

“Distrito infernal”, montagem da companhia de teatro juiz-forana Cravo Verde, pautada pela ideologia transviada e estética subversiva, chega aos palcos do Teatro Carlos Paschoal Magno neste final de semana, no sábado (5) e domingo (6), às 19h. O musical é uma releitura do mito de Orfeu, filho das ninfas Dafne e Calisto, que narram a peça, mas com foco no contexto socioeconômico da ditadura militar.
A maioria das produções sobre o período ditatorial no Brasil tem em seu cerne a violência. Para Leandro Stephan, ator integrante da companhia, é nesse momento em que a montagem precisou tomar outro rumo. “Nós discutimos o espaço do tema e fizemos a escolha política de abordar o que estava acontecendo com o povo.”
“As pessoas estavam morrendo de fome, havia pobreza por trás do milagre econômico e achamos importante abordar isso”, continua. A vontade de contar uma história fidedigna e verdadeiramente brasileira passou por todas as etapas da montagem de “Distrito infernal”.
Inspirado no musical norte-americano “Hadestown”, que também aborda o mito de Orfeu e Eurídice – em que ele precisa descer ao submundo para resgatar a amada, cantando uma canção para Hades -, “Distrito infernal” foi adaptado no conceito, nas músicas e na ideia.

Leandro conta que foi necessário uma análise do roteiro da peça para que o contexto brasileiro pudesse aparecer na temática da peça. “Quando adaptamos peças estrangeiras, muitas vezes o que acontece no Brasil fica de fora.”
Em ano de eleição e às vésperas do feriado de 7 de setembro, que celebra a Independência do Brasil, a companhia espera mandar um recado para o público. É por isso que a montagem da peça conta com as figuras de Dafne e Calisto, ninfas sáficas e mães de Orfeu, que atuam como narradoras.
“Elas são figuras dicotomizadas e estão em outra linha do tempo”, explica Stephan, mas estão presentes na história. Com o mote “e vamos cantar outra vez”, as ninfas acendem um alerta para o público de que os direitos sociais nunca estão totalmente garantidos.
Quem são esses personagens?
Para garantir maior fidedignidade com o que era o Brasil na ditadura militar, foi necessário muita pesquisa, feita por toda a equipe. “Se você não entende como era na época, não tem como construir o personagem”, explica Leandro, que atualmente estuda a literatura homoerótica e homossexualidade na ditadura.

Ele explica que era um contexto complicado, cheio de paradoxos e ainda pouco explorado e estudado. Por isso, além dos dois dias de apresentação, a programação conta com uma oficina gratuita sobre homossexualidade e ditadura.
“Introdução à história da ditadura militar”, com Isabel Vargas, e “Relações entre ditadura, homossexualidades e esquerdas brasileiras”, com Leandro Stephan, são gratuitas e acontecem às 14h do sábado, na sala de ensaio do Teatro Paschoal Carlos Magno.
Além disso, o elenco estará em uma roda de conversa sobre a montagem do espetáculo após a apresentação do domingo, no palco do teatro.
No elenco, estão Leonardo Lourenço; Ana Lambert; Liz Piza; Gabriela Paiva; Leandro Stephan; Raissa de Castro; Joy Diniz; Giovanna Ladeira; Isabel Vargas; Fah Zarah; Vinícius Morais; Ana Proscholdt e Bagre.
Já na produção, estão Leandro Stephan; André D’Angelis; Rizoid Produções; Isabel Vargas; Leonardo Lourenço; Raissa de Castro; Giovanna Ladeira; Liz Piza; Gabriela Paiva e Júlia Salles
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy

