
Quatro lutadores da Zona da Mata foram convocados para o Campeonato Pan-Americano de MMA Amador da IMMAF, em Monterrey, no México, entre os dias 9 e 15 de setembro.
Dois deles são os irmãos Nicollas e Evellyn Sobrinho, de 19 e 21 anos, de Lima Duarte – a cerca de 60 quilômetros de Juiz de Fora. Eles se classificaram após se destacarem em uma seletiva nacional no fim de julho, no Recreio dos Bandeirantes, bairro do Rio de Janeiro, no dia 25 de julho.
Organizada pela Federação de MMA Desportivo do Rio de Janeiro – chancelada pela Confederação Brasileira de MMA Desportiva –, a jovem lutadora (da categoria de 48 quilos) venceu a etapa do ranking nacional no segundo round, por finalização (armlock), enquanto o irmão (da categoria de 61 quilos), por decisão dos juízes.
Irmãos da luta
A dupla começou a ser treinada pelo próprio pai, Cláudio Sobrinho. “Quando a maioria das crianças gostava de brincar, eles gostavam de treinar. Nicollas começou aos 5 anos na capoeira, com o professor Zezinho, que logo viu um talento no garoto”.
Logo após, ele começou no jiu-jistu e, em sequência, no kickboxing, como striker (atleta especializado em lutas em pé). Com a chegada do professor Jonathan Cerqueira Rocha à cidade, a função de striker foi intensificada: “Ele sempre incentivou o garoto, destacando a facilidade que ele tinha em aprender e também a sua disciplina e força de vontade, para uma criança tão pequena”.
Já Evellyn começou direto no jiu-jitsu, aos 9 anos de idade, em um projeto social da época chamado Movimento do Bem. Ela também ia aos treinos de kickboxing, mas, no início, não despertava muito interesse, que foi instigado ao longo dos anos. “Ela sempre foi uma boa aluna na escola, disciplinada, com boas notas. Da mesma forma é na arte marcial, ela é muito focada e interessada”, diz o pai orgulhoso.
Nicollas foi treinado por diversos profissionais, cada um para uma especialidade, inclusive nas cidades de Três Rios e Niterói, no Rio de Janeiro. Ela também se mudou de cidades e de treinadores. Hoje, os dois irmãos moram em Juiz de Fora e treinam com Gabriel Will e Delmar SIlva, responsáveis pela modalidade do MMA da equipe Team Will.
“São destaques aqui na academia também, fazem um excelente trabalho, já tem um histórico amplo de competições, de vitórias e uma trajetória muito bacana”, reforça Will. Evellyn está com ele há alguns anos, e já tem “o DNA” da equipe. “Realmente é uma menina brilhante, uma menina muito talentosa”.
“O Nicolas também é a mesma coisa, mas ele tem pouco tempo que está comigo. Essa competição do Rio foi a primeira que ele lutou pela minha academia (…) mas é um menino que tem uma carreira muito vasta na luta, tem um histórico muito bacana e compete desde o infantil”, complementa.
O pai lista as carreiras dos dois com orgulho. “Em 13 anos de luta, Nicolas já recebeu três moções de aplauso (duas em Lima Duarte e uma em Juiz de Fora). Tem, no registro, 41 lutas de kickboxing, três lutas de muay thai, 21 lutas em competições de jiu-jitsu com pano, três lutas de boxe, uma de luta livre e sete de MMA. Ele, agora, tem a rotina ainda mais cheia. “A coisa mais difícil é ter apoio aqui no Brasil, então ele optou por colocar o emprego na rotina dele”.
Evellyn tem no currículo esportivo oito lutas de kickboxing, uma de muay thai, dez de jiu-jitsu com pano, e estreou no MMA justamente no dia em que se classificou para o Pan-Americano. O pai diz que “o esporte deu a ela uma qualidade de vida melhor”, em todos os sentidos, principalmente na área da saúde, em que sofria de bronquite asmática que atacava com frequência.
“Eles estão completamente felizes e empolgados com essa oportunidade”, relata Cláudio, “até mesmo porque esse evento tem uma visibilidade absurda, com atletas do mundo todo”. O Pan-Americano classifica para o Mundial, que acontece na Geórgia. Além disso, a Federação Mundial de MMA (IMMAF) trabalha em conjunto com o UFC, revelando talentos para a maior organização do mundo da modalidade.
“É um feito inédito aqui na cidade. Eu estou no ramo da luta há praticamente 16 anos”, conta Will. “O Delmar está há mais tempo que eu, então é uma alegria muito grande a gente poder estar indo representar o nosso time, o nosso estado e o nosso país”. Da série de atletas, de diferentes estados, que competiram no Rio, os únicos mineiros classificados foram os da Will Team. A Seleção Brasileira, que será composta por 20 atletas e cinco técnicos, terá quatro lutadores e dois treinadores da academia.
Cria do Dom Bosco, com ‘coração de lutador’
Já o classificado na categoria de 56 quilos é Gustavo Albuquerque, morador do Bairro Dom Bosco, Cidade Alta. “Ele é o nosso atleta principal do time, porque é um dos primeiros que a gente começou a levar em competição. Está com a gente desde o início da caminhada, temos quatro anos de equipe”, conta Will.
O talento foi descoberto num projeto em que a academia trabalha em consonância, o Instituto Amargen, uma organização social situada no bairro de Gustavo, que atua há 14 anos com o objetivo de dar oportunidades para pessoas de comunidades em situação de vulnerabilidade social.
Gustavo participava do projeto, com uma aula por semana. Sempre foi – e ainda é –, muito aguerrido e dedicado, segundo o treinador. No início, não tinha nenhum embasamento técnico, mas Will viu nele um grande destaque em relação aos outros garotos. “Técnica a gente aprende. Coração de lutador você tem que nascer com ele, e eu vi isso no Gustavo mesmo muito novo. (…) É um menino que, por mais que às vezes não tenha o recurso, tem muita disposição e vai ao máximo que dá”.
Hoje com 18 anos, se conheceram quando ele tinha entre 13 e 14 e, desde então, vem se destacando. O treinador calcula que, de 16 lutas, são 14 vitórias. Tem também um amplo histórico de competições.
Nocaute em dez segundos
Dez segundos. Esse foi o tempo necessário para o nocaute que deu a classificação de Anderson Junior ao Pan-Americano, justamente contra o ganhador da etapa anterior. Ele é o mais velho dos representantes juiz-foranos, com 31 anos.
Da categoria de 74 quilos, é faixa preta de jiu-jitsu, e começou a treinar MMA justamente para ter contato com outro tipo de modalidade, se desafiar e ser um “iniciante” novamente. Embora, agora, esse frescor já esteja dando lugar à experiência: “O Anderson já tem um tempo nas artes marciais, mas desde que ele começou o MMA, vem se destacando, treinando muito, foi condecorado com a melhor luta, a luta destaque desse evento no Rio, que foi o nocaute mais rápido”.
Ao publicar o registro da vitória nas redes sociais, Anderson disse que “todo o esforço, renúncia e preparação valeram à pena”. Enquanto estava na competição, tinha o combustível do agora recém-nascido Jorge, que já estava a ponto de chegar ao mundo a qualquer momento.
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‘Batalha fora do octógono’
Os atletas fazem, em média, de dois a três treinos por dia, bem divididos na parte de striker (a parte em pé, como muay thai e boxe), grappling (como o jiu-jitsu, wrestling, e judô). Também tem os treinos específicos de MMA, e a parte de preparação física.
Além disso, eles conseguiram, com um apoio, o acompanhamento nutricional, necessário para baterem um peso fixo em todos os dias da competição. “Eles precisam se submeter a uma dieta bem regulada, bem inteligente, para que eles consigam chegar bem, chegar forte, e não levar o corpo à margem de extremos”, explica Will.
“Mas, em contrapartida, tem o desafio nos bastidores que é custear todo esse sonho”, lamenta. “É muito investimento. A gente fez um levantamento que está dando aproximadamente R$ 10 mil por integrante, um total de R$ 60 mil. A gente precisa comprar passagem – a necessidade mais imediata –, correr atrás de hospedagem”. Como a federação é de MMA amador, não custeia nenhuma necessidade, sendo todos os gastos por conta da equipe.
A inscrição também é cara, pois, embora seja no México, a organização é europeia e cobra em euros. Para vencer essa “grande luta fora do octógono”, já fizeram rifas que arrecadaram valores baixos, como R$ 500 ou R$ 1 mil. Duas vaquinhas online estão ativas, uma feita pelo time, e outra, pelos irmãos.
Do objetivo total de R$ 50 mil, arrecadaram apenas R$ 475 até o momento. As doações podem ser feitas pelos seguintes links: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/campeonato-panamericano-de-mma-amador e https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-nosso-time-a-disputar-o-pan.

