
Em Juiz de Fora, o total de eleitores que não entraram na conta dos votos válidos nas últimas eleições presidenciais foi de 25,27%, número bem próximo do nacional, 25,36%. Ambos caíram em relação aos dois pleitos anteriores. Em 2014, foram 30,49% em Juiz de Fora e, em 2018, 30,29%. No Brasil, 29,03% e 29,12%, respectivamente. Veja o detalhamento dos dados, na cidade, no estado, e no país:

Os totais representam a soma de abstenções (quem sequer foi votar) com votos brancos – que, desde 1997, também são considerados inválidos – e nulos. Embora sejam escolhas distintas e possam ter motivações diferentes, no fim, todas são agrupadas em um contexto: são cidadãos que não produzem impacto significativo sobre quem tomará decisões que produzem impacto direto em suas vidas, seja no âmbito estadual ou federal.
Excesso ou falta de estado seria uma das causas
O comportamento não tem explicação única, já que diferentes cientistas compartilham diferentes hipóteses. Diogo Tourino, doutor em Ciência Política e professor da UFJF, por exemplo, faz uma espécie de psicologismo sobre quem comparece à urna e vota em branco ou nulo: “A gente não conversou com essas pessoas, nós não perguntamos a elas, mas nós poderíamos fazer uma ilação, dizendo que esses eleitores querem dar o recado de que nenhum dos candidatos nas urnas significativamente os representam”.
Ele ainda lembra situações específicas, como, por exemplo, eleições que já aconteceram próximo a feriados, levando eleitores a estarem fora do domicílio eleitoral, e até mesmo uma cifra irrisória de pessoas que pode digitar um número errado ou incompleto e apertar “confirma”, computando como voto nulo.

A também doutora em Ciência Política e professora da UFJF, Christiane Jalles de Paula, aponta que a razão também para uma maior abstenção pode vir desde questões mais simples, como o clima – muita chuva ou calor extremo podem desmotivar o deslocamento – até casos extraordinários, como as operações da Polícia Rodoviária Federal no segundo turno das eleições de 2022, investigadas por suspeita de terem dificultado o deslocamento de eleitores, especialmente no Nordeste.
Vale dizer que, embora tenham sim havido operações e fiscalizações de veículos naquela região, mesmo com o TSE determinando previamente que não fossem feitas ações que prejudicassem o transporte de eleitores, o próprio Tribunal afirmou, posteriormente, que não houve aumento da abstenção na região.
Já sobre o que motiva a estratégia de votar nulo ou em branco, ela reconhece que, mesmo os especialistas não conseguem responder, porque há “uma multiplicidade enorme de possibilidades”.

Franklin Soldati, cientista social e pós-doutor em Cultura Política, entende que abstenção significa excesso de estado ou falta dele, para a grande maioria dos absenteístas: “Excesso para aqueles eleitores de elevado padrão social e que entendem que eleições não mudariam suas vidas. Na outra ponta, o eleitor que não se sente alcançado pelas políticas de estado, ou seja, não usufrui de bem-estar social e por isso também crê que eleições não mudarão a sua vida”.
Já o voto em branco, para ele, poderia significar um sentimento de “medo” em assumir qualquer bandeira ideológica, enquanto o voto nulo seria a representação da discordância do modelo eleitoral ou dos nomes apresentados como candidatos. “Historicamente, o conjunto de votos não válidos e abstenção foi chamado de ‘alienação eleitoral’ pela literatura e elites brasileiras. Esse mote acabava por estimular a desvalorização do processo democrático”.

Conjuntura confusa dificulta as previsões
Todos os especialistas convergem no fato de que a oscilação nos número é conjuntural. “A literatura da ciência política, em geral, nos diz que, quanto mais acirrada for uma disputa, os eleitores têm um convite maior para comparecer, porque eles fazem um cálculo individual de que a sua participação, o seu voto, tende a influir no resultado”, ensina Tourino.
Eduardo Salomão Condé, outro cientista político e professor da UFJF, faz uma “mera especulação diante da conjuntura confusa” atual: “O forte antagonismo eleitoral das forças que dominam o imaginário político eleitoral pode estimular, sim, mais votos brancos e nulos”.
Segundo ele, esta é a campanha mais “estranha” dos últimos anos. “Não houve campanha em sentido estrito, mas a agenda foi dominada por um ex-banqueiro preso, um filme que ninguém viu, o filho do presidente, o STF, Nossa Senhora Aparecida, coisas assim. Não sabemos nada sobre propostas de segurança, saúde, educação, o usual em campanhas.”
Condé acrescenta que “as redes sociais continuaram seu papel estratégico, para o bem e para o mal, e seu uso não contribuiu em nada para aprofundar o debate”. “Desta forma, é temerário imaginar ou prever abstenção, brancos e nulos na conjuntura onde pode existir um percentual de eleitores absolutamente insatisfeito com tudo o que ocorreu.”
O cientista político ressalta que o cenário é muito confuso. “As pesquisas dão conta disso quando observamos não os ‘placares’ em si, mas particularmente a espontânea, os indecisos nessa modalidade e aqueles que já definiram seu voto. Há um cenário ainda aberto para os dois principais candidatos.”

Soldati amplia a discussão: “No mundo, existe uma tendência de aumento da abstenção eleitoral e, a depender das regras eleitorais, aumento dos votos em branco e nulos”. “No Brasil, em alguns momentos de crise econômica e política, e com campanhas massivas do TSE, conseguiu-se interromper esses movimentos”, completa.
2026 pode ser decidido no primeiro turno?
Christiane simplifica a conta, tomando como exemplo o percentual médio de 30% inválidos: “Precisar de 50% mais um dos votos, no universo de 70%, é melhor do que no universo de 100%. Portanto, torna-se efetivamente mais possível o fim de uma disputa no primeiro turno”.
No entanto, “isso não significa falar que é o que acontecerá em 2026. É uma probabilidade em termos gerais, uma vez que o número de votos nominais é menor do que se todo o conjunto do eleitorado comparecesse às urnas”.
“A gente não sabe”, também faz questão de destacar Tourino, “mas tudo indica que há uma alta probabilidade que nós tenhamos uma eleição presidencial em dois turnos e também para governo em vários estados”. O que ele afirma com propriedade é que, no segundo turno, há uma tendência maior ao não comparecimento, por haver menos votos em disputa, com deputados e senadores já tendo sido eleitos.
“É possível, mas improvável”, diz Condé. Segundo ele, as pesquisas não estão autorizando a interpretar a decisão no primeiro turno: “Os demais candidatos precisariam ‘derreter’ e seus votos migrarem aos candidatos e para branco/nulo. No momento, os candidatos menos votados ainda estão marcando posição”.
Abstenção é facilitada
A professora Christiane reforça que é muito difícil fazer uma estimativa sobre a quantidade de votos inválidos neste domingo, porque há variáveis conjunturais “incontroláveis”. No entanto, ela acredita que a porcentagem deve se manter, mais ou menos, próxima à faixa histórica de 30%. Condé reitera: “Não haveria porque esperar dados muito distantes dos que ocorreram desde 2014”.
Soldati faz coro. Segundo ele, não existem métodos ou pesquisas eleitorais suficientemente capazes de evitar a falácia ecológica – tirar conclusões sobre indivíduos com base em dados de um determinado grupo, ou fazer o inverso. “Ainda não conseguimos afirmar como alguém irá se comportar no dia da votação ou qual direção o eleitor irá tomar. Não se pode afirmar se, quando ele deixa de votar válido, ele votará em branco, nulo ou se absterá. A coisa se complica se incluirmos fatores socioeconômicos e ideológicos”.
Além disso, Tourino lembra de um aspecto que pode entrar na conta da abstenção neste ano: as facilitações que vêm sendo criadas: “Por exemplo, a justificativa para quem não votou. Antigamente, o eleitor teria que se deslocar, comparecer até uma seção eleitoral para entregar a sua justificativa, ou então ele depois teria que procurar a justiça eleitoral para regularizar a sua situação. E, hoje, nós temos a possibilidade de fazer isso via aplicativo.
Ele destaca que não diz isso como crítica, mas como um registro necessário. “A possibilidade de tirar o título ou de justificar uma abstenção é um mecanismo que vejo com bons olhos, do ponto de vista de mobilizar a tecnologia para a inclusão, mas que pode também criar esse tipo de situações”.
Já Christiane traz à tona o que muitos brasileiros pensam: “Apesar de o voto ser obrigatório no Brasil, os custos, especialmente pensando em abstenção, não são tão altos que inviabilizem transformar isso numa questão facultativa”. Atualmente, a multa para quem não vota é de R$ 3,51 para cada turno.
Universo menor de votantes não enfraquece legitimidade do processo eleitoral
Todo esse cenário sobre – a falta de – participação e representação política não enfraquece, de forma alguma, a validade dos resultados e do processo eleitoral. “A legitimidade em uma eleição é dada pelo seu resultado conforme as regras estabelecidas, por isso aceitar o resultado é condição indispensável para qualquer democracia”, relembra Condé.
“De qualquer forma, para a participação política, nós temos claramente um colégio eleitoral enorme”, complementa Christiane. “Assim, você tem uma força muito grande da democracia representativa no Brasil”.
Por fim, Tourino se preocupa em passar um recado ao eleitor: “Às vezes, a gente lê o voto só na chave do direito. Não. Ele é um dever. É um dever que o cidadão tem de se comprometer, de tomar partido, de tomar consciência com relação às discussões nacionais que estão em curso, e de comparecer. É um dever dele para com o país, para com a cidadania”.
“Muitas vezes se ventila sobre o não comparecimento ser um ato de protesto. Significativamente, do ponto de vista da legislação eleitoral, isso não vai acontecer. Eleições são canceladas caso haja fraude, algum problema. Imaginando uma contrafactualidade, se nós tivermos um altíssimo número de abstenções, isso não tem impacto nenhum na legalidade da eleição”.
Quase 400 mil eleitores
Neste domingo (4), 394.921 juiz-foranos podem ir às urnas, sendo que 343.741 são obrigados, e 51.180 têm o voto facultativo. Há ainda 1.972 eleitores que votarão na cidade por terem pedido voto em trânsito.
A faixa etária mais presente no eleitorado juiz-forano é a de 35 a 39 anos, com 37.262 pessoas aptas a votarem nas seções instaladas na cidade. Do total de eleitores aptos, 55% são mulheres e 45% são homens. Desde 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a permitir o registro autodeclaratório de identidade de gênero, raça, cor e etnia. Nestas eleições, 365 pessoas se declararam transgênero, e 211 utilizarão o nome social.
Dezesseis eleitores se declararam quilombolas e 649 informaram precisar de intérprete de Libras. São 4.631 pessoas eleitoras com deficiências. Desconsiderando a categoria “outros”, a deficiência mais registrada é a de locomoção.
A maioria (122.141) tem Ensino Médio completo, seguido por Superior completo (81.509) e Fundamental incompleto (72.863). Completam o grau de instrução do eleitorado, 53.549 com Médio incompleto, 28.175 com Fundamental completo, 28.120 com Superior incompleto, 5.591 que leem e escrevem e 2.968 analfabetos.
Quanto à raça, quase 50% (29.766) dos que fizeram a declaração, se declararam brancos. Pardos são 18.829, pretos são 12.708, amarelos são 286, e indígenas, 43.
De seis a sete mil pessoas envolvidas
Para atender tantas pessoas em um dever cívico tão importante, o Cartório Eleitoral de Juiz de Fora prepara uma grande e coordenada operação. São 198 locais de votação e 1.256 seções eleitorais, com quatro mesários em cada uma (presidente, primeiro mesário, segundo mesário e secretário), totalizando 5.024 pessoas mobilizadas como mesários.
Além deles, ainda há pessoas no apoio logístico, como os coordenadores de acessibilidade, responsáveis por auxiliar pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida ou o eleitor em geral que precise dessa ajuda. Esses coordenadores são entre 600 e 800. Também no apoio logístico, há cerca de 200 pessoas de confiança que entregam as urnas nos locais de votação e depois as recolhem.
Por fim, tem quem faça o recolhimento de mídia – o resultado das urnas –, e a junta – recebimento do material e apuração na Justiça Eleitoral. Eduardo Braga, analista judiciário do Tribunal Regional Eleitoral em Juiz de Fora, calcula que há, mais ou menos, de seis a sete mil pessoas envolvidas em todo o processo.
Também há uma urna para cada seção e outras 40, chamadas de contingência. Caso alguma urna precise ser substituída, são essas que entram em ação. Embora pareça pouco comparado ao total, o número é suficiente, o que demonstra a confiabilidade de todo o processo. Nos últimos anos, segundo Eduardo, foram substituídos cerca de 1% dos equipamentos, ou entre 10 e 15, no máximo.
Nesta semana, os servidores da Justiça Eleitoral fizeram a conferência visual dos dados das urnas, verificando se está tudo de acordo. Quarta-feira (30) foi o último dia em que eles abriram urna a urna para conferir o funcionamento, e aproveitaram para arrumar o material que vai junto com as urnas, para os mesários.
O carregamento das urnas do Batalhão da Polícia Militar até os locais de votação, feito pelos veículos requisitados pelo juízo, foi feito no sábado (3). O transporte é feito para alguns poucos lugares – principalmente os que têm vigilância – no sábado mesmo, por questões de logística e estratégia, mas a maioria foi destinada aos locais de votação só neste domingo, às 5h.
Horário do almoço e parte da tarde são melhores
Eduardo Braga projeta que haja filas para votar neste domingo, por dois motivos: Primeiro, por conta do número de votos, sendo seis candidatos, o que já causa certa demora do eleitor na cabine. Portanto, a sugestão oficial é ir votar no horário do almoço ou no período da tarde, em que, historicamente, as seções ficam mais vazias. Elas funcionam das 8h às 17h.
Também pela grande quantidade de números a serem digitados, 19 no total – quatro para deputado federal, cinco para deputado estadual, três para senador, duas vezes, dois para governador e dois para presidente –, a principal recomendação do analista do TRE é de que a população leve as “colinhas” de papel, já preenchidas em casa, pois não é permitido entrar com o celular na cabine de votação.
Se, no meio do voto, a pessoa não lembrar algum número e não tiver a colinha, mesmo que já tenha votado em algum candidato, o voto precisa ser suspenso e o eleitor não pode mais retornar à cabine.
O segundo motivo que pode causar filas é a habilitação da biometria, para quem a possui. Se a identificação der algum erro na primeira vez, a coleta biométrica precisa ser feita mais quatro vezes, até ser liberado manualmente pelo presidente da seção.
Para votar, só é necessário um documento com foto, mas algumas pessoas costumam chegar apenas com o documento, sem saber qual é a seção em que vota, em um local que pode ter 10 ou 15 seções, por exemplo. Por isso, outra orientação que o eleitor deve seguir é consultar previamente seu local de votação, por meio do aplicativo e-Título, no autoatendimento do site do TSE, ligando para o número 148, ou consultando presencialmente em qualquer cartório eleitoral.

