Eleições 2026 fortalecem vereadores de JF e já projetam disputa de 2028
Eleições 2026 fortalecem vereadores de JF e já projetam disputa de 2028
(Fotos: Divulgação / Felipe Couri / Leonardo Costa)

Seis vereadores de Juiz de Fora entraram nas Eleições 2026 em busca de uma vaga na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) ou na Câmara dos Deputados. Dois conseguiram: Roberta Lopes (PL) e Sargento Mello-Casal (PL). Para os outros quatro, a disputa terminou sem mandato novo, mas com mais votos, exposição e um teste do alcance de suas bases eleitorais. Na avaliação de pesquisadores ouvidos pela Tribuna de Minas, os resultados também ajudam a projetar os movimentos políticos da cidade para 2028.

Para a ALMG, concorreram Dr. Antônio Aguiar (União), João do Joaninho (PSB), Laiz Perrut (PT), Tiago Bonecão (Democrata) e Roberta Lopes (PL). Sargento Mello-Casal (PL), por sua vez, foi o único a disputar uma vaga no Congresso Nacional.

Roberta e Mello-Casal foram eleitos, com 63.840 e 25.090 votos em todo o estado, respectivamente. Em Juiz de Fora, os dois candidatos do Partido Liberal receberam 35.736 e 19.515 votos. Os números mostram que 56% da votação de Roberta veio da cidade. No caso de Mello Casal, foram 78%.

Abaixo, a relação da votação em Juiz de Fora dos demais vereadores que tentaram novos mandatos. Entre parênteses, consta o número total de votos no estado:

  • Dr. Antônio Aguiar: 11.916 (14.380), com 83% dos votos vindos de Juiz de Fora;
  • João do Joaninho: 7.613 (9.360), com 81% dos votos vindos de Juiz de Fora;
  • Laiz Perrut: 21.246 (29.510), com 72% dos votos vindos de Juiz de Fora;
  • Tiago Bonecão: 19.564 (26.281), com 74% dos votos vindos de Juiz de Fora.
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Camila Miranda (Foto: arquivo pessoal)

“Para os quatro que não se elegeram, a disputa de 2026 funciona como teste e investimento, e o eleitor de Juiz de Fora pode reencontrá-los, mais fortes, nas urnas de 2028”, projeta Camila Miranda Evangelista, doutoranda em Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Ela faz parte do Núcleo de Estudos sobre Política Local (Nepol) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

A análise é compartilhada por ela e pelos outros dois pesquisadores do Nepol entrevistados pela Tribuna, cada um destacando pontos distintos. Entre eles, estão o fortalecimento dos nomes dos candidatos em outras regiões, para além de seus redutos eleitorais, e o crédito que podem ganhar dentro dos partidos ao contribuir para a votação necessária à eleição de outros nomes, por exemplo.

Na visão da mestranda em Ciências Sociais pela UFJF e pesquisadora do Nepol, Gabrielly Cardoso, “nenhum deles saiu do pleito com perda de capital político”. “Pelo contrário: para a maioria, mesmo a ‘não-eleição’ pode ser interpretada como certa vitória política e um investimento para os próximos pleitos, seja de 2028 (reeleição na Câmara Municipal) ou 2030 (novas disputas estaduais e federais)”, complementa.

Já o também pesquisador do Nepol e doutor em Ciências Sociais pela UFJF, Gustavo Paravizo, avalia: “Houve, sim, vitória política para quem não se elegeu. O vereador não precisa deixar o mandato para disputar a Assembleia. Se não se elege, continua na Câmara. É uma aposta de custo baixo. E é uma forma de manter o capital político ativado entre uma eleição municipal e outra, na medida em que o nome fica mais conhecido e mais exposto ao público”.

“Em resumo”, afirma Camila, “os casos analisados revelam padrões comuns. Em todos, a base eleitoral permaneceu concentrada em Juiz de Fora – de 56% dos votos, no caso de Roberta Lopes, a 83%, no de Antônio Aguiar –, e quase todos ampliaram significativamente sua votação na cidade em relação à última eleição municipal”.

Mas, como os três pesquisadores destrincharão, os percursos são diversos. Há quem combine capital convertido e delegado, quem dependa de padrinhos políticos e quem tenha esbarrado no teto de uma base fiel, porém limitada.

Por que se candidatam?

Segundo Gabrielly, em uma eleição geral tal como a de 2026, o vereador nem sempre entra pensando apenas na cadeira imediata: “Além dos que disputam a vaga real de deputado, a campanha serve para valorizar a imagem política, acessar verba do fundo eleitoral e tempo de TV, impulsionar redes sociais (fazendo uma verdadeira pré-campanha antecipada para 2028) e demonstrar peso perante o próprio grupo político, o partido e os pares na Câmara Municipal. É também um teste de capilaridade: a chance de avaliar se o nome rompe seu reduto de origem e alcança outras regiões”.

“Vale lembrar que Juiz de Fora, por ser uma cidade grande, projeta naturalmente seus vereadores”, acrescenta Gustavo. Ele resgata, por exemplo, os casos de Tarcísio Delgado, Bruno Siqueira, Marcus Pestana, Antônio Jorge, Isauro Calais, entre outros, que passaram pela Casa Legislativa antes de ganhar projeção nos cenários estadual e nacional.

Bruno, por exemplo, saiu da presidência da Câmara para a Assembleia em 2010 e, dois anos depois, foi eleito prefeito. “As estratégias variam conforme as redes de apoio, a atenção e os recursos que o partido dedica a cada candidatura, a ambição política de cada um e a capacidade de conversar para além da cidade. A Zona da Mata tem cerca de 2,2 milhões de habitantes, e Juiz de Fora responde por mais ou menos um quarto disso. Conseguir falar com a região já é um passo relevante”, pontua o doutor em Ciências Sociais.

Além disso, nas eleições gerais, o candidato também sai sabendo onde está seu voto, seção por seção, e com mais peso para negociar dentro do partido. Nas relações internas dos diretórios, entra outro ponto importante: vereadores podem disputar a eleição a pedido da própria legenda, sem necessariamente buscar uma vaga, mas levando para a chapa um volume de votos que ajuda a eleger outros candidatos.

“Desde o fim das coligações nas eleições proporcionais, os partidos dependem ainda mais de nomes com voto para montar chapas competitivas. Esse cálculo ajuda a entender as candidaturas do Dr. Antônio Aguiar e do João do Joaninho. Com a votação muito concentrada em Juiz de Fora, a contribuição mais visível dos dois foi para a chapa dos respectivos partidos”, exemplifica o pesquisador. Os votos do pessebista podem ter ajudado a garantir a cadeira de Noraldino, por exemplo, “e quem cumpre esse papel ganha crédito interno, que pode ser cobrado lá na frente”.

O pesquisador reitera o peso do partido. Laiz e Tiago tiveram mais votos do que Mello-Casal. Embora tenham disputado eleições diferentes, para a Assembleia e para a Câmara dos Deputados, a lógica do sistema proporcional é semelhante: “Quem define o número de cadeiras é a soma dos votos do partido, e o PL teve o Nikolas Ferreira com mais de 3 milhões de votos em Minas. O desempenho individual explica só parte do resultado”.

Teto municipal

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Gabrielly Cardoso (Foto: Divulgação)

No geral, comparando a votação dos nomes citados agora com a de 2024, o crescimento é expressivo. Há, claro, uma ressalva feita tanto por Gustavo quanto por Gabrielly: em 2024, eram 365 candidatos a vereador dividindo o voto da cidade, enquanto, para deputado, o eleitor juiz-forano concentra a escolha em poucos nomes locais.

A questão é que esse crescimento encontra um limite, como explica Gustavo: “Juiz de Fora, sozinha, dificilmente elege um deputado estadual. A cidade dá a base, mas o que costuma decidir é o voto de fora”.

Ele mostra isso na prática: Laiz Perrut (21.246 votos) e Tiago Bonecão (19.564) tiveram mais votos em Juiz de Fora do que Delegada Sheila (PL), que recebeu 14.928 votos na cidade e foi reeleita. Fora do município, no entanto, Laiz obteve pouco mais de 8 mil votos, e Tiago, menos de 7 mil.

“A diferença está no restante do estado. A Sheila fez cerca de 55 mil votos fora da cidade, o Noraldino (PSB), mais de 63 mil, o Betão (PT), quase 34 mil e a Roberta Lopes, 28 mil. O Dr. Antônio Aguiar e o João do Joaninho ficaram abaixo de 2,5 mil cada, menos do que eles mesmos tiveram só em Juiz de Fora quando se elegeram vereadores em 2024. Quando 70% ou 80% da votação vem de um único município, a candidatura esbarra num teto”, elenca Gustavo Paravizo.

Esse voto regional costuma ser construído por intermediários, como prefeitos, vereadores e lideranças das cidades da região, que pedem voto para um deputado e esperam, em troca, emendas e acesso ao Governo do Estado, conforme explicado pelo cientista político: “O deputado com mandato chega à eleição com essa rede montada. O vereador de Juiz de Fora tem pouco a oferecer a essas lideranças, e boa parte delas já está comprometida com quem ocupa cadeira na Assembleia”.

Roberta e Laiz

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Gustavo Paravizo (Foto: Divulgação)

Gustavo avalia que Roberta e Laiz foram as que mais cresceram em relação às Eleições Municipais de 2024. Embora apenas a estratégia da deputada eleita pelo PL tenha resultado em uma cadeira, tanto ela quanto a petista estiveram entre os nomes mais identificados com os dois partidos que disputaram a Presidência.

“Roberta já é uma liderança consolidada nas mídias sociais e reconhecida no estado como uma representante da ultradireita. Ser a mais votada em Juiz de Fora a coloca como a principal força eleitoral individual de oposição ao PT na cidade. (…) Ela será muito importante para puxar votos para o partido de Nikolas e para esse grupo conservador crescente”, analisa Gabrielly.

A pesquisadora aponta que, além disso, Roberta contou com a dobradinha com o candidato a deputado federal mais votado do país, Nikolas Ferreira. O fato de ter conquistado 44% de seus votos fora de Juiz de Fora também “a fortalece frente ao seu grupo político e aos interesses e estratégias de seu padrinho”, segundo Gabrielly.

Camila, por sua vez, traz outra possibilidade para o futuro. Com o capital político e eleitoral acumulado, Roberta Lopes pode se colocar à disposição do PL para disputar a Prefeitura de Juiz de Fora em 2028. Só na cidade, obteve em 2026 cerca de 4,5 vezes a votação de 2024, indicando uma ampliação expressiva do capital político acumulado durante a vereança.

A doutoranda em Ciências Sociais explica os fatores que podem favorecer essa possibilidade: “Como deputada, ela pode concorrer sem renunciar ao mandato, o que reduz os riscos da tentativa; a eleição será aberta, já que a prefeita Margarida Salomão (PT) não pode buscar um terceiro mandato; e sua votação na cidade cresceu de forma expressiva entre 2024 e 2026”.

“Por outro lado”, pondera Camila, “uma eleição majoritária, com segundo turno, exige muito mais do que uma base fiel, sobretudo numa cidade com histórico de voto progressista para a prefeitura. Além disso, como parte importante de seu capital político está ligada ao grupo de Nikolas Ferreira, uma eventual candidatura dependerá também da estratégia do partido”.

Laiz tentou uma estratégia semelhante, mas sem sucesso na eleição, em dobradinha com a deputada federal reeleita Ana Pimentel (PT), oitava mais votada em Minas. Ainda assim, na leitura de Gabrielly, a vereadora é quem sai mais fortalecida entre os não eleitos: “Consolida-se como liderança jovem forte no PT, atrai holofotes e prova ao partido que é uma aposta em ascensão que precisa ser valorizada para 2030, além de entrar forte em 2028”.

Isso tudo, vale dizer, em meio a uma intensa disputa por espaço e reconhecimento dentro do próprio diretório local do PT. Segundo dirigentes do partido, uma ala temia que a candidatura de Laiz prejudicasse a reeleição do deputado estadual Betão. Como destaca Camila, no entanto, os votos da vereadora podem ter contribuído para a chapa e, consequentemente, beneficiado o próprio candidato cuja reeleição supostamente estaria ameaçada.

Camila compartilha da avaliação de Gabrielly. Ainda que não tenha conquistado uma cadeira na Assembleia Legislativa, a disputa parece ter ampliado o capital político de Laiz. Em Juiz de Fora, ela obteve aproximadamente 4,4 vezes a votação que a reelegeu vereadora em 2024. Candidaturas a deputado, mesmo derrotadas, conferem visibilidade e podem ajudar a manter o vereador competitivo na disputa pela reeleição ou em projetos futuros, como uma nova candidatura a deputada.

Bonecão e Mello

“Tiago Bonecão, vereador de votação muito territorializada, tentou abrir esse caminho para deputado estadual fazendo o mesmo com Eduardo Cunha (Republicanos) para federal. A estratégia pode ter perdido força porque a candidatura de Cunha foi indeferida pela Justiça Eleitoral”, acrescenta Gustavo.

Gabrielly reforça que o parlamentar municipal tem seu reduto na Zona Leste, onde obteve praticamente o dobro de sua votação total de 2024. Ela observa também que Bonecão vinha se articulando para a candidatura a deputado há anos, inclusive com viagens a cidades vizinhas. Fora de Juiz de Fora, obteve quase 7 mil votos. “Politicamente, ele pavimentou uma reeleição municipal mais tranquila para 2028. Sai grande desse pleito”, afirma.

Para Camila, a derrota eleitoral de Bonecão também não representa, necessariamente, uma derrota política. Em 2026, sua votação na cidade foi cerca de 3,4 vezes a da última eleição municipal. “Além disso, a candidatura contou com forte apoio do vice-prefeito Marcelo Detoni (PSB), o que indica que parte do capital mobilizado foi transferida por meio de alianças que ultrapassam a filiação partidária”.

Já Mello-Casal, novo deputado federal juiz-forano, é outro possível nome para o Poder Executivo municipal em 2028, segundo Camila, que o considera “a principal voz de oposição à prefeita Margarida Salomão”: “Seus quase 20 mil votos na cidade também o cacifam como um nome forte da direita para a disputa pela Prefeitura nos próximos ciclos”.

Ainda na análise da doutoranda, “Mello-Casal é um bom exemplo de que a derrota pode preparar a vitória”, tendo ampliado seu capital político ao longo de pleitos anteriores: “Eleito vereador pelo PTB em 2016, com 2.306 votos, e reeleito em 2020, com 2.783, disputou a Câmara dos Deputados em 2022, ainda pelo PTB, e obteve 17.162 votos, sem se eleger. A derrota, no entanto, parece ter ampliado sua visibilidade. Em 2024, já filiado ao PL, foi reeleito vereador com 7.590 votos, quase o triplo da eleição anterior”.

“A comparação entre 2022 e 2026 indica, ainda, o peso do capital delegado pelo partido. Com uma votação apenas 46% maior, a migração para o PL, legenda que teve no estado a votação recorde de Nikolas Ferreira, foi decisiva para a eleição”, completa.

Mello-Casal também é destacado por Gabrielly como um caso “de fidelidade de nicho somada à força de legenda”. Eleger-se deputado federal com 25 mil votos é um feito raro: ele teve a menor votação entre os eleitos pelo estado e concentrou 78% dos votos em Juiz de Fora. “O que viabilizou a vaga foi o quociente do PL em Minas, que elegeu 21 deputados federais”, lembra.

Antônio Aguiar e João do Joaninho

Os dois vereadores com as menores votações não disputaram essas eleições necessariamente com a expectativa de chegar à Assembleia Legislativa, mas com a intenção de proteger território em Juiz de Fora, em um contexto que tende a espremer candidaturas menos ideológicas e polarizadas. É o que avalia Gabrielly. “Ambos tiveram campanhas hiperconcentradas na cidade (mais de 80% locais) e usaram o pleito para lembrar ao eleitor de que estão aqui, fidelizar bases e reativar apoiadores. Em todos os casos, é importante ressaltar que esses números não vão, necessariamente, se repetir em 2028”, observa a pesquisadora.

“O ganho real desses vereadores não é herdar 20 mil votos prontos daqui a dois anos, mas sim irrigar suas bases primárias, demonstrar força, afastar concorrência nos seus redutos e se firmar como pontos focais e puxadores de votos para as nominatas de seus partidos em 2028”, conclui.

Camila apresenta o caso de Aguiar como um contraponto importante. Segundo ela, o vereador “representa a trajetória mais marcada pela ambição estática entre os casos analisados”. Ele foi eleito pela primeira vez para a Câmara Municipal em 2012 e reeleito em 2016 e 2020, sempre com não mais do que 500 votos. Em 2022, tentou uma vaga de deputado estadual e, mesmo obtendo cerca de quatro vezes a votação que costumava alcançar para a Câmara, não se elegeu.

Em 2024, foi eleito para o quarto mandato de vereador, com cerca de mil votos a mais do que na primeira eleição. Suas votações estão ligadas ao reconhecimento profissional como médico pediatra na cidade e a um eleitorado fiel, conquistado ao longo desses 14 anos. O capital político é sólido no município, mas encontra dificuldades para se expandir, o que evidencia uma exceção ao argumento presente na Ciência Política de que candidaturas derrotadas a deputado podem fortalecer o vereador.

Por fim, a trajetória de João do Joaninho ilustra “a descontinuidade que costuma ser traço marcante das carreiras de vereadores, interrompidas sobretudo por derrotas na tentativa de reeleição”.

Eleito pela primeira vez para a Câmara Municipal em 2004 e reeleito em 2008, foi derrotado em 2012, 2016 e 2020 e só retornou à Casa Legislativa em 2024, eleito pela distribuição das sobras entre os partidos.

“Sua votação relativamente estável ao longo de duas décadas indica uma base própria fiel, porém limitada, e o retorno à vereança dependeu em grande medida do desempenho da legenda”, conclui Camila. Neste ano, João obteve aproximadamente 2,5 vezes a votação de 2024. Não se elegeu, mas ficou como suplente. A possibilidade de exercer um mandato dependeria, por exemplo, do afastamento de deputados eleitos para ocupar cargos no Executivo.