
Segundo o Ministério da Saúde, nos últimos cinco anos, houve um crescimento de quase 140% na busca por serviços de saúde mental no SUS por problemas de dependência de jogos on-line. Em maio deste ano, o Ministério da Fazenda divulgou que mais de 500 mil pessoas pediram a exclusão dos cadastros de bets por tempo indeterminado, a maioria porque perdeu o controle.
A ludopatia, ou transtorno do jogo, é uma condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e frequentemente relacionada à depressão, ansiedade, abuso de álcool e aumento do risco de suicídio.
De acordo com projeto de lei apresentado no Senado em 2023, seria o terceiro vício mais frequente entre os brasileiros, ficando atrás apenas do álcool e do tabagismo. As estimativas apresentadas naquela época já apontavam entre 1 e 1,3% da população brasileira atingida, ou seja, entre 2,14 e 2,78 milhões de pessoas.
O grande divisor de águas entre o entretenimento e o vício não é a aposta em si, isoladamente, mas a perda de controle do indivíduo, como explica o psiquiatra do Vasco da Gama e do Comitê Olímpico do Brasil, o juiz-forano Helio Fádel.
“Como que isso se manifesta? Apostas cada vez mais frequentes e mais altas, não conseguir parar, prejuízos financeiros expressivos, por exemplo, não conseguir destinar um dinheiro que era para outra área da vida, tentativas recorrentes de recuperar aquilo que foi perdido, omissão para os familiares, para a rede de apoio, mentiras”.
Com indícios como esses de um grau de comprometimento patológico, é necessária uma intervenção. A questão punitiva é legítima, mas também se trata de uma doença mental, em que o afetado necessita de acolhimento. “Então você precisa ter um olhar diretivo sobre isso, entendendo como pode ser ajudado, até mesmo através da punição como meio de educação, mas não olhar para essa pessoa como um vilão, porque ela está em sofrimento. Por isso reforça-se a importância de um cuidado completo, com psicólogo e psiquiatra”.

Do futebol aos cassinos online: a escalada do vício
Recentemente, um jogador de futebol profissional revelou que sofria do vício desde 2018, estando limpo, agora, há mais de 40 dias, e “não está sendo fácil”. O atacante Michel Henrique, que jogou a Série B do Campeonato Brasileiro pelo Tupi em 2016, já rodou o Brasil todo. Atualmente, está no Grêmio Esportivo Bagé, do Rio Grande do Sul. Em Minas, também atuou pela URT. Entre as equipes de maior expressão, já passou por Criciúma, Juventude, Coritiba, Brasil de Pelotas, e Caxias, no Sul, e Marília, Ferroviária, XV de Piracicaba, e Guarani, em São Paulo, além do ABC (RN).

As primeiras apostas começaram em 2017, um ano após deixar o Galo Carijó, e quando a prática ainda não era proibida por lei aos jogadores. Antes disso, as únicas apostas que havia feito eram em um jogo de baralho ocasional, ou a tradicional Mega-Sena da virada, por exemplo.
Hoje, garante que não coloca um real sequer nem mesmo nesse tipo de apostas mais socialmente aceitas: “É um propósito que eu tenho comigo, se for para ficar rico, se for para construir o império, que é a minha ambição, será através do meu suor e do meu trabalho”. Declara ainda que, mais do que não ter vontade, agora sente ódio da prática.
No início, ele arriscava dinheiro no próprio profissional: placares, gols, escanteios. “Geralmente, quando você começa num jogo desses é porque alguém tá jogando perto de você. Lá em 2017, não tinha tanta informação sobre isso na televisão, no celular”, relembra.
Na época, jogava pelo Ypiranga (RS). “Lá, alguém me convidou: ‘Ah, vamos fazer uma fezinha’”. Era um companheiro de time. “E aí eu acabei entrando”. No final do ano seguinte, já sabia que tinha desencadeado o vício. Até 2021, apostava só em futebol, até tomar o primeiro “tombo”.
Mas alguém o apresentou uma nova perdição: os cassinos online, como o popular “Jogo do Tigrinho”. Este, especificamente, nunca jogou, mas apostava em outros com a mesma mecânica. “Ali que eu acabei devagarzinho, com pequenas apostas, me viciando novamente”. Questionado sobre a maior quantia de dinheiro que já perdeu de uma vez, prefere não revelar.
Quando começou nessa nova modalidade, parou de apostar em futebol. Não só porque houve uma regulamentação e os CPFs dos jogadores pararam de ser aceitos nas casas de apostas, mas também porque simplesmente tinha perdido o interesse em apostar no esporte.
“É importante explicarmos que a proibição das apostas esportivas não necessariamente vai interromper aquele comportamento disfuncional, porque o indivíduo vai encontrar maneiras alternativas para continuidade daquilo”, analisa o psiquiatra. “Você tem diversas plataformas, diversas maneiras de se apostar, e o acesso é muito fácil”.

‘O vício te aprisiona’
“A ludopatia, o vício em jogos online, ele não quer o teu dinheiro, ele quer a tua liberdade, ele quer a tua dignidade, ele te aprisiona”, diz Michel em seu relato.
Ele lista tudo o que perdeu, além da parte financeira: “Caráter, credibilidade, poder de fala, amizades, e até mesmo a própria família”. Também começou a mentir, dizendo que já tinha parado de jogar.
O caso foi tão sério que Michel quase perdeu seu bem mais valioso: “Por três vezes eu pensei em tirar a minha própria vida. O que me fez não tirar foi a fé e a foto do meu filho, que veio na minha cabeça”.
Conseguiu evitar a morte, mas já tinha perdido a vontade de viver. “De 2022 para cá, eu não tinha mais sonhos específicos. Eu vivia em um automático: trabalhava, voltava para casa, fazia as coisas que tinha que fazer e jogo, jogo, jogo”. Com isso, mais consequências: crise de ansiedade, síndrome do pânico, diversas noites sem dormir. No último ano e meio, o vício também o influenciou em tomadas de decisão na carreira.
Em questão de rendimento dentro de campo, afirma que a ludopatia nunca o atrapalhou, nem nunca o fez agir de forma corrupta. Ninguém nunca o fez propostas de manipulação de resultados, justamente por um aspecto da doença que ele destaca: “é um vício silencioso, que está adoecendo o Brasil e nós estamos apenas assistindo”.
“Eu nunca dei entrada (para esse tipo de proposta). Tanto é que ninguém sabia que eu estava viciado. Só quem sabia era a minha ex-esposa, que descobriu, e os meus familiares, que eu contei a verdade. Mas colegas, diretores, técnicos, ninguém sabia. Às vezes, a pessoa está do seu lado e você não sabe que ela está viciada”.
O medo de ser julgado em relação à manipulação esportiva é mais um fator que compromete o tratamento de atletas em situação semelhante, como explica Helio Fádel: “Os atletas ficam muito receosos de se abrirem, por entenderem como desvio de caráter e vulnerabilidade”.
“Então, quando o caso chega para um psiquiatra, até mesmo externo ao clube, já está numa situação mais avançada, e isso tem um prognóstico mais delicado. Certamente você pode auxiliar esse atleta, mas, quanto mais cedo for a abordagem, melhor vai ser o desfecho clínico daquele indivíduo que está sofrendo”.
‘Pandemia das bets’
Ao longo da carreira, Michel já percebeu o vício entre muitos outros colegas pelos clubes em que passou. Até mesmo em 2025, quando jogou a Segunda Divisão Uruguaia, não percebeu diferença do que acontece nos bastidores do Brasil.
Com a repercussão do vídeo de testemunho, já recebeu relatos afins de funcionários públicos, comerciantes, motoboys: “Essa ‘pandemia das bets’ está inserida em todos os contextos, não só no futebol”.
Fádel confirma: “De fato, a ocorrência de pessoas ligadas a apostas esportivas tem aumentado, mas não somente no ambiente esportivo. Eu diria que, na sociedade como um todo, o próprio ser humano busca, através do mecanismo de recompensa cerebral, formas de gratificação, e com isso vem os vícios”.
Médico e paciente se complementam uma vez mais. Enquanto Michel sabe, na pele, “que a pessoa está ali por causa da dopamina barata que o vício te traz, um entretenimento aos olhos de muita gente na internet”, Fádel alerta que o problema da “descarga dopaminérgica, que leva o indivíduo a ter uma sensação rápida de prazer, é que isso se torna um ciclo vicioso”.
“O próprio ambiente esportivo de alto rendimento apresenta características que contribuem negativamente para esse comportamento da ludopatia”, complementa o membro da Sociedade Internacional de Psiquiatria do Esporte. “Fatores da própria competitividade, do alto rendimento, podem colocar o atleta com uma certa vulnerabilidade a buscar um tipo de recompensa, para se integrar dentro de grupos”.
Não existem dados epidemiológicos para se afirmar uma prevalência entre atletas profissionais, mas é uma realidade muito diferente do esporte recreativo, tanto em questão de saúde mental, quanto física e, por isso, requer medidas preventivas e de acompanhamento específicas.
Atenção à base
Em enquete do Instituto de Pesquisa DataSenado, realizada entre fevereiro e março deste ano, 93% dos respondentes acreditam que crianças e adolescentes são influenciados negativamente pela propaganda de apostas online.”
A percepção de Michel é de que a ludopatia está mais presente entre os jogadores jovens – inclusive menores de idade – do que entre os mais experiente. “Nos últimos três, quatro anos, o que eu vi de jovem botando dinheiro nisso é um absurdo”, afirma.
Renê Rodrigues, psicólogo do time atual de Michel, confirma a percepção “alarmante e assustadora”: “Tem jovem que termina treino, sai correndo para o vestiário e já vai pegar o celular para conferir as apostas”.
Ele também trabalha na Rede Naurú, uma rede de psicólogos do esporte a nível nacional, que recebem demandas de todas as modalidades esportivas, e afirma que é notório o aumento do número de pais e mães procurando acompanhamento terapêutico para os filhos menores de idade com vício em apostas.
“Você vê jovens com três, quatro celulares, com quatro, cinco CPFs, apostando em bancas, e a gente sabe, através de estudos, que o uso da tecnologia atrapalha o desenvolvimento do adolescente, e aquele que pratica esporte, principalmente. Afeta o sono, deixa ansioso e prejudica o rendimento dentro de campo.
Fádel, mais uma vez, ressalta a falta de dados epidemiológicos estudados sobre o tema, evitando fazer a afirmação de prevalência. “Mas, certamente, os esportistas mais jovens merecem, sim, uma atenção pelo próprio perfil, porque tendem a ter uma menor percepção de risco, maior impulsividade, e são mais expostos”, reforça.
Ele complementa que, além de ainda não terem desenvolvido a madurez afetiva e emocional, muitos desses jovens podem vir de uma situação social de risco. E, quando se tem uma carreira que ascende de maneira muito rápida, é ainda mais difícil para o atleta processar todas as mudanças ao seu redor, ficando, teoricamente, ainda mais vulnerável ao risco das apostas.

Saúde mental em clubes menores enfrenta barreira estrutural
Hoje, o que mais “tira o sono” de Michel e traz picos de ansiedade não chega a ser a questão da perda financeira, mas sim da perda familiar. Por sorte, tem a possibilidade de vir conversando bastante com Renê, já que, ao longo da carreira, viu muitos clubes que nem contavam com um acompanhamento psicológico, muitas vezes por falta de condição financeira.
O profissional está à frente da saúde mental no Bagé há três anos e relata que ainda há uma “barreira”, principalmente no futebol do interior, em relação ao investimento: “Como um clube do interior funciona, às vezes, por períodos de três, quatro, no máximo seis meses, eles acabam não priorizando muito o departamento de psicologia do esporte, preferem investir em outras áreas”
“A estrutura pode até ser menor, mas a demanda emocional do atleta não é menor. O jogador que atua num clube de menor investimento também enfrenta pressão, também enfrenta cobrança, lesões, inseguranças, problemas familiares, expectativas de desempenho”, lembra.
Ele acredita que, na Divisão de Acesso do Campeonato Gaúcho, que disputam, de 16 times, no máximo quatro devem dispor do departamento de psicologia, tendo certeza de apenas mais um, além do próprio Bagé.
Para Helio Fádel, que parte de uma perspectiva de alto escalão do esporte, “o cenário melhorou muito nesses últimos anos, mas é certo que ainda temos uma longa estrada pela frente”. “Saúde mental é um dos temas mais discutidos na medicina moderna, mas pouco de fato era feito, então, assim como já é no exterior, que você tem equipes mais robustas, com protocolos mais definidos, é o que nós temos tentado fazer aqui no Brasil”.
Tanto no Vasco quanto no Comitê Olímpico, dispõe da estrutura necessária para exercer um trabalho tanto preventivo quanto intervencionista, se for o caso. Ele afirma que a maioria dos clubes grandes já conta com psicólogos, mas, entendendo a completude de um departamento de saúde mental, é imprescindível a participação de psiquiatras e assistentes sociais também.
Tratamento da ludopatia passa por três pilares
A forma ideal de se lidar com a ludopatia entre os atletas deve se pautar em três pilares, como ensina o psiquiatra: a educação, a identificação precoce e o tratamento em si.
Para o primeiro, os esportistas devem receber informação contínua, desde as categorias de base: seminários, discussões, e pronunciamentos de ex-atletas e pessoas que possam ter uma influência positiva na formação dos mais jovens e também auxiliar os mais experientes.
Para a identificação precoce, os profissionais habilitados são fundamentais. “Eles estão presentes no dia a dia e vão conseguir fazer um mapeamento desses atletas. Pela convivência diária, já existe uma boa relação de confiança entre atleta e profissional, para que ele não se sinta exposto ou receoso de que o treinador ou a diretoria venha a saber do problema”, explica Fádel.
E, quando se entende que já há prejuízos importantes na vida do profissional, o psicólogo e o psiquiatra, que já estariam envolvidos no caso, podem até mesmo entrar com um tratamento medicamentoso. ”Isso é plenamente viável de ser feito enquanto o atleta está treinando e jogando. Não há nenhuma necessidade, a primeiro momento, de um afastamento”, elucida.
Em razão do sigilo profissional, Renê não pode dar muitos detalhes sobre como está sendo o tratamento de Michel. No entanto, explica que está desenvolvendo um trabalho mais próximo e frequente junto a ele, muito graças à abertura que deu à equipe. É um acompanhamento que exige muito comprometimento, principalmente por parte do próprio jogador.
Renê acrescenta que está sendo muito importante compreender os fatores que contribuíram para esse comportamento, identificar os gatilhos, e trabalhar estratégias, para que ele consiga lidar com a situação de uma forma mais saudável.
“Eu comento com ele que é uma ação muito nobre da parte dele, mas a gente também precisa ter muitos cuidados, porque isso faz com que ele fique nos holofotes, e a gente precisa preparar o Michel para enfrentar essa situação da melhor maneira possível”, ressalta. “A gente não pode esquecer que o atleta de futebol é um ser humano, e muitas vezes a nossa sociedade se esquece disso”.
O depoimento já conta com cerca de 70 mil visualizações, e a repercussão tem faces distintas. Quando vai jogar, conta que recebe críticas e provocações, mas diz não se afetar, pois se sente fortalecido e sabe que está tendo uma nova oportunidade para seguir adiante.
Por outro lado, também tem sido elogiado e recebido pedidos de ajuda, pelos quais faz um apelo: “Eu vejo muita gente maior, de mais expressão que eu, que está envolvida e já se curou, e que precisam se posicionar. Precisa ter um posicionamento contra isso”.

