
A redução das abstenções e dos votos brancos e nulos marcou o segundo turno das eleições presidenciais em dez cidades da região analisadas pela Tribuna de Minas. Além Paraíba, Bicas, Cataguases, Ewbank da Câmara, Juiz de Fora, Leopoldina, Muriaé, Santos Dumont, Ubá e Viçosa registraram queda nesses indicadores entre a primeira e a segunda votação.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, o movimento ajuda a mostrar como uma disputa acirrada, a mobilização nas ruas e nas redes sociais e o aumento da percepção sobre a importância de cada voto alteraram o comportamento de parte do eleitorado no segundo turno.
Mobilização pode ter levado mais eleitores às urnas
Para o cientista social Franklin Soldati, que tem pós-doutorado em Cultura Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), a mobilização eleitoral de 2026 pode ter alterado tendências observadas no primeiro turno e levado às urnas eleitores que tradicionalmente optavam pela abstenção ou por votos brancos e nulos.
Segundo ele, a campanha conduzida pelo deputado federal André Janones (Rede) pode ter contribuído para esse movimento, especialmente diante do debate sobre possíveis cortes no orçamento e seus impactos sobre programas sociais e aposentadorias.

Soldati relaciona o comportamento eleitoral à literatura sobre alienação política, que aponta maior tendência ao afastamento das urnas entre os eleitores mais jovens e mais velhos. Para o pesquisador, o receio de perder direitos e benefícios pode ter estimulado o comparecimento, inclusive entre idosos e pessoas com dificuldades de saúde.
“A utilização da mídia foi fundamental para a mudança no comportamento eleitoral do brasileiro em 2026”, avalia.
Disputa acirrada muda cenário esperado
Em setembro, antes do primeiro turno, a Tribuna de Minas ouviu especialistas em política para entender o comportamento de quem vota nulo, branco ou não comparece às urnas. Na ocasião, Diogo Tourino, doutor em Ciência Política e professor da UFJF, apontava uma tendência de maior ausência no segundo turno, já que outras disputas, como as eleições para deputados e senadores, estariam resolvidas.
Após a votação, ele avalia que o caráter acirrado da disputa presidencial mudou esse cenário.
“A gente tinha essa desconfiança, que foi o que eu mencionei em setembro, que a gente usava a expressão de que a gente teria ‘pouca tração eleitoral’, haja vista que candidaturas para governador já haviam se resolvido. Mas, a despeito dessa baixa tração, a gente teve algo que motivou muito, que foi uma disputa acirrada, palmo a palmo. As pesquisas foram indicando, ao longo dessas três semanas, sempre empate”, comenta.
Segundo Tourino, esse comportamento é compatível com o que aponta a literatura da Ciência Política: quanto mais equilibrada uma eleição, maior pode ser o estímulo para que o eleitor compareça às urnas por acreditar que seu voto terá peso no resultado.
“A literatura da Ciência Política, em geral, nos diz que, quanto mais acirrada for uma disputa, os eleitores têm um convite maior para comparecer, porque eles fazem um cálculo individual de que a sua participação, o seu voto, tende a influir no resultado“, frisa.
O professor destaca ainda que a participação pode ser motivada tanto pela identificação com uma candidatura quanto pela rejeição ao adversário. Na avaliação dele, o resultado do primeiro turno teve impacto sobre parte dos eleitores.
“Muitos desses eleitores se assustaram no final do primeiro turno com a possibilidade da eleição terminar com Flávio vencedor e Lula não ser eleito. Então isso deu uma reviravolta“, pontua.
Para Tourino, as três semanas entre os turnos também foram marcadas por uma mobilização que extrapolou as estruturas partidárias.
“Aconteceu um fenômeno poderosíssimo da vida democrática, que foi a campanha mesmo, a mobilização, o debate, a conversa, as pessoas fazendo vídeos para tentar mobilizar os seus próximos, conversando, as belíssimas cenas para a vitalidade democrática que a gente viu de idosos sendo levados pelos seus netos, com dificuldade de mobilidade, sendo ajudados a chegar nas seções de votação”, observa.
Ele também chama atenção para a presença das mobilizações nas ruas.
“Em três semanas, as ruas foram tomadas com movimentações orgânicas, pouquíssima mobilização de partido. A gente via cidades Brasil afora, cidades pequenas, capitais, cidades do interior, manifestações espontâneas de eleitores que se organizavam, faziam uso das redes sociais para se organizar, e as ruas foram sendo tomadas”, indica.
Redes sociais, propostas e rejeição
Eduardo Salomão Condé, cientista político e professor da UFJF, também relaciona o comportamento do eleitorado no segundo turno ao caráter acirrado da disputa e à rejeição entre os dois campos políticos.
“Houve um temor real sobre a perda de direitos e de políticas. Este sentimento começou difuso e se espalhou muito fortemente já na segunda semana do segundo turno. O temor diante de Flávio foi maior que o antipetismo”, avalia.
Na leitura do professor, a estratégia adotada pela campanha de Flávio Bolsonaro contribuiu para esse cenário.
“A campanha de Flávio se organizou contra o PT e Lula, não em relação a propostas concretas. (…) Se Flávio pretendia espalhar o medo do PT, foi o temor do que poderia ser seu governo que auxiliou em sua derrota”, reflete.
Antes do primeiro turno, Condé havia levantado a possibilidade de que o forte antagonismo eleitoral estimulasse mais votos brancos e nulos. Após a eleição, avalia que o movimento observado no segundo turno foi diferente.
O professor cita os atos de rua e a mobilização de idosos, jovens, mulheres e estudantes como parte desse processo. Para ele, houve “espontaneidade e engajamento progressivo de forças muito diversas da sociedade civil”.
As redes sociais também aparecem na análise. Em setembro, Condé já apontava que elas mantinham papel estratégico, embora seu uso não necessariamente aprofundasse o debate político. No segundo turno, segundo ele, as plataformas ganharam peso na mobilização dos eleitores.
O pesquisador também observa uma mudança no conteúdo da campanha. Antes do primeiro turno, classificava a disputa como uma das mais “estranhas” dos últimos anos, com temas paralelos ocupando espaço que normalmente seria destinado às propostas dos candidatos.
Já no segundo turno, considera que “houve uma campanha efetiva”. “Os temas em debate ganharam corpo: políticas sociais, ajuste fiscal, SUS, endividamento, até segurança”, exemplifica.
“Isso vale para Juiz de Fora e região e para o Brasil. Neste caso, somos o microcosmo do fenômeno. Lula melhorou em grande parte dos municípios, virando em mais de 200”, conclui.
Veja o que mudou em dez cidades da região
Em dez cidades da Zona da Mata, houve redução nos votos brancos, nulos e nas abstenções entre o primeiro e o segundo turno. Abaixo, os números mostram como esses indicadores variaram em cada município e qual foi o resultado da disputa presidencial em cada um deles.
- Além Paraíba: votos brancos passaram de 386 para 270; nulos, de 487 para 337; e abstenções, de 6.681 para 6.299. No segundo turno, Lula teve 56,38% dos votos válidos, e Flávio Bolsonaro, 43,62%.
- Bicas: brancos caíram de 132 para 81; nulos, de 278 para 214; e abstenções, de 2.717 para 2.456. Lula terminou com 54,09%, contra 45,91% de Flávio.
- Cataguases: brancos passaram de 712 para 463; nulos, de 1.160 para 866; e abstenções, de 12.608 para 11.059. Lula recebeu 62,01% dos votos válidos, e Flávio, 37,99%.
- Ewbank da Câmara: brancos diminuíram de 44 para 30; nulos, de 92 para 60; e abstenções, de 991 para 840. Lula teve 63,62%, contra 36,38% de Flávio.
- Juiz de Fora: brancos passaram de 6.610 para 3.832; nulos, de 10.205 para 8.269; e abstenções, de 72.952 para 62.506. Lula terminou com 57,66% dos votos válidos, enquanto Flávio ficou com 42,34%.
- Leopoldina: brancos caíram de 683 para 356; nulos, de 716 para 563; e abstenções, de 9.715 para 8.705. Lula recebeu 60,16%, contra 39,84% de Flávio.
- Muriaé: brancos passaram de 1.218 para 761; nulos, de 1.954 para 1.444; e abstenções, de 15.856 para 14.377. Flávio venceu com 51,86%, enquanto Lula teve 48,14%.
- Santos Dumont: brancos diminuíram de 723 para 391; nulos, de 895 para 584; e abstenções, de 8.774 para 7.843. Lula teve 63,55%, contra 36,45% de Flávio.
- Ubá: brancos passaram de 1.179 para 733; nulos, de 1.580 para 1.217; e abstenções, de 16.122 para 13.953. Lula recebeu 52,09%, e Flávio, 47,91%.
- Viçosa: brancos caíram de 1.154 para 695; nulos, de 1.365 para 1.068; e abstenções, de 13.752 para 11.276. Lula terminou com 67,92%, contra 32,08% de Flávio.
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