
“Um dos jogadores importantes do esquema do Tupi”, diz a legenda da foto publicada em jornal desbotado e emoldurado, guardado até hoje da forma como o considera: na sala de troféus – o único conquistado como jogador, o que, hoje, pouco importa, tamanha história construída.
Walmir Lima era meia. Chegou ao Galo Carijó com 13 anos de idade, jogou no juvenil, juniores, e subiu para o profissional. Foi jogar no Central Sport Clube, de Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, e voltou para Juiz de Fora, encerrando a carreira com 30 anos, no Sport Club.
O convite para a base do Tupi veio quando, ainda criança, treinava no campo do Bonsucesso – no Bairro Industrial, Zona Norte da cidade –, mesmo lugar onde, há 25 anos, treina outros garotos. Reabriu a escolinha da infância após ficar cerca de cinco anos trabalhando em uma indústria de tecnologia médica.
Hoje, com 60 anos, ele entende porque não conseguiu se afastar daquele gramado por muito mais tempo: “Quem gosta de futebol, está no sangue, queira ou não queira”.
Dos cinco aos 17 anos de idade, treina cerca de 150 que sonham em ser jogadores profissionais, como o ponta Guilherme Smith – que já disputou Champions League, no futebol belga –, o zagueiro Marcelo – ex-Flamengo, falecido no acidente da Chapecoense –, o lateral-direito Israel, ex-Tupi e Tupynambás, hoje no Duque de Caxias (RJ), e o volante Moysés – que já passou pelo sub-20 do Athletic e hoje joga no futebol paulista.
Mas não formou nenhum deles. “Tem muitos aí que falam assim: ‘Eu fiz o jogador’. Ele treinou o jogador, mas falar que fez o menino eu acho complicado. Isso aí já vem dele, é o dom da pessoa”, acredita.
Do sonho de criança à responsabilidade de adulto
“Quando o Guilherme esteve aqui, a gente viu o brilho nos olhos das crianças. Muitos falam que querem ser jogadores profissionais, mas eu falo com eles que não é fácil”, ele prepara, indo além das quatro linhas:
“Vocês têm que treinar muito, têm que obedecer o treinador, mas outra coisa, a mais importante, é obedecer um pai, uma mãe, e estudar”.
Lidar com os sonhos alheios é uma tarefa delicada. “Muitos vão ter esse sonho e não vão conseguir”, reconhece. “Então a gente prepara a cabeça deles dentro disso. Falo, ‘olha, você pode não ser um jogador de futebol, mas pode ser um médico, um advogado’. A vida é assim”.
Ele relata que permite a muitos do sub-15 e sub-17 jogar mesmo sem treinar, porque o trabalho os impede. “E a gente incentiva eles, fala que tem que trabalhar, tem que ajudar em casa”.

Diversão e futebol arte
O treinador tem muita dificuldade de estimar quantos jovens jogadores passaram pelo seu comando, mas diria que mais de 3 mil: “Tem criança que passou por aqui, hoje já está casada, tem filhos. Onde eles me vêem, eu acho a coisa mais bonita, porque param, vêm me cumprimentar, me abraçar. O importante da vida também é isso”.
A mesma dificuldade ele tem em calcular os títulos conquistados pelo Bonsucesso, dentro e fora da cidade: “Nós temos ali uma salinha lotada de troféus, tem troféu esparramado, tem troféu na minha casa. É muito título”. Mas sabe bem os que guarda com mais carinho: a Copa Prefeitura Bahamas, também várias vezes conquistada, “porque é uma das copas mais importantes que tem em Juiz de Fora, todo mundo quer participar”.
A última competição disputada foi no ano passado, a Liga de Futebol de Juiz de Fora, em que foram campeões sub-17, contra o Tupi, no Estádio Municipal. Atualmente, disputam a Liga e a Copa Bahamas, em todas as categorias. “E aqui, se o menino tiver oito, nove anos, a gente põe no sub-11 para jogar”, ressalta, garantindo que mesmo assim, dá resultado, embora essa parte seja “consequência”.
Assim é o futebol que ele gosta de transmitir, sem cobranças, em nenhuma categoria. Ele cita, como mau exemplo, muitos pais que, hoje em dia, gritam com os filhos na beira do campo: “E o futebol está indo para pior, porque muitas crianças estão parando de jogar bola, não estão querendo jogar, aquilo está entrando na cabeça delas”.
“Eu falo com o meu time: ‘vocês vieram aqui para se divertir, vai jogar a bola de vocês e brincar’. (…). Não é chegar aqui e falar: ‘você tem que fazer isso, é obrigado’, nada disso. São crianças. Você tem que saber trabalhar com a cabeça das crianças”.
Ao passo que no sub-17, categoria mais desenvolvida, trata como “iguais” ou até mesmo como “filhos”: “A gente brinca com eles, acaba o treino, a gente fica conversando com eles aqui. (…) A gente não cobra deles, mas o treinamento é sério”.
Inspirado em Telê Santana, tem como pilares o esmero no domínio, no passe e na batida na bola. Também aplica muito cobranças de falta, vendo a escassez de bons batedores no futebol brasileiro. “Antigamente, na época de Zico, era mais bonito ver futebol, era mais alegre”. A nostalgia explica porque a tática que trabalha é a de sempre jogar mais à frente, sendo um crítico assumido do jogo posicional. “Tem horas que dá até raiva de ver”.
Base à base de ajuda
Walmir conta que Guilherme Smith tem intenções de fazer um projeto para auxiliar as crianças do Bonsucesso, por meio de seu instituto. “Aqui tem muita criança carente, e a gente sempre precisa de ajuda”. Segundo a secretária do clube, Alessia de Oliveira, 58 anos, cerca de um terço dos alunos estariam pagando a mensalidade total, que é de R$ 80. Além dos dois, apenas Alisson, 34, filho de Walmir, também treinador, tocam o projeto. “O importante é tirar as crianças da rua”, repetem constantemente.
Walmir se orgulha de ter muitas amizades no bairro, onde mora há 60 anos, e afirma que é assim que consegue manter o projeto: “Uns colegas vêm, quando a gente vai jogar em algum lugar, dão uma ajuda. Nós temos o Geraldo da farmácia que ajuda, o Irineu ajuda”.
A maior preocupação de Walmir na escolinha é a alimentação. Ele analisa, inclusive, que, às vezes, uma criança não está se desenvolvendo como poderia porque não tem uma alimentação adequada. “Tem um pastor agora que o filho dele joga aqui, e a gente vai tentar trazer frutas para eles, depois do jogo”.
Após as chuvas de fevereiro, a escolinha também foi reerguida da mesma forma. O campo ficou alagado, materiais foram perdidos e os treinos, paralisados. “Quando eu cheguei aqui, até assustei. Achei que a gente não ia conseguir pôr esse campo do jeito que está. Mas aí veio ajuda, ganhamos bola, travinha, um monte de coisas”.
Até o fim da vida
“É uma luta gostosa”, diz ele, que sai de casa pela manhã para trabalhar “com a maior alegria”: “Porque minha vida sempre foi isso. Minha mãe brincava, ‘meu filho, você não sai do campo’. Ela tinha que me chamar para almoçar, ficava jogando bola o dia todo”.
Walmir acredita no projeto e afirma que já foi convidado para trabalhar em outros lugares, mas não pretende sair nunca:
“Peço a Deus que me dê saúde e eu ainda toque esse barco. (…) Até o final da vida eu quero fazer esse trabalho aqui. É importante, isso dá vida à gente, você fazer seu trabalho com amor. Tem que fazer com amor, entendeu?”.
Walmir é o sétimo personagem da série “Fala, Mestre”. A proposta do projeto da Tribuna é valorizar a trajetória de treinadores dos mais diversos esportes na cidade, relembrar personalidades marcantes e reforçar o poder da atividade física na transformação social, no lazer e na saúde, sob a orientação de profissionais da área. Até o momento, foram publicadas matérias com Gerson Willian, do futsal; Altina Carla, do muay thai; Giselle Muniz, da natação; Zirlene dos Santos, do atletismo; Ivan Gal, do futsal; e Carlos Silva, do dutch kickboxing.

