

Quando a Varanda começou a elaborar seu segundo álbum, já conversavam sobre as vontades que tinham em relação ao que experimentar depois de “Beirada” — dentre elas, um trabalho que levasse nome esquisito ou muito longo. O segundo ganhou: “Às vezes um sonho pode ser um planeta inteiro ou uma canção ou uma cama com travesseiro de pluma de ganso ou um apagão ou a grande luz no meio desse grande túnel no qual estamos inegável infalível incansavelmente passageiros” foi escolhido pela banda formada por Amélia do Carmo (voz), Augusto Vargas (baixo e voz), Bernardo Merhy (bateria) e Mario Lorenzi (guitarra).
A obra abreviada como “Às vezes um sonho…” navega por diferentes camadas oníricas, explorando tanto o deslumbre provocado pela fantasia quanto os labirintos que podem ser trazidos pelo devaneio. O trabalho vem ao mundo depois da banda subir ao palco do Lollapalooza em 2026 e da vocalista participar do Masterchef Brasil, trazendo também os próprios sonhos para esse processo criativo.
A gravação do álbum, inclusive, aconteceu concomitantemente com as gravações do reality show culinário, em São Paulo. Foram dez dias no estúdio (em um processo que a vocalista e amante da cozinha define apenas como “insanidades”) e depois um mês e meio para mixar e masterizar o disco. Para a banda, isso aconteceu por um motivo bem evidente: desde o primeiro trabalho, foram dois anos na estrada, tocando junto e amadurecendo – o que permitiu que as demos do álbum já estivessem mais robustas.
“Acho que a gente vai se acostumando com as dinâmicas de banda, de tocar com o outro e construir arranjo, e tudo flui de maneira mais natural para darmos espaço e saber a hora de cada um brilhar”, afirma Augusto. Esse encaixe também ocorreu na composição: as colaborações foram cada vez mais frequentes, no que Mário descreve, brincando, como quase um trabalho escolar, em que um fazia a introdução e o outro terminava, sempre juntando as ideias.
A experiência de estrada fez também com que se conhecessem musicalmente melhor e se sentissem prontos para experimentar mais. Naquele momento, Mario também explica que estavam influenciados pelo que estavam mais gostando de escutar, como Duster e Yo la Tengo. “Entendemos o que a gente curtiu fazer e o que a gente gostaria de explorar. Acho que tudo isso contribuiu e é bom que a gente tenha absorvido alguma coisa. Olhando para trás e para esse trabalho agora, dá para entender que a gente amadureceu mesmo”, diz Amélia. “Um pouco, pelo menos”, continua ela.
Parte fundamental desse processo foi escolher o single “Anjo de papel” para guiar o álbum, dando início à nova era da Varanda de maneira bem distinta da animada “Vida pacata”, em 2024. “Anjos de papel/ Nuvens de algodão/ Olhos que dividem mundos/ De lugar nenhum/ De todo lugar/Te encontro aqui e lá/ Te encontro a me buscar”, inicia a letra.

Ela explica que a música já indicava os caminhos que pretendiam seguir com o álbum, com uma bateria mais calma e cantada lentamente. “Acreditamos nessa virada de chave. Ela tem vários elementos que apresentam um pouco o disco como conceito, como essa coisa de explorar um espaço mais onírico, da criação, uma coisa mais etérea assim e a gente acreditou que ela era um bom cartão para apresentar este disco.”
Além disso, eles também contam que a música já cria uma ambiência cinematográfica que desde o começo já imaginavam para o álbum. O trabalho é finalizado pela composição “Planeta sonho”, que Augusto começou a escrever com 15 anos, e traz também outra chave interpretativa para a ideia que guia o álbum. “No fim, não deixo nenhum recado aqui/ Parece que me perco e adianto a saudade/ Do que ainda eu não vi, não vivi/ E ainda não conheço um tanto da gente”, traz o último verso.
Um sonho dentro de um sonho
Depois da seleção de quais músicas iam para o álbum, a banda conta que percebeu essa conexão forte entre os diferentes lados que um sonho pode ter — tanto de uma dimensão mais otimista até as mais complexas. Um nome que desse conta do que um sonho é, afinal, também buscava traduzir essa complexidade.
“Pensei nessa dinâmica de sonhar, tanto de sonhar dormindo quanto de sonhar acordado, esperar, mas também dessa parte ilusória também de se sonhar. Tentei conectar essas múltiplas possibilidades e para onde que a gente pode ir com o nosso sonho. E que também essa ideia de que o sonho é meio inacabável”, diz Amélia. Para ela, ao compartilhar com as pessoas, é justamente quando os sonhos podem virar outra coisa. “Costuramos esses altos e baixos do sonho”, diz.

Se o sonho guia o projeto, não é exatamente à toa: nos últimos anos, a banda realizou muitos dos planos que artistas independentes só podem desejar ter para se manter na música. E, no trabalho, trazem outras conquistas, como terem sido escolhidos para gravar pelo Selo Sesc Minas Musical e terem uma das faixas em colaboração com a mineira Fernanda Takai.
Essa fase alimentou o processo criativo que gerou o álbum e faz com que continuem sonhando outros sonhos. É o que contam: “Chegar em cada vez mais pessoas”, diz Mário. “Tocar em lugares cada vez mais distantes, fora do Brasil, em outros festivais, gravar muitos outros discos. Pensar no projeto com título esquisito, agora que o título enorme que já foi”, continua Augusto. “O sonho é manter o sonho vivo”, finaliza Amélia.

