tema como um fator de risco institucional, embora avalie que, neste momento, as pesquisas eleitorais têm exercido influência mais direta sobre a Bolsa.
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