dutch kickboxing

O tatame da Chakuriki Brasil, na Avenida Sete de Setembro, no Bairro Costa Carvalho, Zona Sudeste de Juiz de Fora, já viu passar mais de mil faixas pretas. Quem comanda o espaço é Carlos Eduardo da Silva, de 57 anos, mestre de dutch kickboxing com quase quatro décadas de ensino ininterrupto. O que começou como uma escolinha modesta, com “dois ou três alunos”, se transformou em uma rede de ensino que se espalha por Minas Gerais e São Paulo, formando atletas e, acima de tudo, cidadãos.

Carlos é o novo personagem da série “Fala, Mestre”. A proposta do projeto da Tribuna é valorizar a trajetória de treinadores dos mais diversos esportes na cidade, relembrar personalidades marcantes e reforçar o poder da atividade física na transformação social, no lazer e na saúde, sob a orientação de profissionais da área. Até o momento, foram publicadas matérias com Gerson Willian, do futsal; Altina Carla, do muay thai; Giselle Muniz, da natação; e Zirlene dos Santos, do atletismo e Ivan Gal, do futsal.

 

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Mestre Carlos Silva, da Chakuriki Brasil, é personagem da série “Fala Mestre” (Foto: Felipe Couri)

O caminho das artes marciais

Natural de Juiz de Fora, Carlos começou nos esportes de luta ainda criança, em 1980. Foram anos de imersão em diferentes modalidades até encontrar sua identidade. “Treinei taekwondo, karate, kickboxing, muay thai, várias artes marciais, até chegar ao que ensino hoje, o dutch kickboxing”.

O dutch kickboxing — ou kickboxing holandês — é um sistema que funde o karate kyokushin, o boxe inglês e o muay thai. Carlos foi quem trouxe o estilo para o município. “A Chakuriki foi pioneira aqui em Juiz de Fora no sistema de lutas de contato, ou seja, artes marciais que pode bater forte, que busca o nocaute”, conta.

Atletas que marcaram

Ao longo de 40 anos de ensino, Carlos formou atletas que brilharam em ringues dentro e fora do país. Um dos nomes de maior orgulho é Bruno Carvalho. “Invicto, nunca perdeu uma luta de muay thai e kickboxing. Hoje mora em Curitiba, Paraná, e tem a sua escola lá”, destaca o mestre.

Outro marco foi a vitória de Laís Fiona no WGP, maior evento de kickboxing do Chile. A lista inclui ainda Ricardo Decker, que compete no maior circuito de muay thai do Brasil, e o “Tubarão”, todos atletas profissionais, que vivem do esporte.

No boxe inglês, Carlos foi treinador de Ivan “O Terrível”, ex-sparring do lendário Adilson Maguila. “Quando morreu o treinador dele de São Paulo, ele precisava de alguém para treiná-lo. Viu um site meu e pediu: ‘Quero que você me treine’. As últimas cinco lutas dele, eu que estava no córner. Uma vitória para mim, foi muito legal”, afirma.

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Atletas de renome foram treinados por Carlos Silva (Foto: Felipe Couri)

Formação que vai além do ringue

Para Carlos, o ringue é a última etapa de um processo que começa muito antes. Com cerca de 150 a 180 alunos atualmente, divididos entre classes amadoras, semi-profissionais e profissionais, a escola trabalha em duas frentes: formar atletas de alto rendimento e, principalmente, formar pessoas de bem.

“O principal ponto que a gente vê é que consegue tirar, ao longo desses anos, muitos alunos que estavam envolvidos com coisas erradas, como drogas. Esse é um papel que eu me orgulho muito. Alguns hoje ensinam as lutas que aprenderam”, comemora Carlos.

O método exige dedicação total. Atletas que querem competir treinam duas vezes ao dia, de segunda a sábado. “O ringue é a última coisa que existe aqui dentro. O foco principal é o aluno crescer, praticar um esporte, ter condicionamento físico, equilíbrio entre o corpo e a mente”, explica. As aulas são abertas a partir dos 7 anos, com um treino recreativo para os menores, e seguem uma progressão que respeita o tempo de cada um, garante o mestre.

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Intenção do professor é fazer dez livros (Foto: Felipe Couri)

8º dan e livro de dutch kickboxing

Reconhecido com o 8º dan, grau de mestre no sistema do dutch kickboxing, Carlos segue com projetos para o futuro. Em 2025, escreveu os dois primeiros livros de uma série de dez sobre o dutch kickboxing — um sobre o sistema em si e outro sobre técnicas de punho. O terceiro, sobre técnicas de chute, está prestes a sair.

“Quero ver se eu concluo, daqui até uns três anos, dez livros no total, que vão explicar o dutch kickboxing: a parte de (muay) thai, a parte do kickboxing, a parte de karate de contato, boxe inglês, tudo que engloba esse sistema”, adianta.

Para os próximos meses, o plano é receber o Grand Master Tom Herrick, fundador da Chakuriki, que aos 83 anos vem a Juiz de Fora para seu último seminário no Brasil. “Depois eu quero levar dois atletas para a Holanda, um deles o Ricardo Decker, para fazer uma luta de dutch kickboxing em um nível bom”, projeta. Além disso, Carlos articula um acordo com Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile para promover eventos internacionais e, futuramente, um campeonato sul-americano de dutch kickboxing e muay thai em Juiz de Fora.

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Mestre leva paixão pelas lutas para a filha Aisha (Foto: Felipe Couri)

Legado

Pai de Aisha, de 10 anos, que também treina e já começa a seguir seus passos, Carlos enxerga na arte marcial um propósito que passa por gerações. “O que fica é uma gratidão por termos feito um trabalho pioneiro aqui em Juiz de Fora. Quando comecei a dar aula, tinha dois ou três alunos. Hoje temos muita gente treinando. Sou grato e quero continuar fazendo esse trabalho até quando Deus achar que deve.”

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