Os dois principais candidatos na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT), participaram na noite desta terça-feira (29) do último debate da TV Globo antes do primeiro turno das eleições, no próximo domingo (4). Em quatro blocos, os candidatos debateram segurança, saúde, contas públicas, educação, transporte, com citações as privatizações no estado, o avanço do PCC (Primeiro Comando da Capital), e a nacionalização por meio dos nomes de Lula e Bolsonaro.
Segurança e saúde provocam troca de acusações no primeiro bloco
Haddad abriu o primeiro bloco escolhendo a segurança pública na região de Piracicaba. Após ironizar a ausência de Tarcísio em outros confrontos diretos, questionou o governador sobre notícias que apontam a presença do Comando Vermelho no interior e no litoral paulista.
Tarcísio destacou a realização de operações contra o PCC, a redução de indicadores criminais e as ações na região da Cracolândia. Ao comentar a situação de Piracicaba, afirmou que os criminosos “hoje estão presos, porque a polícia trabalhou”. “A gente vai continuar combatendo o crime com firmeza”, acrescentou.
Haddad respondeu citando um suposto sucateamento das forças policiais. Tarcísio reconheceu que ainda existem problemas, mas disse que parte deles ocorre em escala nacional e mencionou os concursos promovidos para reforçar as corporações paulistas.
A discussão avançou para as relações políticas dos candidatos. Haddad citou a busca de apoio de Tarcísio junto ao ex-vereador Milton Leite. O governador afirmou que a relação era institucional e rebateu mencionando o vereador Senival Moura (PT) e a presença da lobista Roberta Luchsinger em um palanque do petista.
Os dois também reivindicaram participação nos resultados da Operação Carbono Oculto. Haddad usou sua passagem pelo Ministério da Fazenda para defender a integração entre os governos no combate ao crime organizado, enquanto Tarcísio ressaltou a atuação das autoridades estaduais.
Na saúde, Haddad criticou as filas e afirmou que “o Cross, o sistema atual, não dá conta do problema”. Tarcísio respondeu citando novos leitos e a aceleração das cirurgias eletivas. “Estamos fazendo a diferença, inclusive lá na Baixada”, disse, antes de acusar o petista de descumprir metas quando administrou a capital.
Haddad ainda questionou a “herança” deixada pelo governo de Jair Bolsonaro (PL) na saúde após a pandemia. Tarcísio rebateu dizendo que o petista teria descumprido nove de dez metas da saúde durante sua gestão na prefeitura de São Paulo. Os dois ainda divergiram sobre o uso de tecnologia e a autoria de hospitais entregues no estado.
Debate fiscal ganha dimensão nacional no segundo bloco
O segundo bloco foi marcado pela nacionalização das discussões sobre benefícios fiscais, emprego e equilíbrio das contas públicas. Haddad questionou Tarcísio sobre a recomendação do Tribunal de Contas do Estado para ampliar a transparência sobre as empresas beneficiadas por incentivos.
Tarcísio afirmou que sua gestão cortou “todos aqueles benefícios que não faziam sentido” e passou a divulgar informações sobre os benefícios fiscais. Como exemplo, citou a Nota Fiscal Paulista, que, segundo ele, permite identificar os incentivos relacionados a diferentes produtos.
O governador também questionou Haddad sobre propostas para mães atípicas. O petista relatou encontros com essas famílias e criticou a falta de profissionais para acompanhar as crianças nas escolas estaduais. Tarcísio o chamou de “Pinóquio” e afirmou que contratou assistentes para a rede de ensino.
Ao discutir a situação fiscal, Tarcísio citou empresas em recuperação judicial, como Casas Bahia, Marabraz e Habib’s, e defendeu a necessidade de ajuste nas contas públicas. Haddad respondeu mencionando o pagamento federal de precatórios acumulados e os efeitos da taxa de juros.
O petista disse que o governo federal promoveu o ajuste “sem vender estatal” e citou a reforma tributária e a redução do desemprego. Também questionou se Tarcísio pretendia reproduzir no Brasil a política econômica do presidente argentino, Javier Milei.
Tarcísio afirmou que o governo Bolsonaro enfrentou uma pandemia e acusou a União de descumprir o arcabouço fiscal, o que classificou como “negacionismo fiscal”. Haddad, por sua vez, apontou déficit orçamentário e baixo crescimento paulista. O governador rebateu dizendo que o estado teve superávit e reduziu a dívida: “A gente não pode comparar abacaxi com laranja”.
Terceiro bloco tem transporte e educação em disputa por entregas
Tarcísio abriu o terceiro bloco questionando Haddad sobre o transporte público na Região Metropolitana de São Paulo. O governador citou o avanço da Linha 6-Laranja, as ampliações das linhas 2-Verde, 4-Amarela e 5-Lilás e projetos para os trens metropolitanos.
Haddad respondeu que a história do metrô antecede a atual gestão e atribuiu parte das obras ao financiamento federal do PAC, que, segundo ele, foi abandonado durante o governo Bolsonaro. Como proposta, defendeu um bilhete integrado para diferentes regiões: “Você acha justo quem trabalha longe ter de pagar três conduções?”.
Tarcísio reconheceu a complexidade da integração e afirmou ter retomado obras interrompidas por casos de corrupção, voltando a citar a Lava Jato. Haddad mencionou a renegociação das dívidas estaduais como fonte de recursos, enquanto o governador questionou o ganho líquido obtido por São Paulo e disse que o estado procurou a União.
Os candidatos também divergiram sobre as privatizações. Haddad classificou o processo como “desenfreado” e afirmou que as concessões oneram o estado, dificultam a integração e aumentam as falhas. “A gente não faz privatização por fazer, a gente faz para melhorar o serviço. Vocês vão ver o transporte melhorando”, rebateu Tarcísio.
Na educação, Haddad citou uma suposta queda do Ideb paulista e questionou as políticas para a região de Campinas. Tarcísio destacou ações de alfabetização na idade certa, reforço de Matemática e melhora no Pisa. O governador também acusou o petista de não cumprir promessas na Prefeitura de São Paulo; Haddad respondeu que foi o prefeito que mais criou vagas na educação infantil.
Haddad propôs uma reforma do Ensino Médio baseada em experiências internacionais e discutida com especialistas, além de relacionar a redução da evasão ao Pé-de-Meia. Tarcísio defendeu reduzir itinerários e ampliar o ensino técnico.
O principal momento para o atual governo aconteceu neste momento. Haddad ficou sem resposta no fim do terceiro bloco após Tarcísio afirmar que a educação paulista foi certificada com o Selo Ouro do MEC (Ministério da Educação), certificação que reconhece os estados e municípios com excelência e resultados efetivos nas políticas públicas de alfabetização na idade certa. Após um tempo sem responder, Haddad disse desconhecer o reconhecimento, que falava sobre os indicadores.
Última parte de discussão tem foco em privatizações e Lula e Flávio
No último bloco, com tema livre e dez minutos para cada candidato, Tarcísio escolheu a resiliência hídrica. Haddad mencionou ações federais contra secas, incêndios e mudanças climáticas, enquanto o governador apresentou propostas de adaptação, desassoreamento de rios e fortalecimento da Defesa Civil.
Tarcísio perguntou ao adversário sobre o Integra Tietê, mas Haddad iniciou a resposta criticando a privatização da Sabesp e citando um alerta para que moradores da Baixada Santista não consumissem a água. “Como vamos discutir a despoluição do Tietê sem resolver o saneamento básico?”, rebateu o governador, ao defender os investimentos realizados.
Haddad mencionou quatro mortes associadas a obras da Sabesp. Tarcísio lamentou as ocorrências, mas afirmou lamentar ainda mais a falta de acesso ao saneamento enfrentada por milhões de brasileiros. Após o petista levar a discussão para a segurança, o governador retomou a pergunta sobre o Integra Tietê, que Haddad disse não conhecer.
No debate sobre habitação, Haddad citou as entregas do Minha Casa, Minha Vida na Capital e afirmou que pretende usar o Plano Diretor elaborado durante sua gestão como referência para municípios do interior. Tarcísio respondeu exaltando o trabalho do atual prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes.
Nas considerações finais, Tarcísio destacou obras de sua gestão e retomou propostas para mães atípicas, educação e transporte. Haddad ressaltou os dados apresentados e incentivou os eleitores a conferi-los. Os dois também reforçaram seus apoios presidenciais, Tarcísio a Flávio Bolsonaro e Haddad a Lula, e às respectivas candidaturas ao Senado.
Regras
Os candidatos puderam andar livremente pelo estúdio para debater e aprofundar suas propostas e planos de governo, em uma discussão mediada por jornalistas.
O debate teve quatro blocos: o primeiro e o terceiro voltados a temas específicos e pré-determinados. Em cada bloco, foram discutidos dois assuntos. Os candidatos escolheram temáticas para debate entre seis eixos previamente definidos pela equipe de jornalismo da Globo. Além do tema, o candidato escolheu uma região do estado de São Paulo, relacionando o tópico ao local selecionado. A ordem de escolha no primeiro bloco foi definida por sorteio.
O segundo e o quarto blocos tiveram tema livre. Cada candidato teve de gerenciar 10 minutos para conduzir a discussão. A ordem de fala no segundo foi definida por sorteio, enquanto o último período foi ser introduzido pelo outro postulante.
Cada bloco teve duração de 20 minutos. Ao final dos quatro momentos de debate, os candidatos apresentaram suas considerações finais.

