
Marcar um gol em competição europeia já seria um capítulo à parte na carreira de qualquer atacante brasileiro. Guilherme Smith fez dois na mesma noite. Na quinta-feira (22), o juiz-forano de 23 anos comandou a vitória do Union Saint-Gilloise por 4 a 0 sobre o Hapoel Be’er Sheva, pela terceira rodada da fase de liga da Europa League, no Merkur Spiel-Arena, em Düsseldorf, na Alemanha.
O camisa 11 rubro-belga abriu o caminho no segundo tempo, aos 60 minutos, depois de receber passe de Relebohile Mofokeng. O placar já havia sido inaugurado por Raul Florucz, aos 45, em cobrança de pênalti. Aos 77, Dylan Aquino ampliou, e aos 81 foi a vez de Smith fechar a conta, com assistência de Denzel De Roeve. O árbitro ucraniano Nikolai Balakin comandou a partida, que teve o time de David Hubert com amplo domínio.
Com o resultado, o Union Saint-Gilloise chegou a sete pontos em três jogos e segue invicto na competição. O Hapoel Be’er Sheva, que ainda não venceu, permanece com um ponto, na parte de baixo da tabela.

Uma trajetória improvável
Se o desempenho desta quinta parece natural para quem acompanha o futebol belga, a história por trás dele é tudo menos previsível. Guilherme Henriques da Silva Carvalho nasceu em Juiz de Fora, em 11 de junho de 2003, e construiu a base no Rio de Janeiro: passou pelo Vasco, pelo Fluminense e chegou ao Botafogo, onde ficou de 2017 a 2021.
Deixou o clube carioca ainda jovem, em meio às dificuldades financeiras do Alvinegro, e rumou para o Zorya Luhansk, da Ucrânia. Foi lá que a carreira cruzou com a história do mundo. Em fevereiro de 2022, com o início da invasão russa em larga escala, ele e os compatriotas Juninho e Cristian Dall Bello precisaram abandonar o leste ucraniano às pressas, acompanhados da esposa e do filho pequeno de Juninho.
Chegar à fronteira com a Polônia exigiu caminhar cerca de 60 quilômetros, no frio, carregando uma criança de três anos. Na chegada, o grupo foi impedido de atravessar e passou a noite ao relento, ao redor de uma fogueira. A travessia só aconteceu em 1º de março. O relato dele próprio, publicado nas redes sociais na época, definia aquele dia como o mais triste da vida.
“Com 18 anos, é um momento que você não espera passar por uma guerra. Ninguém espera, na verdade, mas ainda mais nessa idade, no meu primeiro ano na Europa, sozinho e sem a família. Foi um baque muito grande para nós, para mim, para o meu pai, para a minha mãe e para o meu irmão”, relembrou, em entrevista à Trivela.
Do Zorya, foi emprestado ao sub-23 do Braga, em Portugal, e recomeçou praticamente do zero. Foi na Estônia que a carreira voltou a crescer: pelo Nõmme Kalju, entre 2024 e 2025, disputou 44 jogos, marcou 16 gols e deu 14 assistências, reabrindo as portas do mercado europeu.
“Muitos atletas deveriam pensar em dar alguns passos atrás para conseguir avançar depois. Às vezes você não tem tanto espaço em um clube, mas consegue jogar em outro para dar um salto maior”, avalia.

Bélgica, títulos e Champions League
A chegada ao Union Saint-Gilloise foi anunciada em 12 de agosto de 2025, com contrato até 2029, posteriormente estendido até junho de 2030. Na primeira temporada, foram 26 partidas, quatro gols e duas assistências, com dois títulos: a Copa da Bélgica, conquistada sobre o Anderlecht com dois gols na prorrogação, e a Supercopa da Bélgica de 2026, diante do Club Brugge.
É na Bélgica, também, que o juiz-forano se adaptou a uma nova função. Atacante de origem, ele passou a atuar mais aberto, como ala pela esquerda, posição em que foi escalado no duelo com o Bayern de Munique, na Allianz Arena, pela estreia na Champions League, na temporada passada. Na ocasião, teve a missão de marcar Michael Olise, em derrota por 2 a 0.
Os números da atual temporada confirmam o bom momento. Pelo Union Saint-Gilloise, o atacante vem de sequência de jogos como titular na Pro League e na Copa da Bélgica, além de já ter balançado a rede na competição continental. Em entrevistas recentes, colocou a Seleção Brasileira e uma transferência para a Premier League ou LaLiga como metas declaradas — ele já vestiu a camisa da Seleção Sub-17, em 2019.
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