

Duas vagas em disputa, cinco candidatos tecnicamente empatados e um eleitorado que ainda não definiu seus votos. Na pesquisa Datafolha para o Senado por Minas Gerais publicada na última quinta (24), 67% dos entrevistados não souberam indicar espontaneamente em quem pretendem votar. Mas o que pesa nessa escolha? Entre a influência da polarização nacional, a trajetória dos candidatos e as demandas do estado, a Tribuna de Minas ouviu dois cientistas políticos para entender o comportamento do eleitor mineiro e o papel dos futuros senadores em Brasília.
Divulgada em 24 de setembro, a pesquisa mostrou um empate técnico entre candidaturas, considerando a margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos: Marília Campos (PT), com 13%; Carlos Viana (PSD), com 11%; Aécio Neves (PSDB), também com 11%; e Domingos Sávio (PL), com 9%.
Não bastasse o empate, as duas vagas em disputa tornam a dinâmica eleitoral mais complexa, devido às possíveis combinações de votos. Na indicação do primeiro voto, Marília aparece com 18%, seguida por Aécio, com 15%. Já na indicação do segundo, Carlos Viana, Domingos Sávio, Áurea Carolina (PSOL) e Marília Campos aparecem com 8% cada.
A professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Marta Mendes da Rocha, explica que existe um efeito de arrasto da eleição presidencial sobre a eleição legislativa, chamado de “efeito coattail” na literatura política. A expressão “ride on someone’s coattails” significa aproveitar-se do sucesso ou viver à sombra de alguém.
Por isso, a doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) acredita que existe uma influência da polarização nacional no voto para senador, oferecendo algum tipo de atalho para quem vota.
“Mas outros fatores também contam: o quanto o candidato é ou não é conhecido, a trajetória política do candidato ou da candidata, como que esse candidato ou candidata se posiciona em relação a algumas questões nacionais”, ressalta.

Também doutor em Ciência Política pela UFMG, Paulo Magalhães Araújo reconhece que a literatura sobre o comportamento eleitoral ainda enfrenta dificuldades para explicar todas as escolhas do eleitor. “Existem muitas ideias e, na verdade, o que ela mostra é que o comportamento do eleitor é extremamente complicado e difícil de entender”, pondera.
Mesmo assim, o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) concorda com Marta sobre a influência da polarização. Segundo ele, outros elementos também entram nessa conta.
“Mas entra, também, obviamente, uma avaliação do eleitor – ou pelo menos de alguns eleitores – sobre o passado do candidato, o que ele defendeu, de que partido ele é, qual é a relação do partido e do candidato com os políticos locais e o Poder Executivo”, elenca.
Minas são muitas demandas
Ao comentar as demandas do estado, Paulo cita o escritor mineiro João Guimarães Rosa: “Minas são muitas”. Como também são muitas as questões a que os eleitos deverão dar atenção, e que valem, portanto, uma avaliação mais cuidadosa do eleitor quanto ao que está sendo prometido por cada um. “Espera-se muito deles”, completa Marta.
Entre os desafios mineiros, a professora destaca a situação financeira e fiscal do estado, que possui uma dívida de cerca de R$ 188 bilhões com a União. Também aponta problemas de infraestrutura e logística, especialmente em um território tão extenso, com demandas relacionadas ao transporte rodoviário e ferroviário.
Diante das desigualdades e especificidades de cada região, Marta lembra ainda a mineração e a segurança das barragens, questões que já tiveram graves consequências para a população mineira.
“Tem a questão da mineração, da segurança das barragens. A gente viveu uma série de situações que muitos vão chamar de tragédias, mas que a gente pode chamar de verdadeiros crimes ambientais, porque poderiam ter sido evitadas, com mais fiscalização, melhor regulamentação, e que tiveram impactos e consequências incomensuráveis, do ponto de vista do meio ambiente e da vida das pessoas”, analisa.
Senado x STF
Além da elaboração de políticas públicas, por meio da apresentação de projetos de lei e emendas, os senadores também têm um papel importante na questão orçamentária, seja na fiscalização do Executivo, seja na destinação de recursos por meio de emendas parlamentares.
Neste pleito, porém, uma das questões mais delicadas sobre a atuação do Senado, segundo Paulo, será a relação institucional da Casa com outras instâncias de poder e controle, como o Executivo, o Judiciário e a Procuradoria-Geral da República.
Marta lembra que o Senado exerce uma função importante ao aprovar ou rejeitar indicações feitas pelo presidente da República para instituições como o Banco Central e o Supremo Tribunal Federal (STF). Da mesma forma, pode propor e encaminhar o impeachment de um juiz e derrubá-lo, caso não esteja agindo de acordo com o interesse da maioria dos senadores, complementa Paulo.
Paulo classifica como “muito grave” a “briga” que existe atualmente entre determinados grupos políticos e o Judiciário.
“Você tentar combater, coibir, impedir, ou limitar a atuação de um poder importante como esse – a despeito da crise que está enfrentando agora, em Brasília – pode ter um impacto nacional mais forte, e eu acho que essa deve ser a preocupação. Não existe uma democracia forte sem um judiciário forte”, observa o pesquisador.

Apertos de mão e tapinhas nas costas
Marta ressalta que a atuação de um senador exige capacidade de articulação das políticas nacionais, “não só do ponto de vista do financiamento, mas também da gestão, que envolve uma capacidade de construir consensos, compromissos, envolvendo os políticos, os governos, a sociedade civil nos três níveis”.
Isso porque o sistema político brasileiro é classificado, na literatura científica, como uma “democracia consensual”, explica Paulo. “As decisões, quase sempre, exigem a aproximação de opiniões diferentes, ou diversas, na formação de uma opinião majoritária”, pontua.
“Os Estados Unidos, por exemplo, são uma democracia majoritária. Lá, frequentemente, o presidente é de um partido, a maioria no Senado e a maioria na Câmara também são do mesmo partido. Então, você tem um governo de maioria. O partido que é majoritário detém o governo, de forma que a oposição minoritária pode fazer muito pouco”, compara.
O senador, aqui, não tem a obrigação institucional de representar a diversidade populacional, “embora, é claro, para ganharem créditos eleitorais, eles se esforcem para isso”, explica o pesquisador da UFES. “Na verdade, a função de representação de um senador é territorial”, destaca. Assim, quando os interesses estaduais entram em confronto com questões nacionais, os senadores são chamados a atuar em defesa de seus respectivos estados.
Já a Câmara dos Deputados, eleita pelo sistema proporcional, busca assegurar a representação da diversidade da sociedade brasileira, embora isso nem sempre se concretize. “A gente sabe que isso não acontece. Por exemplo, 52% dos eleitores são mulheres no Brasil, ao passo que, na Câmara dos Deputados, nós temos, hoje, cerca de 17% de mulheres apenas”, reconhece Paulo.
A desigualdade também aparece no Senado, onde as mulheres ocupam menos de 20% das cadeiras. Em Minas Gerais, os três representantes atuais são homens.
Propostas empobrecidas e atalhos cognitivos
Apesar da importância das atribuições do Senado, Marta avalia que existe atualmente um “empobrecimento muito grande das propostas” apresentadas pelos candidatos, muitos dos quais apostam em atributos pessoais para conquistar votos. Para a professora, é importante que o eleitor observe se as pautas defendidas podem fazer diferença em sua vida e, principalmente, como cada candidato pretende colocá-las em prática.
“Às vezes são pautas que mobilizam raiva, que mobilizam emoções, mas vão fazer efeito na quantidade de alimentos que eu estou conseguindo levar para minha casa? Isso vai impactar minha qualidade de vida, o preço da conta de água, o preço da conta de luz, a qualidade do ar que eu estou respirando?”, questiona.
Ela também cita questões como segurança, saúde e educação, frequentemente apontadas entre as principais preocupações da população nas pesquisas de opinião.
“A gente tem eleição de dois em dois anos, então é reservar, realmente, um momento de atenção para um assunto que é muito importante, que vai ter consequências muito efetivas e diretas nas nossas vidas”, afirma Marta. Para isso, recomenda a leitura das propostas, a consulta a diferentes fontes de informação e o cuidado com a desinformação.
Paulo, por sua vez, chama a atenção para o uso dos chamados atalhos cognitivos: quando o eleitor recorre às opiniões e escolhas de outras pessoas para tomar sua própria decisão, sem necessariamente buscar informações sobre os candidatos.
“O que é de lamentar é que, na verdade, em geral, o eleitor mediano não presta atenção”, sente o professor.
Segundo o professor, esse comportamento pode ocorrer tanto pela confiança depositada em determinadas pessoas quanto pela identificação com seus discursos. “E isso, inclusive, tem a ver com a polarização, ela é uma das formas de se escolher”, conclui.

