O preparador de goleiros juiz-forano João Gabriel Gerheim, renovou seu contrato por três anos com o Borneo, time da primeira divisão da Indonésia, após ter participado da campanha do clube que resultou na segunda colocação do campeonato nacional. Na agremiação, ele trabalha com o goleiro Nadeo Argawinata, eleito melhor goleiro da liga e representante da Seleção do país asiático.
João Gabriel foi o convidado do Programa “Dá Jogo”, transmitido, ao vivo no YouTube da Tribuna de Minas, na última quinta (25). Ele falou sobre sua trajetória, trabalho atual e perspectivas para a próxima temporada e sua carreira. Confira!
Tribuna de Minas: Você foi atleta, João? E como é seguir na sua atual profissão?
João Gerheim: Fui um “dublê” de goleiro. Tentei seguir esse caminho, mas percebi, por volta dos 15 anos, que minha estatura não me permitiria ir muito longe na posição. Foi quando decidi investir nos estudos. Meu sonho era ser professor de Educação Física e trabalhar em escolinhas da cidade. Mas, graças ao projeto de futebol da UFJF e ao professor Marcelo (Matta, atual secretário de Esportes e Lazer), comecei a enxergar o futebol e o mercado de uma forma diferente. Descobri uma profissão pela qual hoje sou completamente apaixonado. Também sou muito grato ao professor Luiz Laudiosa, que trabalhou no Cruzeiro e hoje atua em Juiz de Fora, no projeto da Prefeitura. Foi ele quem me presenteou com o primeiro livro sobre treinamento de goleiros. O livro era em espanhol e mudou completamente minha forma de pensar e de entender a posição. Muita gente acredita que o trabalho do treinador de goleiros se resume a repetir chutes, mas hoje sabemos que existe uma abordagem muito mais ampla, que envolve diversos aspectos técnicos, físicos e cognitivos. Foi graças a pessoas como o Marcelo e o Luiz que me tornei treinador de goleiros.

Tribuna: Conte um pouco da sua história. Como foi a sua trajetória?
João: Minha trajetória começou no projeto da UFJF (Futebol UFJF, projeto de extensão da universidade). O primeiro treino que ministrei foi em uma escolinha no Bairro São Pedro, o Guaporé. Depois, passei por outras escolinhas, como a do Zico, sempre conciliando esse trabalho com o projeto da universidade. Minha primeira oportunidade profissional veio no projeto de futebol do Pérolas Negras. Em seguida, fui para o Tupynambás, onde trabalhei ao lado do professor Walker Campos e aprendi muito com ele. Passei pelo Tupi e, na sequência, surgiu a oportunidade de integrar a comissão do América-MG. Tenho um carinho enorme pelo América. É um clube que ocupa um lugar especial na minha história, pelas pessoas com quem trabalhei, pelas amizades que construí e pelo período que vivi em Belo Horizonte. Depois disso, segui para o Botafogo-PB e para o Floresta. Já rodei bastante.
Tribuna: Lá no Botafogo-PB, você trabalhou com o Felipe Surian e o Vinícius Argirita, também de raízes em Juiz de Fora?
João: Isso. Tenho muito carinho pelos dois. O Felipe foi quem reabriu as portas do futebol profissional para mim. Já o Vinícius é muito mais do que um colega de trabalho; tornou-se um grande amigo. Foi um dos principais responsáveis por eu ir para o futebol da Indonésia. Ele sempre me convidava e, graças a Deus, dessa vez deu certo. Fizemos um trabalho muito especial por lá. Depois (do Botafogo-PB) surgiu a oportunidade de trabalhar em Portugal, no Alverca. Foi uma experiência maravilhosa. Disputamos a segunda divisão portuguesa e conquistamos o acesso à primeira liga, onde o clube joga atualmente. Na sequência, fui para o Borneo, novamente a convite do Vinícius. Também sou muito grato ao professor Fábio Lefundes, que me deu essa oportunidade, e ao preparador físico João Pedro Rayol, de Leopoldina, que teve um papel fundamental ao convencer a comissão de que eu poderia contribuir com o projeto.
Tribuna: João, você passou por Juiz de Fora, Belo Horizonte, Nordeste, Portugal e agora está na Indonésia. O que muda no perfil dos goleiros? Existe alguma diferença marcante?
João: Essas experiências em diferentes cenários me mostraram que o futebol está cada vez mais globalizado. Em Portugal, por exemplo, dos quatro goleiros que eu treinava, três eram brasileiros, então a adaptação foi mais simples. Quando fui para a Indonésia, imaginei que encontraria um futebol muito diferente. Na prática, percebi que o jogo é muito parecido em qualquer lugar. Existem diferenças culturais e históricas, mas a essência do futebol é a mesma. Se eu tivesse que destacar uma característica dos atletas de lá, seria a disciplina. São extremamente respeitosos, aceitam a hierarquia com naturalidade e têm um compromisso muito grande com o trabalho. Também me surpreendi com a receptividade. Apesar da barreira do idioma, fui muito bem acolhido pelos atletas e pelo clube.
Tribuna: Você dá os treinos em que língua?
João: Essa foi uma experiência bem interessante. Eu cheguei lá totalmente preparado para dar os treinos em inglês. Só que, quando cheguei ao clube, encontrei quatro goleiros locais, todos indonésios, e apenas um deles dominava o inglês. Com o tempo, percebi que precisava aprender o bahasa indonésio. Então, todas as noites, quando ia planejar a sessão do dia seguinte, eu montava o treino em inglês, separando as palavras-chave e os principais feedbacks que precisaria passar. Aos poucos, comecei a fazer esse planejamento também na língua local, justamente para aprender novas palavras e conseguir me comunicar melhor com os atletas. A imersão foi essencial nesse processo. Eu moro em uma cidade pequena, onde nem todo mundo fala inglês, então aprender o idioma acabou sendo uma necessidade para o dia a dia e para o trabalho.
Tribuna: E o goleiro titular é muito conhecido, certo?
João: Na nossa primeira temporada, treinamos o melhor goleiro da liga, o Nadeo, que já soma mais de 20 convocações para a Seleção da Indonésia. Fizemos uma campanha histórica: terminamos empatados em pontos com o campeão, ambos com 79, mas perdemos o título nos critérios de desempate. Mesmo assim, foi uma temporada inesquecível e um dos motivos que me fizeram renovar contrato por mais três anos.
Tribuna: E o reconhecimento, como é?
João: É impressionante. Minha companheira, Mariana, foi comigo e, muitas vezes, quando saímos para fazer compras, as pessoas nos param para pedir fotos. O carinho deles é algo que realmente chama atenção. Desde o primeiro dia fui muito bem recebido. Quando a renovação do meu contrato foi anunciada, recebi inúmeras ligações e chamadas de vídeo de torcedores agradecendo por eu ter decidido permanecer. O povo indonésio é apaixonado por futebol, assim como o brasileiro. Os estádios costumam estar cheios e o esporte cresce rapidamente no país. A Indonésia chegou pela primeira vez à fase final das Eliminatórias da Copa do Mundo e existe uma expectativa muito grande de disputar a próxima edição. Tenho apenas palavras de gratidão pela forma como fui acolhido.
Tribuna: Para a próxima temporada, quais são os objetivos?
João: É manter a performance dos goleiros, meu primeiro objetivo é essa consistência. Continuar com o Nadeo sendo convocado para a Seleção, e fazer um bom Campeonato Indonésio.
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