A The Economist voltou os olhos para o Brasil e não economizou nas críticas. Em uma extensa análise sobre a corrida presidencial, a revista britânica traça um cenário preocupante para o país e afirma que a maior economia da América Latina caminha para “mais polarização e estagnação, ou algo pior”.

Lula e Flávio Bolsonaro, os dois principais nomes da disputa, estão no centro das críticas. O tom começa pelo título escolhido pela própria The Economist: “O próximo presidente do Brasil será ou um ‘nepo-baby vingativo’ ou um ‘esquerdista cambaleante’”.

O “nepo-baby vingativo” é Flávio Bolsonaro. O “esquerdista cambaleante” é Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas a crítica da publicação vai muito além dos candidatos. O diagnóstico apresentado pela revista é de um país com enormes riquezas e oportunidades, mas que continua incapaz de transformar todo esse potencial em crescimento sustentado.

A The Economist destaca as reservas de petróleo, a força do agronegócio, a abundância de energia, os minerais estratégicos, a Amazônia e o tamanho do mercado brasileiro. O problema, segundo a publicação, é que o Brasil vem ficando para trás.

Lula: idade avançada, gastos e poucas reformas

Ao falar de Lula, a The Economist reconhece pontos positivos. A revista destaca sua defesa da democracia e sua posição em relação à proteção ambiental. Depois disso, as críticas aumentam.

A publicação chama atenção para o fato de Lula estar prestes a completar 81 anos e faz uma comparação direta com Joe Biden. O ex-presidente americano tinha a mesma idade quando abandonou a disputa pela reeleição nos Estados Unidos em 2024.

Na economia, o diagnóstico é ainda mais duro. Segundo a The Economist, Lula fez pouco para liberar o potencial de crescimento brasileiro ou conter o aumento dos gastos públicos.

A revista afirma ainda que o governo avançou pouco em grandes reformas econômicas, destacando como exceção a simplificação dos impostos sobre o consumo. Outro sinal de alerta está na dívida pública. Segundo a publicação, o governo caminha para terminar o mandato com a maior conta de juros da dívida em 25 anos.

Flávio Bolsonaro: urnas, clima e o peso do pai

Se Lula recebe críticas pesadas, Flávio Bolsonaro também não é poupado. A The Economist chama atenção para as posições do senador sobre as mudanças climáticas e o sistema eleitoral brasileiro.

Segundo a publicação, Flávio questiona a responsabilidade humana pelas mudanças climáticas e levanta dúvidas sobre a integridade das urnas eletrônicas. A revista também relembra investigações anteriores envolvendo o senador e acusações sobre supostas ligações com criminosos violentos, alegações que ele nega.

E o peso de Jair Bolsonaro aparece como elemento central da análise. Para a The Economist, a candidatura de Flávio está profundamente ligada ao legado político e à situação jurídica do pai. A revista destaca a defesa de um perdão ao ex-presidente entre as principais bandeiras associadas à candidatura.

É nesse contexto que a publicação escolhe a expressão “nepo-baby vingativo” para definir Flávio Bolsonaro.

O problema, segundo a The Economist, é maior que Lula e Bolsonaro

A revista argumenta que trocar apenas o nome no Palácio do Planalto não resolve os problemas estruturais brasileiros. Dois deles recebem destaque: corrupção e gastos públicos.

A The Economist sustenta que nenhum dos dois principais candidatos apresenta uma resposta convincente para enfrentar essas questões.

Um dado chama especialmente a atenção na reportagem: cerca de 92% dos gastos do governo brasileiro seriam determinados por leis ou pela Constituição. Na prática, segundo a análise, sobra pouco espaço para qualquer governo cortar despesas e reorganizar as contas públicas.

E a conta pode ficar cada vez mais pesada. A revista alerta que o crescimento da dívida pode manter os juros elevados, encarecer o crédito e retirar dinheiro de investimentos que poderiam aumentar a produtividade e fazer a economia crescer.

Em um cenário mais grave, a The Economist descreve o risco de um círculo vicioso: dívida maior, custos de financiamento mais altos, pressão sobre o real, inflação e recessão.

Banco Master e a desconfiança nas instituições

A crise envolvendo o Banco Master também entra na análise. A The Economist aborda as investigações envolvendo Daniel Vorcaro e as conexões reveladas entre personagens do caso e integrantes do Supremo Tribunal Federal.

Para a revista, episódios como esse alimentam o cinismo e aumentam a desconfiança dos brasileiros em relação às instituições.

Ainda assim, a publicação faz uma ressalva importante: nem tudo está quebrado. A The Economist destaca a atuação da Polícia Federal, a existência de uma imprensa independente e a reputação internacional da diplomacia brasileira como exemplos de instituições que continuam funcionando.

Um país pronto para decolar, mas que continua na pista

É no final que a revista usa uma das imagens mais fortes da análise.

A The Economist lembra Brasília, construída na década de 1950 como símbolo de um Brasil moderno e ambicioso. Vista de cima, a capital é frequentemente associada ao desenho de um avião.

Era a imagem de um país pronto para decolar.

O Brasil continua tendo petróleo, alimentos, energia, minerais, recursos naturais, uma enorme população e algumas das maiores oportunidades econômicas do mundo.

Mas, depois de décadas de promessas de que o país finalmente realizaria todo o seu potencial, o diagnóstico da The Economist é provocador.

O avião ainda não decolou.

O Brasil continua na pista.