
Muito além das manobras, o skate transformou a vida de diferentes gerações de praticantes em Juiz de Fora. Seja nas competições disputadas por Gabriela Serpa, na relação com a contracultura vivida por Elisandro Calheiros ou na atuação comunitária de Mateus Gomes, presidente da Associação Juiz-Forana de Skate, a modalidade se revela como um espaço de convivência, resistência e construção coletiva. No Dia Mundial do Skate, celebrado em 21 de junho, skatistas da cidade compartilham histórias, desafios e perspectivas para o futuro da cena local.
‘A gente segue firme’

Gabriela Serpa começou a andar de skate aos 16 anos, quando uma prima lhe apresentou a prancha de madeira revestida de lixa e apoiada sobre dois trucks, quatro rodinhas e seus rolamentos. Diante de remadas e manobras, ela também quis um skate só seu para andar pelas ruas e pistas da cidade.
“Tive vários, se quebrava, eu arrumava outras peças”, conta.
Sua primeira participação em um campeonato de skate foi logo um ano depois, entre os meninos, em São João Nepomuceno, cidade em que nasceu. Ao competir na categoria feminina pela primeira vez, em Barbacena, venceu a disputa. Depois, também conquistou o primeiro lugar no circuito mineiro e participou do brasileiro, no qual alcançou o oitavo lugar em uma final com 35 mulheres em sua categoria.
Durante uma de suas primeiras competições, conheceu a Pista Velha de São Bernardo do Campo, inaugurada em 1982 em São Paulo e ampliada mais tarde para receber praticantes de diferentes modalidades de esportes radicais. Ao chegar para o Campeonato Brasileiro de Skate Feminino 2016, se espantou, não só com o tamanho da pista, mas com a grande quantidade de mulheres andando de skate.
“Foram 75 competidoras no total, um recorde na época, que até entrou para o Guinness Book. Foi emocionante demais”, aponta.
A skatista se esforçava para se apresentar às marcas de skate com a expectativa de conseguir patrocínio para competições.
“É um esporte caro de manter e as maiores dificuldades foram a falta de estrutura para treinos, alimentação adequada, suporte para lesões e recursos para viagens”, pontua. Naquele mesmo ano, Gabriela lesionou um dos joelhos e ficou “de molho” por sete meses. “Cheguei a pensar que não conseguiria mais”, admite.
Sua relação com o skate mudou, ela tornou-se também instrutora da prática.
“Foi uma das formas de me manter e trabalhar com o skate. Na época a demanda não era igual agora, mas já me ajudava muito a manter as peças e conseguir dinheiro para as viagens”, sinaliza. Formada pela Federação Paulista com homologação da Confederação Brasileira de Skate, hoje, aos 29 anos, Gabriela trabalha em projetos sociais como instrutora em oficinas de skate. Também oferece aulas particulares em parceria com a skatista Nicole Faria, uma de suas referências no esporte.
“A dificuldade de ser mulher no skate era muito maior, poucas tinham patrocínio, e acredito que essa falta de apoio prejudicou não só a mim, mas toda uma geração de skatistas que sonhavam em seguir carreira. Mesmo hoje, com o destaque das brasileiras, ainda faltam mulheres ocupando espaços. Isso dificulta a evolução do skate feminino no país. Mas a gente segue firme, e é bonito demais ver essa força coletiva mudando a história do skate“, avalia.
‘Um esportes individuais mais coletivos’

Assim como Gabriela, o tatuador Elisandro Calheiros, de 50 anos, também começou a andar de skate na adolescência, aos 13 anos, junto de um amigo, ainda nos anos 80, quando morava em Cruzília, no Sul de Minas.
“Tinha um ‘cruiser’, que era um skate muito precário. Então, meu primeiro contato com o esporte foi ligado a um brinquedo. Eu fiquei obcecado, já fui me criando e pressionando minha mãe para me ajudar a comprar um skate original”, relembra.
Na época, rememora Calheiros, o skate era um “lance de manobra”, tanto no downhill quanto no street, e ainda não havia pistas como hoje. Para ele, sempre foi, sobretudo, mais que um esporte. “O skate que me representa é o de rua, uma manifestação urbana, ligado às cenas de música, aos vídeos de skate e à contracultura de resistência a um sistema“, afirma.
Na sua perspectiva, a institucionalização fez com que parte da essência se perdesse, transformando a prática em algo, muitas vezes, mais preocupada com a execução correta, robotizada, apática e individualista. Mas, como pondera, as Olimpíadas também trouxeram um lado positivo. Através de uma maior representação do skate brasileiro em competições internacionais e o aumento da presença do esporte no debate público, começam a investir e construir mais pistas de skate nas praças.
“O skate é dos esportes individuais mais coletivos que conheci na vida. É o skate do ‘do it yourself’ (faça você mesmo): não tínhamos pistas, mas construíamos juntos os obstáculos e as rampas. Também tínhamos dificuldades para conseguir peças e materiais, mas sempre nos juntavámos para ver os vídeos de skate”, argumenta.
A dimensão coletiva do skate foi determinante para Elisandro. Tanto que, quando se mudou para Juiz de Fora, em 2001, para trabalhar com tatuagem, levou um tempo para se adaptar às novas pistas e à nova galera. Naquele momento fez sua primeira pausa, que durou cerca de dois anos, para focar no seu lado profissional. Retornou às manobras junto dos amigos em uma pista no Bairro Linhares, na região Leste.
Recentemente, em 2018, o skatista sofreu um acidente e precisou mais uma vez parar por um período. “Retornar ao esporte foi mais pesado para mim, cheguei a dar uns rolês. Pretendo voltar de outra forma, fazer uma transição, seria o caminho para manter o esporte. Vou reaprender, né?”, revela.
‘Skate além das manobras’
O skate também encontrou Mateus Gomes, 27 anos, ainda na infância. Como conta o skatista e articulador cultural, foi nas ruas onde conheceu pessoas, movimentos, coletivos e a cultura urbana, onde também se aproximou do skate.

“Comecei a andar depois de ver um grande amigo descendo uma ladeira em alta velocidade, foi paixão à primeira vista. Desde então, há 11 anos vivendo o skate, vi que aquele sentimento não foi em vão, continuou sendo especial”, narra.
Há cinco anos integrando a Associação Juiz-Forana de Skate (AJS) e por três à frente da presidência, Gomes declara que o skate se tornou um pilar em sua vida, pela filosofia compartilhada e pela construção de uma comunidade.
“Hoje, além de praticar, busco utilizar o skate como uma ferramenta de transformação social, promovendo projetos, oficinas, eventos, festivais, e trabalhando em políticas públicas, tanto em Juiz de Fora, quanto nas regiões. O skate vai muito além de manobras”, reflete.
A associação surgiu em 1999, diante da movimentação dos skatistas que buscavam garantir os direitos da prática do skate.
“Ela surgiu para servir como resistência“, crava. Segundo Mateus, sua missão como representante é elevar o nível do skate na cidade de diversas formas, desenvolvendo políticas públicas sólidas, projetos sociais, eventos e possibilitando parcerias com outras culturas urbanas.
Atualmente, o presidente da AJS também precisa manobrar as diversas atividades da função. A associação tem desenvolvido o “Jogada de Mestre – Skate“, projeto apoiado pelo Instituto Albert Sabin e pela deputada federal Ana Pimentel (PT), que trata-se de uma escola de skate gratuita com 48 vagas para alunos da rede de ensino público na Via São Pedro. Há quatro anos, desenvolve o projeto “Rolê das Minas”, que promove o skate feminino na cidade, levando a ocupação dos espaços públicos e desenvolvimento da cena.
Matheus também organiza o campeonato “Jufas Street Session” e o “Corpo Urbano”, um evento cultural que promove oficinas e atividades relacionadas à cultura do skate, além de fazer pare do projeto “Corredor Cultural”, um espaço para unir a cultura hip-hop e o skate no centro da cidade.
O post Skate em Juiz de Fora: entre esporte, cultura e transformação social apareceu primeiro em Tribuna de Minas.

